De dicas valiosas de quem fatura milhões a histórias de resistência no interior paraibano, a gestão do dinheiro se confirma como a chave para a liberdade real das mulheres
O empreendedorismo feminino nasce, muitas vezes, do desejo de liberdade, mas esbarra em uma barreira invisível: a relação cultural e emocional com o dinheiro. A nível global, o empreendedorismo feminino tem dado destaque para a economia, com o impulsionamento de modo significativo, promovendo a igualdade de gênero no ambiente corporativo. Mais do que dominar planilhas, a conquista da autonomia passa por romper ciclos de insegurança, aprender a precificar o próprio valor e separar a vida pessoal da empresarial.
Essa jornada de superação une realidades aparentemente distantes: desde a trajetória de Patrícia Baudy, CEO da Confidence Semijoias, que transformou R$ 5 mil em um faturamento anual de R$ 10,5 milhões, até a revolução silenciosa das mulheres do interior da Paraíba, que hoje sustentam comunidades inteiras em todo o estado. O empreendedorismo feminino tem raízes profundas e com a modernização da sociedade tem ganhado cada vez mais destaque.

Na Paraíba, a autonomia financeira é um marco bastante significativo para a promoção do empreendedorismo feminino. De acordo com o SEBRAE/PB, houve um aumento no número de mulheres empreendedoras em todo o estado, fazendo com que a Paraíba ganha destaque com uma estimativa de 160 mil mulheres empreendedoras. Em números, esse quantitativo representa 35% de todos os empreendedores do estado. No entanto, cerca de 70,5% ainda vivem no mercado informal.
“São mulheres que têm dupla ou tripla jornada e que, por outras questões, não se preparam para ter o seu próprio negócio. Têm dificuldade de conciliar a vida pessoal com a profissional, muitas vezes, porque a vida pessoal exige muito dela, enquanto mãe e esposa. Mas, ao mesmo tempo, ela enxerga o empreender como uma forma de se empoderar e se posicionar na sociedade”, explica a gerente da Unidade de Educação Empreendedora do Sebrae/PB, Humara Medeiros.

Estes números têm uma representação muito importante, pois traz o reflexo de mudanças e mostra a capacidade das mulheres no ramo do empreendedorismo. E no processo de gerenciamento de suas finanças e do negócio. Para o sucesso do empreendedorismo, ter motivação é o ponto crucial para o negócio, isso vai além de ter seu próprio sustento mas serem protagonistas na contribuição do desenvolvimento econômico do local onde vivem, seja no norte ou sul do país.
“Cada vez mais as mulheres têm voz para falar sobre suas necessidades, dores e seus avanços e conquistas. A gente percebe que as mulheres têm ocupado um lugar de destaque na sociedade. Porém, a gente precisa conquistar ainda mais espaços, porque existe uma diferenciação para várias ações. Temos que celebrar as conquistas que tivemos até aqui, mas não perder de vista o que ainda está por vir”, acrescenta Humara Medeiros.
Ter autonomia em gerenciar seu próprio negócio, tornou-se um passo muito importante para a dignidade da mulher em uma sociedade tão machista, ao qual muitas sofrem com os mais diferentes tipos de violência. Nisso, o estado da Paraíba desempenha um papel importante, pois promove o empreendedorismo feminino, trazendo recursos e meios que possam ajudar para que a mulher consiga superar os desafios e ter independência financeira. Passo esse crucial e para trazer impactos sociais e econômicos.

