Com foco na saúde mental materna, a campanha nacional alerta que 1 em cada 4 brasileiras enfrenta sintomas de depressão pós-parto
O mês de maio é tradicionalmente tingido de tons suaves e celebrações românticas sobre a maternidade. No entanto, por trás das flores e homenagens, uma realidade invisível e silenciosa ganha voz através da campanha Maio Furta-Cor. O movimento nacional coloca o bem-estar emocional das mães no centro do debate, fundamentado em estatísticas alarmantes: no Brasil, cerca de 25% das mulheres apresentam sintomas de depressão pós-parto, um índice que supera a média global de 13% estimada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A iniciativa busca quebrar o tabu da “maternidade perfeita” e oferecer suporte real a quem enfrenta os desafios do puerpério.

A realidade sem filtros
A campanha surge como um contraponto à idealização da maternidade. A idealização do movimento surgiu na porta de uma creche, formada por duas mães, uma psicóloga clínica perinatal (Nicole Amorim) e uma psiquiatra e psicoterapeuta com atuação em perinatalidade (Patrícia Piper), em 2019, sendo lançada nacionalmente em 2021. Abrangendo todo o mês de maio para conscientizar sobre a saúde mental materna. O termo “Furta-Cor” foi escolhido justamente por representar uma tonalidade que muda conforme a luz, simbolizando as diversas nuances, sentimentos e fases que uma mulher atravessa ao se tornar mãe.
A iniciativa faz um destaque para a maternidade real que envolve a exaustão, solidão e os desafios emocionais que as mulheres passam durante este período. Os cuidados com quem cuida, não é um artigo de luxo, mas uma necessidade básica que merece atenção.

Ao longo de todo o mês, o foco está em temas que muitas vezes são varridos para debaixo do tapete:
- Sobrecarga materna: A jornada exaustiva que recai majoritariamente sobre a mulher.
- Ansiedade gestacional: As preocupações com o futuro que começam antes mesmo do parto.
- Depressão pós-parto: Uma condição clínica que exige tratamento e não deve ser confundida com “tristeza passageira”.
Além destes pontos, a seguir veremos 4 motivos pelos quais precisamos falar sobre o Maio Furta-Cor:
- Desmistificar a maternidade romântica: A cor escolhida para simbolizar a campanha, mostra as nuances pelas quais passa a maternidade. Além da quebra do tabu, a mãe deve estar sempre feliz, permitindo que possam falar sobre as dificuldades sem serem julgadas.
- Combater o adoecimento mental materno: Após a pandemia os casos de mães com depressão, ansiedade e burnout, além de casos de atentados contra a própria vida, teve um crescimento significativo.
| A saúde mental materna sofreu um impacto severo no pós-pandemia, com estudos da Fiocruz e da Lancet indicando que os casos de depressão e ansiedade perinatal dobraram, atingindo até 40% das mães em certas regiões. O burnout parental hoje afeta cerca de 66% das mulheres que conciliam trabalho e maternidade, fruto da sobrecarga e falta de rede de apoio. O dado mais alarmante, validado pela OMS, aponta o suicídio como uma das principais causas de morte materna no primeiro ano após o parto, consolidando o esgotamento materno como uma crise de saúde pública urgente. |
- Construção de políticas públicas e redes de apoio: Buscar a sensibilidade das pessoas sobre a importância das políticas públicas para atender mães, como o Pré-Natal Psicológico. Além da luta contra a solidão, já que falar ajuda muito na criação de redes de apoio.
- Fazer o reconhecimento da mãe como indivíduo: Lembrar que por detrás dá mãe cuidadora e amorosa, tem uma mulher que precisa receber todos os cuidados e ter tempo para si. A campanha traz o toque para que lembrem que é normal não conseguir dar conta de tudo; e que ir atrás de ajuda profissional é necessário.

Sinais de Alerta: O Olhar Atento da Rede de Apoio
Muitas vezes, a mulher não consegue identificar o próprio sofrimento ou sente culpa por não estar vivenciando a “plenitude” esperada pela sociedade. Sintomas como irritação constante, dificuldade de vínculo com o bebê, choro frequente e isolamento são sinais claros de que algo não vai bem. Pouca ou quase nenhuma atenção é dada para os fatores que levam ao adoecimento das mães, frente às grandes demandas da maternidade.
“Os principais relatos são de apreensão e medo com a situação, além da percepção de que o companheiro não compreende a situação delas por não vivenciá-la. Sem contar que essas angústias também se revelam da parte dos parceiros”, comentou a psicóloga ambulatorial do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Maringá Denise Akutagava.
Para a Dra. Heloíza Ventura, pediatra e Diretora de Relacionamento e Atendimento ao Cooperado da Unimed Santos, o cuidado com a mãe é, por tabela, um cuidado com a criança.
“A maternidade ainda é cercada por uma expectativa de felicidade constante, e isso faz com que muitas mulheres sofram em silêncio quando a realidade se mostra mais desafiadora”, explica a médica.

