Lançamento do e-book gratuito “Faces Roubadas” joga luz sobre o uso de deepfakes e a impunidade das elites em casos de pornografia não consensual

A evolução da inteligência artificial trouxe avanços inegáveis, mas também abriu as portas para uma forma devastadora de violência de gênero: o crime digital por encomenda. No mês houve inúmeras discussões sobre o Dia Internacional da Mulher, o lançamento do thriller psicológico Faces Roubadas, de Maxwell dos Santos, expõe como ferramentas de IA estão sendo distorcidas para criar o chamado “Leilão” — um mercado clandestino de pornografia gerada por deepfakes. A obra, ambientada na elite de Vitória (ES), serve como um manifesto urgente contra a cultura red pill e a seletividade de um sistema jurídico que muitas vezes protege o agressor de alta classe em detrimento da vítima.

O surgimento da Inteligência Artificial (IA), surgiu como sendo uma ferramenta que tem seus dois lados. O que traz uma aceleração para o desenvolvimento tecnológico, no entanto, ela amplia ainda mais a violência de gênero. Trazendo prejuízos para meninas, jovens e mulheres. Mostrando que estamos em uma era de grandes desafios contemporâneos enfrentados pelas mulheres diante dos avanços tecnológicos e uso indevido da inteligência artificial. 

Créditos: Reprodução/Freepik

A IA deixou de ser uma ferramenta de pontualidade para ser uma ponte entre as pessoas, o que deu abertura para a moldagem da identidade e ambições dos jovens. Ou seja, está tecnologia não veio para ser algo neutro, mas para trazer validações de estereótipos passados, ampliando preconceitos históricos; além de legitimar padrões sociais tradicionais.

“Não é a IA que está enviesada, mas sim a realidade. O relatório* confirma que a inteligência artificial não corrige os défices que temos. Reflete e amplifica uma maior proteção a elas até reduzir a sua autonomia, eterniza os telhados de vidro ou reforça a pressão estética. Em última análise, não questiona os papéis tradicionais, mas antes legitima-os. A verdade é que, se a realidade não mudar, não podemos pedir à IA que mude as suas respostas”, afirma Luisa García, sócia e CEO Global de Corporate Affairs na LLYC e coordenadora do estudo.

Atualmente a IA ocupa um papel recorrente nas interações das pessoas, principalmente jovens. A atual configuração do mundo virtual, mira em uma nova fronteira de violência digital, que em grande parte acontece sobre a invisibilidade, ou seja, os fatos acontecem principalmente nos bastidores da internet, antes que consigam tomar grandes proporções no campo da realidade. Atentando a participação feminina em vários segmentos sociais. 

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“Percebi que [a IA] é majoritariamente desenvolvida por homens e treinada com conjuntos de dados baseados principalmente em informações de homens.” Sangwa viu de perto como isso afeta a experiência das mulheres com a tecnologia. “Quando mulheres usam alguns sistemas de IA para diagnosticar doenças, muitas vezes recebem respostas imprecisas, porque a IA não reconhece sintomas que podem se manifestar de maneira diferente em mulheres”, afirma Natacha Sangwa, estudante de Ruanda que participou do primeiro acampamento de programação da iniciativa African Girls Can Code em 2025.

A eliminação do viés só será possível quando a  igualdade de gênero for uma prioridade, como objetivo das concepções dos sistemas. “Para evitar o viés de gênero na IA, precisamos primeiro enfrentar o viés de gênero em nossa sociedade”, disse Doğuç.

“Hoje, não existe mecanismo que impeça desenvolvedores de lançar sistemas de IA antes de estarem prontos e seguros. É preciso um modelo global de governança multissetorial que previna e corrija situações em que sistemas de IA apresentem vieses de gênero ou raça, reforcem estereótipos prejudiciais ou não atendam a padrões de privacidade e segurança”, afirmou Helene Molinier, assessora de Cooperação em Igualdade de Gênero Digital da ONU Mulheres, em entrevista recente ao Devex.

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Desde o princípio, o mundo convive com problemas de igualdade entre gêneros, com a IA, houve uma expansão dos vieres de gêneros presentes na sociedade. A forma como a inteligência artificial é moldada, pode acabar perpetuando, ampliando e reduzindo a desigualdade de gênero. “A inteligência artificial espelha os vieses presentes na nossa sociedade e que aparecem nos dados usados para treiná-la”, disse Doğuç em uma entrevista recente à ONU Mulheres.

Em uma entrevista dada à Rádio Alepa FM 101.5, a advogada especialista em Direito da família e direito civil, Patrícia Bahia Farache, mencionou que “ o enfrentamento dessas novas ameaças exige não apenas legislação atualizada, mas também conscientização social e fortalecimento das mulheres por meio da informação”, concluiu a advogada em entrevista. 

