No Março Amarelo, especialistas alertam que a normalização da cólica menstrual impede que 1 em cada 10 mulheres receba o tratamento adequado precocemente

O mês de março ganha o tom amarelo para iluminar uma realidade muitas vezes negligenciada: a endometriose. Estimativas baseadas em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a doença afeta aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva — cerca de 8 milhões de brasileiras e 200 milhões no mundo. No Brasil, a estimativa varia entre 5% a 15%, de acordo com o Ministério da Saúde, porém, o diagnóstico definitivo pode levar anos, ter a fertilidade comprometida e a qualidade de vida prejudicada, barrado principalmente pela perigosa ideia de que sentir dor extrema durante o ciclo menstrual é “normal”.

Créditos: Reprodução/Freepik

Diversos fatores podem levar anos para levar ao diagnóstico, como:

  • Diagnóstico tardio: A média do diagnóstico é de 7 anos (Brasil), podendo variar de 8 a 10 anos para a maioria das mulheres, “no mundo todo, há uma grande dificuldade para fazer o diagnóstico precoce. É uma barreira que ao longo do tempo não melhorou”, afirma Quintairos.
  • Sintomas não especificados: Sintomas como cólicas fortes, se confundem com outros tipos de problemas ginecológicos, o que atrasa ainda mais o diagnóstico;
  • Falta de conhecimento: A falta de conhecimento por parte dos médicos que não tem familiaridade com a endometriose, dificultando a chegada do diagnóstico; 
  • Estigmas: Sentir dores intensas muitas das vezes é normalizada, agravando o diagnóstico.

“Os sintomas da endometriose podem surgir em outras situações, não são específicos, o que dificulta o diagnóstico”, explica a ginecologista e obstetra Renata Lopes Ribeiro, mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). A avaliação dos sintomas da doença é feita por meio de uma avaliação médica, que faz a observação de uma série de quesitos. O exame físico é muito importante e ajuda a identificar os sinais da doença. “Esse mapeamento detalhado permite direcionar o melhor tratamento para cada paciente, sempre sob a coordenação do ginecologista, que acompanha a mulher ao longo de toda a jornada do diagnóstico ao tratamento”, explica Caiado.

Créditos: Reprodução/Freepik

A combinação destes fatores, tornam o diagnóstico da endometriose um grande desafio para as mulheres, ainda mais por ser uma doença recorrente, crônica e que não possui cura definitiva, porém é considerada como benigna. E para a ginecologia moderna, a endometriose é um dos grandes obstáculos a serem enfrentados. Até o momento, a doença não tem um tratamento que possa eliminar definitivamente e impedir que retorne. “É uma doença que depende de mecanismos genéticos que a fazem persistir no corpo da mulher”, explica o ginecologista Rubens Paulo Gonçalves Filho, especialista em endometriose do Einstein Hospital Israelita.

De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a questão da infertilidade pode atingir de 30% a 50%. “A dor pode vir acompanhada da dificuldade de engravidar, que pode coexistir com outros sintomas. As manifestações mais comuns são dor pélvica e infertilidade, mas isso não exclui que a mulher apresente todo o conjunto”, relata Gonçalves Filho.

Créditos: Imagem de therapractice por Pixabay

O que é a Endometriose?

A doença caracteriza-se pelo crescimento do endométrio — tecido que reveste o interior do útero — fora da cavidade uterina. A endometriose atinge os ovários, tubas uterinas, intestino e peritônio. Segundo o Dr. Marcos Tcherniakovsky, ginecologista e Diretor de Comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE), o problema surge quando esse material reflui pelas tubas durante a menstruação. As células respondem ao ciclo hormonal da mesma forma que o endométrio dentro do útero, que crescem e sangram. 

“Esse tecido pode se implantar em regiões como ovários, intestino e bexiga, desencadeando uma reação inflamatória que varia de quadros leves até manifestações severas”, explica o médico. Esse risco existe durante todo o menacme (período reprodutivo), que vai da primeira menstruação até a menopausa.

Créditos: Reprodução/Freepik

De acordo com dados mais recentes do Sistema Único de Saúde (SUS), foi registrado um aumento significativo nos atendimentos na atenção primária relacionados ao diagnóstico da endometriose. No ano de 2022, foram realizados cerca de 82.693 atendimentos, número que cresceu para 115.765 em 2023. Dados referentes ao ano de 2024 já atingem a marca de 145.744 atendimentos. Nos anos de 2021 a 2024, o crescimento foi de aproximadamente 76,24%, trazendo um impacto significativo nos atendimentos. 

Sinais de Alerta e Impacto

A dor da endometriose não é um incômodo passageiro; ela é frequentemente incapacitante e com dores crônicas, comprometendo a fertilidade nas mulheres. Os principais sinais incluem:

  • Dismenorréia intensa: Cólicas profundas;
  • Dor pélvica crônica: Fora do período menstrual;
  • Dispareunia: Dor durante as relações sexuais;
  • Sintomas cíclicos: Desconforto urinário ou intestinal durante a regra;
  • Infertilidade: Dificuldade para engravidar.
Créditos: Reprodução/Freepik

Além destes, um sintoma comum e pouco discutido é a “endobarriga”. O ambiente inflamatório causa inchaço abdominal e retenção de líquidos, muitas vezes confundidos com problemas digestivos comuns.

O Fator Verão

As altas temperaturas podem agravar o quadro. “O calor dilata os vasos sanguíneos, aumentando o edema (inchaço), a dor e a sensação de ganho de peso”, alerta o Dr. Marcos. Ele ressalta que até o uso de pílulas anticoncepcionais (comuns no tratamento) pode contribuir para essa retenção de líquidos em dias quentes.

