Com mais de 820 mil casos confirmados nas últimas duas décadas e queda na mortalidade, o país ainda corre contra o tempo para cumprir as metas de erradicação da OMS até 2030

Por Redação

Campina Grande, PB — 25/07/2026

No próximo dia 28 de julho, celebra-se o Dia Mundial de Luta contra as Hepatites Virais, data instituída pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conscientizar sobre uma das infecções mais silenciosas e perigosas da medicina moderna. No Brasil, a mobilização ganhou força durante o “Julho Amarelo”, campanha nacional de conscientização e prevenção, no entanto, o principal desafio no Brasil é com os sub-diagnósticos das hepatites B e C, doenças silenciosas que podem evoluir sem sintomas causando cirrose ou câncer de fígado. O cenário atual reflete avanços importantes no tratamento com capacidade de curar mais de 95% nos casos de hepatite C, com testagem e vacinação, mas alerta para uma urgência: para evitar mortes e cumprir as metas internacionais (OMS) de combate às hepatites até 2030, o país precisa ampliar drasticamente o diagnóstico precoce e a testagem da população.

“O Julho Amarelo tem como objetivo conscientizar a população sobre a importância da prevenção das hepatites virais, da vacinação, da realização dos testes e do diagnóstico precoce. Muitas dessas doenças podem permanecer sem apresentar sintomas por anos e, quando não são identificadas e tratadas a tempo, podem evoluir para complicações graves”, explica o médico da Câmara Municipal de Aracaju (CMA), Marcelo Motta.

Fonte: Reprodução/Magnific

“A realização de ações como esta reforça o compromisso com a promoção da saúde, amplia o acesso à informação e incentiva a população a buscar os serviços de saúde. A prevenção e o diagnóstico precoce são essenciais para reduzir a transmissão das hepatites virais e garantir mais qualidade de vida às pessoas”, completa Marcelo Motta, ao falar sobre a importância das campanhas de conscientização.

As hepatites são inflamações no fígado, um órgão vital que é responsável por funções essenciais como a desintoxicação do organismo, produção de proteínas e armazenamento de vitaminas. No entanto, a causa da hepatite pode ser devido a muitos fatores, como excesso de álcool, uso de alguns medicamentos, doenças autoimunes e acúmulo de gordura no fígado, no entanto, a campanha tem como foco específico as hepatites virais, que são causadas por vírus específicos. 

“As hepatites virais continuam sendo um importante desafio para a saúde pública porque, na maioria das vezes, evoluem de forma silenciosa durante muitos anos. Muitas pessoas só descobrem a infecção quando já apresentam comprometimento importante do fígado. Por isso, ampliar o acesso à testagem é tão importante quanto garantir o tratamento”, afirma João Renato Pinho, patologista clínico membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML).

Diagnóstico e prevenção: Os principais desafios

  • ​Evolução silenciosa: As hepatites B e C costumam agir de forma discreta, comprometendo a saúde do fígado progressivamente durante anos sem manifestar sintomas visíveis.
  • ​Acesso rápido a exames: O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza testes rápidos e gratuitos para identificar os vírus B e C, oferecendo diagnósticos em questão de minutos.
  • ​Altas taxas de cura: Graças aos medicamentos antivirais de última geração, a hepatite C pode ser totalmente curada em mais de 95% dos pacientes.
  • Proteção imunológica: A vacinação oferecida pelo SUS é a forma mais eficiente de prevenção contra os tipos A e B do vírus.

​Formas de contágio e cuidados específicos

  • Hepatite A: Associada à contaminação de água e alimentos e a condições precárias de saneamento. A prevenção se dá através da vacina e de bons hábitos de higiene.
  • ​Hepatite B: Transmitida pelo contato com sangue infectado ou relações sexuais desprotegidas. É evitada com o uso de preservativos e pela vacinação.
  • ​Hepatite C: Disseminada principalmente pelo sangue (como no compartilhamento de agulhas e objetos cortantes). Embora ainda não exista vacina, conta com tratamento altamente eficaz para cura.
Fonte: Magnific/Reprodução

Uma ameaça silenciosa que afeta o fígado

As hepatites virais — causadas pelos vírus A, B, C, D e E — provocam inflamações no fígado que variam de leves a extremamente graves. O maior perigo reside na ausência de sintomas aparentes nas fases iniciais. Sem o devido acompanhamento, a infecção pode evoluir de forma silenciosa por décadas, provocando complicações severas como fibrose avançada, cirrose e câncer hepático, podendo levar ao óbito ou à necessidade de um transplante de órgão.