Ser dona do próprio negócio, é um grande desafio para as mulheres, que têm que ter tempo para desempenhar outras atividades como o cuidado consigo mesmas. “O maior desafio é carregar responsabilidades, financeira, emocional, estratégica, e ainda manter o sorriso e a confiança. Mas aprendi que o segredo não é ser forte o tempo todo. É ser resiliente. Conciliar empresa e vida pessoal exige organização, mas principalmente maturidade. Eu entendi que preciso cuidar de mim para cuidar do meu negócio”, conta a empresária Wyama Medeiros, dona de uma loja na cidade de Pombal (PB).
A mulher atual se divide entre os cuidados com a família e o gerenciamento do seu negócio, realidade essa que marca a vida de metade das mulheres brasileiras. Segundo dados do Sebrae/PB, no Brasil cerca de 52,5% das donas do próprio negócio também são donas de casa. Trazendo esse percentual para nível estadual, a Paraíba, esse percentual sobe para 53,6%.
De acordo com os dados da instituição, que são referentes a 2025, o estado somava 160 mil mulheres empreendedoras, o que corresponde a 35% dos empreendedores em todo o estado. No Brasil são 10,4 milhões de empresárias, dados esses que encerraram o ano de 2024, segundo levantamento do SEBRAE com base em uma pesquisa realizada pelo IBGE.

Fatores que levaram ao crescimento do empreendedorismo feminino
Ao longo do tempo, o empreendedorismo feminino obteve crescimento significativo devido a alguns fatores:
- Aumento da educação feminina;
- Mudanças socioeconômicas;
- Incentivos governamentais;
- Conscientização sobre a diversidade de gênero.
O Desafio de “Aprender a Cobrar”
Para Patrícia Baudy, o maior gargalo para quem começa não é a venda em si, mas a gestão do que entra. “Para aprender a vender, é preciso aprender a cobrar”, afirma a empresária. Essa dificuldade de separar as contas de casa do caixa da empresa é um reflexo cultural que atinge tanto as grandes metrópoles quanto o pequeno negócio no interior paraibano e em outros estados, como menciona a jornalista e proprietária da Agência Empírio Digital da cidade de Santana dos Matos/RN, Clara Damasceno:
“Eu comecei muito jovem, com 15 anos, trabalhando com comunicação. No início, como acontece com muita gente, a gente tem dificuldade de colocar preço no próprio trabalho, porque ainda está construindo confiança e reconhecimento. Com o tempo eu fui entendendo que conhecimento, estratégia e resultado também têm valor. Quando criei a Empírio Digital, precisei aprender não só sobre marketing, mas também sobre gestão financeira. Hoje eu entendo que cobrar de forma justa é essencial para manter a empresa saudável e continuar entregando resultados para os clientes”, afirma Clara Damasceno.
Longe dos centros litorâneos, no coração do Semiárido e nas serras do Brejo, as artesãs digitais, líderes do agronegócio e gestoras de pousadas enfrentam desafios logísticos, mas compensam com redes de apoio comunitárias robustas. Para elas, a gestão financeira eficiente é o que permite transformar saberes ancestrais — como a renda renascença — em produtos de luxo competitivos no e-commerce global.

No Brasil, dados do SEBRAE mostram que muitas empreendedoras ainda enfrentam dificuldades em conseguir crédito, e o faturamento delas ainda é menor do que o dos homens, mesmo que tenham o mesmo nível de instrução acadêmica. No entanto, o empreendedorismo feminino tem desempenhado um papel muito importante, o de lutar pela igualdade de gênero.
“Eu percebi que quando uma mulher empreende isolada, ela enfrenta mais medo. Mas quando ela empreende em rede, ela encontra força. Apoiar outras mulheres é algo que toca profundamente meu coração. Porque sei o quanto o apoio certo pode mudar uma história. Quando uma mulher cresce no seu negócio, ela transforma sua família, sua autoestima e sua comunidade. Para mim, sucesso de verdade é quando crescemos juntas”, frisa a empresária Wyama Medeiros.
Principais desafios enfrentados por mulheres empreendedoras
Além de lutar pela igualdade de gênero, as mulheres ainda enfrentam alguns desafios como:
- Acesso limitado a financiamentos;
- Falta de uma rede de apoio;
- Preconceito;
- Dupla jormada;
- Autoconfiança.
Estratégia, Reinvestimento e Impacto Social
A trajetória da Confidence Semijoias é um estudo de caso sobre paciência. Nos primeiros anos, a CEO viveu com o básico para garantir que todo o lucro retornasse ao negócio. Hoje, a empresa sustenta 48 colaboradores e subsidia educação e saúde para sua equipe.

