Dra. Ana Paula Fonseca explica o crescimento das ISTs no pós-folia e reforça que a informação é o melhor remédio contra o pânico
O fim do Carnaval costuma trazer, além da saudade dos blocos, um sinal de alerta nos consultórios ginecológicos. O aumento de encontros casuais, frequentemente combinado ao consumo de álcool e à negligência no uso de preservativos, cria o cenário ideal para a propagação de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). No entanto, especialistas são categóricos: embora a atenção deva ser redobrada, o desespero não ajuda no diagnóstico. Segundo a ginecologista Dra. Ana Paula Fonseca, o segredo para lidar com o período pós-folia está na observação consciente e na busca por orientação médica qualificada, substituindo o medo pela prevenção eficaz.
O pós-carnaval traz um misto de sentimentos, um deles é mais comum, o esforço que o corpo tem que fazer além do habitual, a metabolização do álcool. Ingerir bebidas alcoólicas em excesso traz muitos problemas, como: dor de cabeça, náuseas, diarreia, desidratação, cansaço extremo e até problemas na proteção sexual.

Para o sexólogo Vitor Mello, “Fisiologicamente, o álcool é um depressor do sistema nervoso central. Isso significa que ele reduz reflexos, sensibilidade e resposta sexual. Nas mulheres, pode ocorrer diminuição da lubrificação, o que causa dor e desconforto, além de atrapalhar a excitação e reduzir a percepção de prazer”, nos homens o álcool pode trazer prejuízos para a ereção e ter diminuição na sensibilidade. Para evitar isso, e ter mais saúde sexual, é importante que:
- Buscar estar bem hidratado;
- Consumir alimentos leves;
- Ter momentos de repouso;
- Evitar consumir em excesso;
- Consultar um médico sempre que possível.

O Ranking das Infecções Pós-Folia
De acordo com a Dra. Ana Paula, o aumento na procura por consultas não é apenas fruto do receio, mas de sintomas reais que surgem pouco tempo após as festas. As infecções bacterianas lideram o ranking de diagnósticos imediatos devido ao seu curto período de incubação.
- Clamídia e Gonorreia: Apresentam sintomas em poucos dias ou semanas.
- Sífilis: Tem registrado um aumento preocupante e exige testes de sangue específicos.
- HPV e HIV: São infecções virais que podem ser silenciosas inicialmente, exigindo um monitoramento a longo prazo.

“As ISTs bacterianas costumam aparecer mais rápido. Já o HIV e o HPV podem levar meses para serem detectados, o que reforça a importância do acompanhamento mesmo que você se sinta bem”, explica a médica.
“O preservativo é indispensável em relações casuais, com parceiros de status sorológico desconhecido, múltiplos parceiros e em qualquer prática sexual que envolva risco de contato com secreções”, reforça Raquel Bandeira, médica infectologista.
Sinais de Alerta: Quando Ligar o Radar?
Muitas vezes, a anatomia feminina faz com que as infecções sejam menos óbvias do que nos homens. A Dra. Ana Paula destaca que a ausência de sintomas não é garantia de saúde. Contudo, alguns sinais exigem uma visita imediata ao ginecologista:
- Corrimento com cor ou odor fora do comum.
- Dor pélvica ou desconforto durante a relação sexual.
- Ardência ao urinar.
- Feridas, bolhas ou verrugas na região genital.
- Sangramento fora do período menstrual.

A Janela Imunológica e o Perigo da Automedicação
Um dos maiores erros após uma exposição de risco é a pressa em fazer exames ou o uso de antibióticos por conta própria. A “janela imunológica” é o tempo que o corpo leva para produzir anticorpos detectáveis pelos testes.
“O ideal é buscar avaliação profissional, que indicará o momento certo para cada exame. Se medicar sem diagnóstico pode mascarar sintomas e dificultar a cura real da infecção”, orienta a ginecologista.
Tabela de Cuidados: O que fazer agora?
| Momento | Ação Recomendada |
| Imediato | Observar sintomas e evitar novas relações sem proteção. |
| Até 72h | Em casos de exposição de alto risco (rompimento de preservativo), avaliar a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) em unidades de saúde. |
| 15 a 30 dias | Realizar testes de triagem para sífilis, clamídia, gonorreia e HIV. |
| Sempre | Manter o acompanhamento ginecológico de rotina. |
Prevenção sem Estigma
Cuidar da saúde sexual deve ser visto como uma rotina de autocuidado, desprovida de culpa. A Dra. Ana Paula reforça que o uso do preservativo continua sendo a barreira mais eficaz, mas que o diálogo e a testagem regular são os pilares de uma vida sexual saudável.
“Cuidar da saúde sexual é um ato de responsabilidade. Quanto mais cedo a pessoa procura orientação, mais simples e eficaz é o tratamento”, finaliza a médica.