No panorama brasileiro, os tipos A, B e C são os de maior ocorrência. Dados do Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, divulgado pelo Ministério da Saúde, apontam que entre 2000 e 2024 foram confirmados 826.292 casos da doença no país. A distribuição do total de infecções registradas no período é a seguinte:

  • Hepatite C: 342.328 casos (41,5%)
  • Hepatite B: 302.351 casos (36,6%)
  • Hepatite A: 174.977 casos (21,2%)
  • Hepatite D: 4.722 casos (0,6%)
  • Hepatite E: 1.914 casos (0,1%)

A distribuição geográfica revela maior concentração nas regiões Sudeste e Sul. Juntas, elas respondem pela maioria dos casos de hepatite B e C. O Sudeste concentra 34% dos registros de hepatite B e 57,7% dos de hepatite C; já o Sul soma 30,9% dos casos de hepatite B e 27% dos de tipo C. Isso demonstrou que é muito importante e que possui uma alta eficácia para prevenir a doença. 

“Recentemente tivemos alguns surtos e as pessoas devem lembrar que já existem vacinas muito eficazes para evitar esta infecção. A hepatite A costuma ter evolução benigna na infância, mas pode ser mais grave em pacientes maiores de 18 anos”, alerta o médico, João Renato Pinho. 

Além da vacinação, ter hábitos de higiene como lavar as mãos, consumir alimentos e água de boa procedência, são pontos importantes que ajudam no combate da transmissão da enfermidade.  Entre as hepatites, a do tipo C, permanece como uma das que mais preocupam devido que o tempo sem manifestação dos sintomas é maior. A hepatite B, apesar de ter uma ampla vacinação, possui registros que expressam um quantitativo de pessoas com infecção crônica sem ter sido diagnosticada. 

“O diagnóstico precoce é fundamental porque o tratamento reduz as complicações e impede que a infecção evolua para doenças hepáticas crônicas irreversíveis, como cirrose, insuficiência hepática e hepatocarcinoma, que é o câncer de fígado”, destaca.

A hepatite A tem como principal relação a saneamento básico e higiene; a B e C, tem como foco de transmissão o contato por sangue contaminado, relações sexuais sem proteção e o compartilhamento de objetos cortantes. 

Na Amazônia, onde se abriga as maiores áreas de endemicidade do mundo, é um ponto de atenção para a hepatite Delta (D). A sua ocorrência depende da presença do vírus da hepatite B. Considerada a mais rara entre as hepatites, podendo também evoluir para formas mais graves da doença. 

Já a hepatite E é bem semelhante com a hepatite A. E a sua forma de transmissão por via fecal-oral, sendo mais frequente em regiões com saneamento básico precário. Geralmente é autolimitada e aguda.

“As hepatites virais, em particular as causadas pelos vírus B e C, são conhecidas como doenças silenciosas porque evoluem sem sinais e sintomas aparentes por anos. Quando o paciente começa a ficar aparentemente doente, muitos anos já se passaram. No caso dos vírus da hepatite B e C, o fígado é danificado lentamente e os sinais físicos surgem apenas quando a doença já está avançada”, explica o médico infectologista Edmilson Migowski. 

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Queda na mortalidade e a corrida contra o tempo para 2030

Apesar do elevado número de diagnósticos, a última década registrou avanços expressivos na redução da mortalidade graças à ampliação da vacinação e ao acesso a tratamentos antivirais no Sistema Único de Saúde (SUS).

“A concorrência com outras emergências de saúde pública e a sobrecarga da atenção primária são alguns dos principais desafios para alcançarmos a meta de eliminação das hepatites virais até 2030”, afirma a gerente de Hepatites Virais da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Clarice Gdalevici Miodownik

Entre 2014 e 2024, o coeficiente de mortalidade por hepatite B caiu de 50% no Brasil (passando de 0,2 para 0,1 óbito por 100 mil habitantes). No mesmo período, a mortalidade por hepatite C recuou 60% (chegando a 0,4 óbito por 100 mil habitantes).