Esse ciclo virtuoso é idêntico ao observado no interior da Paraíba. Estudos indicam que mulheres reinvestem até 90% de seus rendimentos na família e na comunidade (educação, saúde e alimentação). Quando uma mulher empreende no Cariri ou no Brejo, ela fixa o jovem no campo e reduz a migração para as capitais, colocando a identidade local no mapa do desenvolvimento. “Eu trabalhei em várias lojas e cheguei a atender também como garçonete em uma lanchonete. O empreendedorismo sempre fez parte do meu dia a dia e a ideia de abrir o próprio negócio surgiu após essas experiências. Usei o espaço do meu próprio quarto e fui trabalhando como sacoleira até conseguir abrir uma loja no centro da cidade. Esse momento aconteceu no ano de 2010 e foi bem marcante”, afirma a empresária do ramo de vestuário na cidade de São Bento, na região do sertão paraibano, Maiara Jeronimo.
5 Lições de Ouro para a Empreendedora Paraibana
Para sair da informalidade e conquistar a independência real, as lições de Patrícia Baudy servem como um guia prático para qualquer realidade:
- Divisão Rigorosa: Separe o dinheiro pessoal do empresarial desde o primeiro dia.
- Gestão sobre Ganho: Não importa quanto você ganha, mas como administra o que entra.
- Conheça seus custos: Saiba exatamente seu custo de vida antes de planejar lucros maiores.
- Diversificação: Nunca dependa de uma única fonte de renda.
- Reserva Antecipada: Comece a poupar antes mesmo de “sobrar” dinheiro.

Dicas de como ser uma empreendedora de sucesso
Para ser uma boa empreendedora seguir algumas dicas faz uma grande diferença no sucesso do negócio como:
- Fazer um bom planejamento;
- Ter uma boa habilidade de se comunicar;
- Fortalecer a rede de contatos;
- Estudar o mercado-alvo;
- Organizar as finanças;
Resistência e União
Apesar do crescimento, o acesso ao crédito e a jornada tripla ainda são obstáculos. Contudo, o associativismo e as cooperativas femininas têm se mostrado a solução para baratear custos e aumentar o poder de negociação.
Como finaliza Patrícia Baudy: “Quando uma mulher vence, ela abre portas para muitas outras”. Seja através de uma franquia de semijoias ou de um café nas Rotas do Frio, o dinheiro bem gerido deixa de ser um tabu para se tornar o combustível da liberdade e da transformação social no Brasil.