O Papel da Família e dos Profissionais
A Dra. Heloíza ressalta que a responsabilidade pela saúde mental da mãe não deve ser individual. O entorno — parceiros, familiares e amigos — precisa estar vigilante.
“Nem sempre a mulher consegue dizer claramente que não está bem. Por isso, é importante que familiares e profissionais estejam atentos às mudanças de comportamento. Muitas vezes, o acolhimento e a escuta são os primeiros passos para que essa mãe busque ajuda”, completa a pediatra.
Onde Buscar Ajuda?
O Maio Furta-Cor reforça que pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza. O acompanhamento profissional, seja através de psicólogos, psiquiatras ou grupos de apoio, é fundamental para que o sofrimento seja tratado precocemente, garantindo uma vida mais saudável tanto para a mulher quanto para o bebê. A campanha se tornou referência nacional em saúde mental materna, reforçando que apoiar as mães é dar a garantia do desenvolvimento saudável de mãe, filho e sociedade.
A chegada de um filho é frequentemente descrita como o momento mais sublime da vida de uma mulher. No entanto, para muitas, o brilho dessa idealização é ofuscado por uma sombra silenciosa e devastadora. Nesta entrevista, recebemos Helena, que corajosamente decidiu romper o silêncio sobre sua experiência com a depressão pós-parto severa.
Seu relato é um soco no estômago da romantização e, ao mesmo tempo, um abraço de esperança para quem se sente sozinha nessa jornada. Através de sua vivência, Helena nos mostra que admitir a dor não é falta de amor, mas o primeiro passo para a sobrevivência e o renascimento.

Além do Cartão-Postal: O Fim da Romantização Materna
“Minha filha foi planejada e muito esperada. Por isso, quando ela nasceu e senti uma tristeza profunda em vez da plenitude, veio uma culpa enorme. Hoje entendo que aquele foi o sinal de que algo não estava bem. A sociedade romantiza a maternidade e pouco fala sobre as dores emocionais; percebi que não era apenas cansaço quando meus sentimentos começaram a me consumir por completo.”
O Limite da Dor: O Pedido Urgente de Ajuda
“O momento mais crítico foi quando tentei contra a minha vida, apenas 9 dias após o parto. Ali, minha dor ultrapassou todos os limites. Antes, eu sentia uma culpa sem tamanho e não conseguia me reconhecer. Eu amava minha filha, mas entendi que o que eu vivia não era fraqueza ou ‘drama’, e sim um pedido urgente de socorro.”
A Âncora no Caos: O Papel Vital da Rede de Apoio
“Meu esposo foi meu porto seguro. Por ser bem informado, ele compreendeu que eu não sofria de falta de amor, mas de um adoecimento que exigia cuidado. Ele me incentivava a dividir meus medos, garantindo minha segurança emocional. Sinto-me privilegiada, pois sei que muitas mulheres enfrentam isso sozinhas ou são abandonadas. Ter esse apoio fez toda a diferença na minha recuperação.”

O Luto da Mulher Antiga e o Renascimento
“Só me encontrei como mãe quando minha filha tinha 8 meses. Até lá, eu apenas sobrevivia. Precisei entender que a mulher que eu era antes não voltaria; vivi um luto pela minha antiga rotina e liberdade. Aceitar que uma nova versão de mim estava nascendo foi desafiador, mas precisei me permitir conhecer essa nova mulher que surgiu com o parto.”
Entre o Julgamento e o Acolhimento Real
“Infelizmente, a rede pública ainda tem muito preconceito e falta de preparo para o sofrimento psíquico materno. Fui julgada por muitos, mas encontrei o acolhimento necessário na psicologia do Hospital do Gama e na Uniceplac. Eles me enxergaram além dos rótulos. Aprendi que cuidar de mim não é egoísmo, é necessidade: quando uma mãe é cuidada, toda a família sente o reflexo.”
Fontes: OMS, Fiocruz, CDC e Ministério da Saúde (DATASUS).





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