Mesmo com esse progresso, a letalidade histórica das hepatites continua alta: entre 2000 e 2024, foram identificados 45.959 óbitos associados à doença no país. A hepatite C foi responsável por 75,3% dessas mortes, enquanto a hepatite B respondeu por 22,0%.

Entre os anos de 2021 e 2025, em Brasília foram registrados 1.444 novos casos de hepatites virais. Destes 526 (36,4%) corresponderam à hepatite B, 914 (63,3%) à hepatite C e quatro (0,3%) à hepatite D. No mesmo período, foram notificados 206 óbitos relacionados às hepatites B e C.

O desafio agora é acelerar a identificação de novos casos. Alinhado às diretrizes globais da OMS, o Brasil busca reduzir as mortes por hepatites virais em 65% e a incidência de novas infecções em 90% até o ano de 2030.

Um problema de saúde pública em escala global

O desafio brasileiro espelha uma crise global. Segundo o Relatório Global de Hepatites 2024 da OMS, cerca de 304 milhões de pessoas vivem atualmente com infecção crônica pelos vírus B ou C no mundo. A coinfecção contribui para  acelerar a evolução para  cirrose e insuficiência hepática. De acordo com estudos mais recentes, pode estar havendo sub-diagnósticos de casos de hepatite E, o que mostra a necessidade de ampliar a investigação em casos de hepatite aguda. Para o especialista, o grande problema não está na disponibilidade dos exames, mas garantir que se chegue às pessoas em situações de vulnerabilidade.

“O Brasil dispõe de testes rápidos confiáveis para as hepatites B e C e de exames moleculares capazes de confirmar a infecção ativa. O desafio é fazer com que essas ferramentas alcancem as pessoas que mais precisam, especialmente em regiões remotas e entre populações que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde”, destaca João Renato Pinho.

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​Manifestações clínicas importantes

​Apesar de evoluírem de forma assintomática no início, os quadros mais avançados de hepatite viral podem apresentar indícios como:

  • ​Icterícia (tom amarelado na pele e na esclera ocular);
  • ​Alteração na cor da urina, tornando-a escurecida;
  • ​Clareamento fecal;
  • ​Desconforto ou dor no abdômen;
  • ​Exaustão física e fadiga persistente.

Em 2022, a doença causou aproximadamente 1,3 milhão de mortes no planeta — número superior aos 1,1 milhão registrados em 2019. Do total de óbitos mundiais em 2022, 83% decorreram de complicações da hepatite B e 17% da hepatite C. Especialistas reforçam que conter esse avanço exige ação em várias frentes:

  1. Fortalecimento dos programas de vacinação (para os tipos A e B);
  2. Investimento contínuo em saneamento básico;
  3. Orientação pública para prevenção de transmissões sexuais e verticais (de mãe para filho);
  4. Ampliação maciça do acesso a testes laboratoriais e exames de triagem.

A importância vital do diagnóstico precoce e da testagem

Como a infecção é em grande parte assintomática, a testagem de rotina e a triagem em regiões de maior prevalência ou grupos de risco tornaram-se ferramentas essenciais para salvar vidas.

  • Testes Rápidos: Os testes imunocromatográficos de triagem desempenham papel fundamental na identificação de portadores assintomáticos. De fácil manuseio e dispensando infraestrutura laboratorial, eles podem ser aplicados diretamente em ações de campo, permitindo o encaminhamento rápido do paciente para centros de referência.
  • Exames de Laboratório: O diagnóstico confirmatório e o monitoramento da função hepática dependem de metodologias laboratoriais avançadas:
    • Sorologia e Imunoensaios: Pesquisa de anticorpos (IgG, IgM, IgA) e antígenos específicos via metodologias ELISA e quimioluminescência.
    • Testes Moleculares: Detecção direta do material genético do vírus (DNA ou RNA).
    • Exames Bioquímicos: Avaliação das enzimas hepáticas (como ALT/TGP e AST/TGO) e proteínas que indicam o grau de comprometimento do fígado.