Pós-Carnaval: Saúde Sexual em Pauta
O Carnaval é um dos períodos de maior interação social no Brasil, mas o encerramento da festa marca também o início de um momento crucial para o autocuidado. O relaxamento das medidas de proteção e o aumento de comportamentos de risco durante a folia costumam refletir diretamente no aumento da busca por atendimento médico especializado nas semanas seguintes.
Para esclarecer as principais dúvidas sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), janelas imunológicas e sinais de alerta, conversamos com dois especialistas: Dr. Klinger Faíco, infectologista e professor da UNIFESP, e o Dr. Marcelo Neubauer, infectologista e professor da PUC Campinas. Confira as orientações:
Quais são as ISTs que mais costumam aparecer nos consultórios após o Carnaval e por que isso acontece?
- Dr. Klinger Faíco: É comum observar um aumento de diagnósticos de sífilis, gonorreia, clamídia, herpes genital, HPV e também de casos novos de HIV e hepatites virais. Isso ocorre devido o período costuma envolver mais socialização, encontros, em algumas situações, relações sem o uso do preservativo. Além disso, o consumo de álcool e outras substâncias podem diminuir a percepção de risco e levar a decisões mais impulsivas. Isso não se trata de julgamento, mas de entender que momentos de festa muitas vezes mudam o comportamento das pessoas.
- Dr. Marcelo Neubauer: Atualmente sífilis e HIV. Isto acontece porque as pessoas se relacionam sem se proteger.
Houve relação sem camisinha: quanto tempo esperar para os exames e qual o momento certo para um resultado confiável?
- Dr. Klinger Faíco: Existe um tempo ideal, chamado janela imunológica. Alguns testes para bactérias (gonorreia e clamídia) podem ser feitos poucos dias após a exposição. Exames para HIV, sífilis e hepatites costumam ter maior precisão após algumas semanas, geralmente em torno de 30 dias para o HIV. Se a relação ocorreu há menos de 72 horas, é fundamental procurar um serviço de saúde para avaliar a necessidade da PEP (Profilaxia Pós-Exposição).
- Dr. Marcelo Neubauer: Deve procurar um médico imediatamente. Existem medidas profiláticas que devem ser iniciadas antes de 72 horas da relação desprotegida.
É possível estar com alguma IST e não sentir nada? Quando procurar o médico mesmo sem sintomas?
- Dr. Klinger Faíco: Sim, e isso é mais comum do que muita gente imagina. Algumas infecções permanecem silenciosas por meses. Vale procurar um médico sempre que houver relação sem preservativo, troca recente de parceiros ou como parte do cuidado de rotina. É essencial fazer exames mesmo sem sintomas como forma de prevenção.
- Dr. Marcelo Neubauer: Sim. HIV e Sífilis podem ficar silenciosas por anos. A gonorreia pode não dar sintomas nas mulheres. Deve procurar um médico que se expôs sem proteção.
Quais sinais no corpo devem servir de alerta para buscar atendimento o quanto antes?
- Dr. Klinger Faíco: Feridas, bolhas ou verrugas na região genital, corrimento diferente do habitual, dor ou ardência ao urinar, dor pélvica ou nos testículos, ínguas na virilha, manchas pelo corpo ou febre sem explicação. Nem sempre indicam uma IST, mas são sinais de que o corpo pede avaliação.
- Dr. Marcelo Neubauer: Lesões ou corrimentos genitais, manchas na pele ou simplesmente ter se exposto sem proteção.
Além da camisinha, o que mais pode ser feito para proteção após uma situação de risco?
- Dr. Klinger Faíco: Procurar atendimento para avaliar a PEP, realizar exames no momento correto e evitar novas exposições até esclarecer a situação. É necessário manter a vacinação em dia (Hepatite B e HPV). Para quem tem exposições frequentes, a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) pode ser uma estratégia eficaz. Cuidar da saúde sexual é um ato de autocuidado, não um motivo de culpa.
- Dr. Marcelo Neubauer: Não existe outro método de proteção exceto não manter relações.
Fonte: Metrópoles e Estado de Minas






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