O Desafio de Empreender: Gestão, Finanças e o Impacto Social por Jakeline Rodrigues e Aline Oliveira
O empreendedorismo feminino na Paraíba ganham rostos e histórias inspiradoras através das trajetórias de Jakeline Rodrigues, fisioterapeuta e empreendedora em Remígio, Aline Oliveira, atuante no ramo da óptica em Campina Grande e Clara Damaceno, atuante desde os 15 anos no ramo da Comunicação em Santana dos Matos (RN). Embora venham de áreas distintas — saúde, comércio e comunicação —, ambas compartilham os desafios universais de quem decide gerir o próprio negócio: o equilíbrio entre a vida pessoal, a precificação justa e o impacto direto na comunidade local.
Nesta entrevista exclusiva, elas revelam como superaram a barreira do “aprender a cobrar”, a importância da separação rigorosa das contas e como a rede de apoio se torna o pilar fundamental para que uma empresa liderada por uma mulher prospere. Confira as lições de gestão e resiliência dessas duas empreendedoras paraibanas.
Precificação e Valor de Mercado: A Arte de Cobrar pelo que se Oferece
A segurança na hora de definir o preço do serviço ou produto é um divisor de águas. Para Jakeline Rodrigues, a clareza sobre o valor social do seu trabalho na comunidade facilitou esse processo, que envolveu pesquisa de mercado e cálculo rigoroso de custos. Já Aline Oliveira destaca que a confiança veio através da capacitação: buscou treinamentos e programas financeiros específicos para garantir que o valor cobrado fosse justo tanto para o mercado quanto para a sustentabilidade do negócio.
Para Clara Damasceno menciona que isso ficou muito claro quando a empresa começou a crescer e atender mais clientes. No começo, muita gente mistura tudo, mas chega um momento em que isso começa a confundir a visão do negócio. Quando passei a separar completamente as contas da empresa das minhas contas pessoais, consegui ter mais clareza sobre faturamento, custos e planejamento. Essa organização foi fundamental para conseguir crescer com mais segurança.
Saúde Financeira: A Transição do “Eu” para a “Empresa”
Separar o bolso pessoal do caixa da empresa é o segredo do crescimento. Ambas concordam que a persistência e o método são essenciais.
- Jakeline ressalta a importância do uso de tabelas de gastos fixos para identificar o lucro real, alertando que, no início, o retorno pode ser pequeno e exige estratégias de marketing e fidelização.
- Aline pontua que essa separação sempre foi uma meta para garantir que o negócio pudesse se autofinanciar, cobrindo investimentos e horas trabalhadas, além de sustentar planos de expansão futura.
Superando Obstáculos: Entre a Gestão e a Rede de Apoio
Os desafios de conciliar múltiplas jornadas surgem como a principal barreira. Para a fisioterapeuta Jakeline, o primeiro ano foi marcado pela escassez de lucro e pela necessidade vital de uma rede de apoio para cuidar do filho. Ela traz um insight valioso sobre delegação: entender que contratar não é um custo, mas um caminho para o lucro e para a liberdade de gestão.


Aline enfrentou a exaustão de gerir um comércio enquanto mantinha sua atuação profissional fora da área comercial. Para ela, a adaptação da rotina foi a única saída para encontrar satisfação e equilíbrio entre as cobranças profissionais e pessoais.


Para a jornalista Clara Damasceno, empreender já é desafiador por si só, e sendo mulher muitas vezes precisamos provar nossa capacidade mais de uma vez. No início, alguns desafios apareceram principalmente na questão de acesso a crédito e também na responsabilidade de equilibrar várias áreas da vida ao mesmo tempo. Mas acredito muito em preparação e constância. Buscar conhecimento, estruturar bem o negócio e ter clareza de propósito ajuda a enfrentar esses desafios com mais segurança.
Transformação Local: O Impacto Além dos Números
O sucesso dessas empreendedoras transborda para a sociedade:
- Na Saúde e Bem-Estar: Através do Pilates, o negócio de Jakeline atua diretamente na saúde mental e física de centenas de mulheres em Remígio, trabalhando na prevenção de doenças e melhora da qualidade de vida.
- Na Economia e Empoderamento: Aline observa um impacto positivo na geração de oportunidades de trabalho e no fortalecimento do poder de compra e da autonomia das mulheres ao seu redor.
- No Mercado de Trabalho: Ambas as iniciativas se tornam pólos geradores de empregos, provando que o empreendedorismo feminino é um motor essencial para o desenvolvimento regional.
A Empireo Digital nasceu com o propósito de ajudar empresas a crescerem através da comunicação e do marketing. Quando um negócio cresce, ele gera empregos, movimenta a economia local e cria novas oportunidades. Além disso, eu acredito muito no poder do exemplo. Mostrar que é possível começar cedo, construir algo próprio e crescer com estratégia pode inspirar outras mulheres a acreditarem mais no próprio potencial e nos seus projetos, relatou Clara Damasceno.
Fonte: ASN PB/Tribuna do Sertão






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