Pesquisa do Semesp aponta que, até 2040, haverá apenas um novo docente para cada seis aposentados. Baixa remuneração, sobrecarga e adoecimento mental impulsionam crise no setor
Por Vanessa Centeno
Pelotas (RS) — 03/10/2026
O futuro da educação no Brasil enfrenta um diagnóstico preocupante. Um levantamento recente divulgado pelo Semesp alerta para um iminente “apagão de professores” no país, impulsionado pela falta de interesse dos jovens pela carreira docente, pelo envelhecimento acelerado do quadro atual e por rotinas de trabalho cada vez mais desgastantes nas salas de aula.
O cenário nacional: envelhecimento e falta de renovação
Apresentada em reunião no Conselho de Educação (CE) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a pesquisa “Apagão dos professores | O desafio da renovação dos professores no Brasil”, detalhada pelo diretor executivo do Semesp, Rodrigo Capelato, traz dados alarmantes sobre a atratividade da profissão.
Embora o total de docentes no ensino médio tenha registrado um discreto aumento entre 2015 e 2025 (de 523 mil para 557 mil), os indicadores de renovação acenderam um alerta vermelho:
- Queda entre jovens: O número de professores com até 24 anos atuando no ensino médio despencou 31,1% na última década.
- Aumento de veteranos: O contingente de docentes com 60 anos ou mais cresceu 104,5% no mesmo período.
- Taxa de renovação em queda livre: Em 2015, a proporção entre novos ingressantes e aposentados era de 0,95. Em 2025, o índice caiu para 0,32 — ou seja, para cada três professores que se aposentam, apenas um entra na carreira.
- Projeção crítica para 2040: Caso o ritmo atual seja mantido, a taxa de renovação atingirá 0,17, o que representará apenas uma nova contratação para cada seis aposentadorias.
A desvalorização reflete-se no dia a dia: 74,8% dos docentes relatam falta de reconhecimento profissional e 79% já consideraram abandonar a carreira. Além disso, entre 2015 e 2024, a quantidade de concluintes em cursos de licenciatura sofreu uma retração de 13,5%.
Rio Grande do Sul: avanço de contratos temporários e defasagem salarial
No cenário regional, a crise ganha contornos ainda mais graves. Segundo análise do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), com base nos dados do Censo Escolar, a rede estadual do Rio Grande do Sul vive um esvaziamento acelerado do quadro efetivo. Entre 2019 e 2025, o número de professores concursados despencou de 23.681 para 13.424, uma redução de 43%.
No mesmo período, a proporção de contratos temporários saltou de 40,6% para 64,3% do total de docentes. A predominância de vínculos temporários prejudica a estabilidade e a continuidade pedagógica nas escolas.
A remuneração permanece como um dos fatores determinantes. O Rio Grande do Sul ocupa a última posição no monitoramento da Meta 17 do Plano Nacional de Educação (PNE): os professores da rede pública estadual recebem, em média, R$ 4.980 para uma carga horária de 40 horas semanais, enquanto demais profissionais de nível superior recebem R$ 6.483 (o salário docente equivale a apenas 76,8% desse rendimento).
Vozes da sala de aula: entre o desencanto e a vocação
A realidade das estatísticas ganha contornos concretos nos relatos de quem vivencia o ambiente acadêmico e escolar:
- Keli Cristine Centeno do Estreito (45 anos): Atuando há 15 anos na docência e atualmente graduanda em História na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Keli atribui o desinteresse dos jovens à desvalorização contínua e à sensação de submissão a um sistema falho. Ela pondera que valores como o respeito devem vir da criação familiar, mas ressalta o lado gratificante da profissão:“A satisfação de ensinar, alfabetizar e ajudar o aluno a construir sua própria opinião é enorme. Alguns alunos, inclusive, se espelham na gente para seguir na educação. Ser professora hoje é um grande desafio, mas, quando há amor pelo que se faz, a gratificação é imensa.”
- Suelen (39 anos): Servidora pública e acadêmica de Pedagogia, Suelen aponta a baixa remuneração, as lacunas na aprendizagem dos alunos e episódios de indisciplina como causas diretas do adoecimento docente. O estresse laboral e a síndrome de burnout a levaram a desistir de lecionar em sala de aula, embora planeje continuar atuando no setor educacional em outras áreas.
- Josiele Farias Pereira (39 anos): Licenciada em Ciências Sociais e professora de Ensino Religioso há 12 anos, Josiele reforça que a desvalorização e a indisciplina afastam novos talentos, mas destaca a dimensão transformadora do magistério:“Lecionar é tentar mudar o pensamento, fazer os alunos refletirem sobre a importância de sermos pessoas críticas que buscam mudanças positivas. O objetivo é sempre buscar a harmonia, o respeito e a união.”
- Samuel Leite Lutz (23 anos): Acadêmico do curso de Licenciatura em Letras (Português), Samuel enxerga o futuro da profissão com preocupação devido à falta de investimentos estatais, mas mantém o entusiasmo em ensinar:“O professor trabalha muito e não recebe o reconhecimento merecido. Para atrairmos mais professores, precisamos de melhores condições. O que mais me motiva é ver uma criança ou adolescente aprendendo. Perceber que o ensino fez sentido e contribuiu para o crescimento de alguém é o que me faz querer ser professor.”





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