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A expansão da Internet tem proporcionado o surgimento dessa nova modalidade de crime cibernético, trazendo pontos centrais como: 

  • Deepnudes e pornografia não consensual: A IA generativa tem tido avanços significativos, ao ponto dos usuários poderem criar imagens e vídeos falsos, muito fies a realidade. Isso tem permitido que pessoas recriei vídeos com rostos de meninas e mulheres em poses e atos sexuais explícitos. Vídeos como esses viralizam com rapidez, trazendo problemas a curto e longo prazo às vítimas.
  • Violência invisível: A vítima vem descobrir que foi alvo de vídeos e/ou imagens, quando elas tomam uma grande proporção ao ponto de não ter como reverter. Apesar do fato ocorrer no mundo virtual, traz inúmeros impactos para a saúde física e emocional causando atentados contra a própria vida. 
  • Impacto na juventude: Os jovens são os principais alvos, ao qual teve nos últimos tempos casos de estudantes que tiveram suas imagens manipuladas dentro da própria escola. 
  • Reforço de estereótipos: Segundo indicações dos sistemas de IA, que são utilizados em plataformas virtuais acabam reforçando muitos preconceitos o que amplia a desigualdade de gênero entre os jovens.
  • Consequências legais: Houve uma atualização na legislação brasileira para punir com compartilhar deepnudes.  Havendo também aumento da pena para crimes de violência psicológica com uso desse tipo de tecnologia.
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A Tecnologia como Arma de Silenciamento

O que acontece quando o rosto de uma adolescente é manipulado por algoritmos para alimentar redes de exploração? Em Faces Roubadas, a ficção imita uma realidade cada vez mais frequente. O e-book narra a tragédia e Allana, estudante de uma escola tradicional na Enseada do Suá, que comete suicídio após ser vítima de manipulação digital. O caso revela uma rede operada por jovens influentes que utilizam a IA para desumanizar suas colegas, transformando intimidade (ou a simulação dela) em moeda de troca e poder.

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Diferente da pornografia de vingança tradicional, o uso de deepfakes cria uma nova camada de terror psicológico: a vítima não precisa sequer ter produzido o conteúdo; ela é “roubada” de sua própria imagem por meio de softwares acessíveis. A obra destaca que a tecnologia não é neutra; quando aliada ao machismo estrutural, ela se torna uma ferramenta de controle e destruição da reputação feminina. Além de incentivar que mulheres buscam uma validação que é ampliada mais a elas do que aos homens. 

O Escudo do Privilégio e a Justiça Seletiva

A trama vai além do crime digital e mergulha nas engrenagens da impunidade. Maxwell dos Santos utiliza sua experiência como jornalista e mestre em Tecnologias Emergentes para traçar um perfil contundente da sociedade capixaba. No livro, figuras de autoridade — de juízes a líderes religiosos — utilizam suas posições para abafar o escândalo e proteger os herdeiros da elite, evidenciando como o sistema penal brasileiro muitas vezes falha em punir crimes cometidos “entre quatro paredes” digitais quando os réus possuem sobrenomes influentes.

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Resistência e União Feminina

A contrapartida dessa violência surge na união de duas realidades opostas. Mariana, uma bolsista da periferia com domínio sobre a dark web, e Bia, uma influenciadora digital da Ilha do Boi, formam uma aliança improvável. Com o apoio da ONG Cunhantãs, elas utilizam as mesmas ferramentas digitais para implodir a bolha de privilégios e buscar justiça.

“Nenhuma tela de computador serve de escudo quando as mulheres decidem lutar por justiça”, pontua a narrativa, reforçando que a resposta para a violência tecnológica passa pela educação, pela denúncia e pela solidariedade de gênero.

O uso da IA, ao mesmo tempo que pode uma ferramenta de manipulação, em contrapartida,  pode ser uma aliada para detectar casos de abusos sexuais, tendo como exemplo, projetos que combatem a exploração sexual infantil, mas para isso, precisa haver uma regulamentação para impor limites éticos com mais rigidez, para que este instrumento não se torne uma ferramenta de violência. 

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Conscientização

Disponibilizado de forma totalmente gratuita, Faces Roubadas foi pensado para ser mais que entretenimento. O autor Maxwell dos Santos propõe que o material sirva de base para debates em escolas, universidades e coletivos de direitos humanos, abordando os perigos da cultura red pill e a necessidade de leis mais rigorosas contra a violência digital.

Em 2025, houve a aprovação da lei que torna a violência psicológica contra a mulher com uso da inteligência artificial um crime. A Lei 15.123, de 2025, sancionada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foi publicada no Diário Oficial da União da última sexta-feira de abril de 2025. Tendo como relatoria de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), enquanto que o PL 370/2024 foi relatado no Senado pela senadora Daniella Ribeiro (PP-PB). Sobre a questão da pena, segundo a norma a pena de reclusão que era de seis meses a 2 anos teve um aumento da metade. 

Para o enfrentamento desse crime é necessário: 

  • Uma educação digital com orientação de jovens quanto a exposição virtual e seus impactos; 
  • Denúncia em canais virtuais oficiais mesmo que a pessoa desconheça sobre o crime, pois o ato não justifica o crime;
  • Regulação para que as leis que garantam o uso da IA que sejam utilizadas para crimes dessa magnitude seja rapidamente identificado. 

A obra Faces Roubadas, escrita pelo autor Maxwell dos Santos, é um thriller psicológico de ficção jovem adulto que mergulha nas complexidades da violência digital. O título está disponível em formato de e-book (PDF) e pode ser adquirido por meio de download gratuito através do link https://bit.ly/facesroubadaspdf.

*Este relatório trata de uma pesquisa com jovens com idade entre 16 e 25 anos de vários países em 2025.

Fonte: Portal Alepa/LLYC/ONU Mulheres/Agência Senado

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