Diagnóstico e Qualidade de Vida

Quanto mais cedo a detecção, maiores as chances de preservar a fertilidade e evitar complicações graves. No entanto, o atraso por muitas das vezes levado no silêncio e na normalidade leva ao diagnóstico tardio, atrelado a falta de informação e dificuldades no acesso. O tratamento é personalizado e pode envolver:

  1. Terapias farmacológicas e hormonais;
  2. Intervenções cirúrgicas em casos avançados;
  3. Acompanhamento multidisciplinar (fisioterapia pélvica, nutrição e apoio emocional).

Para amenizar os sintomas no dia a dia, o especialista recomenda a prática de exercícios físicos (3 a 4 vezes por semana) para regular o estrogênio e melhorar a imunidade, além de uma dieta com baixo teor de sal, açúcar e gorduras industrializadas.

O Março Amarelo busca romper o ciclo de silêncio. “É fundamental reforçar que a dor incapacitante não deve ser considerada comum”, finaliza o médico.

Créditos: Reprodução/Freepik

A dor não pode ser normal: Um diálogo sobre Endometriose com a Dra. Flaviana Teixeira

A endometriose afeta milhões de mulheres no Brasil, mas o caminho até o diagnóstico ainda é marcado por anos de silenciamento e a perigosa ideia de que “sentir dor forte é normal”. Para romper com esse ciclo, conversamos com a Dra. Flaviana Teixeira, especialista que traz um olhar atento e humanizado sobre o manejo da doença.

Nesta entrevista, exploramos desde os sinais de alerta que diferenciam uma cólica comum de um quadro patológico até a importância vital da fisioterapia pélvica e do diagnóstico precoce para devolver a autonomia e a qualidade de vida às pacientes. Confira os principais pontos desse diálogo essencial para a saúde feminina.

Cólica ou Endometriose? Os sinais de alerta que não devem ser ignorados

Pergunta: A normalização da cólica intensa ainda atrasa muito o diagnóstico da endometriose no Brasil. Na sua prática clínica, quais sinais diferenciam uma cólica “comum” de um quadro que merece investigação especializada?

Dra. Flaviana Teixeira: Na minha prática, eu sempre explico que cólica comum pode ser desconfortável, mas não deve incapacitar. Quando a dor impede a mulher de trabalhar, estudar ou manter sua rotina, quando há necessidade recorrente de analgésicos fortes ou quando essa dor piora a cada ciclo, já não estamos falando de algo esperado. Também considero sinais de alerta a dor fora do período menstrual, dor profunda na relação sexual e dor para evacuar ou urinar durante a menstruação. Dor incapacitante não é normal e precisa ser investigada com seriedade.

Créditos: Reprodução/Freepik

O papel da fisioterapia pélvica no combate à “Endobarriga” e à dor crônica

Pergunta: A dor pélvica crônica e sintomas como dispareunia e “endobarriga” impactam fortemente a qualidade de vida. Como a abordagem multidisciplinar — especialmente com a fisioterapia pélvica — pode ajudar no controle desses sintomas?

Dra. Flaviana Teixeira: A dor pélvica crônica, a dispareunia e o chamado “endobarriga” impactam muito a qualidade de vida porque não afetam apenas o corpo físico, mas também autoestima, relacionamento e saúde emocional. A endometriose gera um estado de defesa constante da musculatura do assoalho pélvico, com tensão e pontos dolorosos que mantêm o ciclo da dor. A fisioterapia pélvica atua justamente nesse ponto, ajudando a reduzir a tensão muscular, melhorar a mobilidade, trabalhar respiração e consciência corporal e tratar a dor na relação. Quando essa abordagem acontece de forma integrada com ginecologista, nutricionista e, muitas vezes, psicólogo, conseguimos resultados mais consistentes e duradouros.

Créditos: Reprodução/Freepik

Estratégias práticas para lidar com o calor e o inchaço abdominal

Pergunta: Sabemos que o calor pode agravar o inchaço e a dor. Que orientações práticas você costuma dar às pacientes para lidar com esses fatores no dia a dia, principalmente em regiões mais quentes do Brasil?

Dra. Flaviana Teixeira: O calor pode, sim, intensificar o inchaço e a dor. No dia a dia, oriento minhas pacientes a manterem uma boa hidratação, evitar roupas apertadas e priorizarem tecidos leves. Também reforçou a importância de se movimentar regularmente, mesmo que com atividades leves, porque ficar muito tempo sentada aumenta a pressão na pelve. A respiração diafragmática ajuda a reduzir a pressão abdominal e melhorar a percepção corporal. Além disso, observar quais alimentos aumentam a distensão intestinal pode ajudar a controlar o desconforto. São ajustes simples, mas que fazem diferença quando aplicados com constância.

Créditos: Reprodução/Freepik

Diagnóstico precoce: O caminho para preservar a fertilidade e o bem-estar emocional

Pergunta: Considerando que a endometriose pode afetar fertilidade e saúde emocional, qual a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento contínuo para preservar a qualidade de vida da paciente a longo prazo?

Dra. Flaviana Teixeira: O diagnóstico precoce é essencial. Quanto antes identificamos, menores são as chances de a dor se cronificar e de surgirem compensações musculares importantes. Mas não basta diagnosticar, é necessário acompanhamento contínuo. A endometriose é uma condição crônica, e a mulher precisa aprender a manejar seu corpo ao longo da vida. Com suporte adequado, ela não vive apenas reagindo à dor, mas passa a ter mais autonomia, previsibilidade e qualidade de vida a longo prazo.

Fonte: Correio 24 horas/CNN

Deixe um comentário

About the Podcast

Welcome to The Houseplant Podcast, your ultimate guide to houseplants! Join us as we explore the wonders and importance of plants in our lives.

Explore the episodes