Nos últimos tempos, houve uma evolução significativa dos exames laboratoriais. Os exames passaram a identificar infecções agudas, crônicas, imunidade e exposição prévia aos diferentes tipos de vírus da hepatite. Com relação às técnicas de biologia molecular, elas podem confirmar a infecção ativa, monitoram a resposta do tratamento no paciente, além de auxiliar na vigilância epidemiológica.

“Na hepatologia, existe um princípio fundamental: a ausência de sintomas não significa ausência de doença. As hepatites virais podem permanecer silenciosas por 20 a 30 anos, e justamente por isso o rastreamento é essencial”, explica Morais. Ele esclarece que o tecido do fígado, tecnicamente chamado de parênquima hepático, possui uma baixa densidade de terminações nervosas. “Ou seja, o tecido do fígado praticamente não gera dor durante o processo inflamatório. A dor, quando ocorre, geralmente está relacionada ao estiramento da cápsula de Glisson, membrana que reveste o órgão e que é ricamente inervada”, detalha o médico patologista Rodrigo Aires de Morais, perito médico do Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor do Instituto Federal Fluminense (SIASS-IFF) e mestrando em Biociências e Biotecnologias pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

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O médico alerta para o perigo da evolução silenciosa, como ocorre nas hepatites B e C, onde a inflamação contínua leva à fibrogênese hepática. “Esse processo culmina na formação de fibrose avançada e, posteriormente, na cirrose hepática, quando a arquitetura normal do fígado é substituída por nódulos regenerativos e septos fibróticos, comprometendo a função do órgão”, afirma Morais.

A testagem é recomendada para gestantes, profissionais da saúde, pessoas que receberam transfusão de sangue antes de 1993, usuários de drogas injetáveis, pessoas com múltiplos parceiros sexuais e a população em geral, especialmente entre aqueles que possuem histórico familiar ou exposição a fatores de risco.

No estado do Rio de Janeiro, iniciativas foram desenvolvidas com a criação da Lei Estadual nº 3.176/1999, que tornou obrigatória a realização de testes para hepatites B e C em todos os estabelecimentos hemoterápicos do estado, aumentando a segurança das transfusões de sangue. 

Uma outra iniciativa desenvolvida foi da Lei Estadual nº 8.652/2019 que estimula a realização de testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites nas unidades de saúde estaduais, contribuindo para a identificação precoce dos casos e para o encaminhamento dos pacientes ao tratamento adequado.

Com a expansão dos testes rápidos foi possível a descentralização do diagnóstico e da presença nas unidades básicas de saúde, campanhas para além das unidades de saúde, trazendo um acesso a população com mais facilidade.

“O laboratório tem um papel estratégico porque permite identificar precocemente quem precisa de tratamento, quem deve ser vacinado e quais populações apresentam maior risco de transmissão. Quanto mais cedo o diagnóstico é feito, maiores são as chances de evitar complicações e interromper a circulação dos vírus”, ressalta João Renato Pinho.

Empresas do setor de diagnóstico in vitro, como a Wiener Lab, disponibiliza ao mercado um portfólio completo que apoia essa rede de saúde — desde testes rápidos de triagem (WL Check HBsAg e WL Check HCV) e painéis sorológicos por ELISA e Quimioluminescência (plataformas CLIA) até reagentes bioquímicos específicos para a avaliação da função hepática (como TGO, TGP, Gama-GT, Albumina e Bilirrubinas).

Garantir o acesso rápido a essas ferramentas diagnósticas é o passo decisivo para transformar o panorama das hepatites virais no Brasil e no mundo, permitindo que a medicina atue antes que a doença traga danos irreversíveis ao fígado.

​A prevenção das hepatites virais envolve cuidados simples no dia a dia. Para se proteger, a vacinação contra as hepatites A e B é o primeiro passo essencial. No cotidiano, o uso de preservativos em todas as relações sexuais e o não compartilhamento de objetos perfurocortantes (como agulhas, seringas e lâminas) reduzem drasticamente o risco de contágio. Além disso, ao fazer tatuagens ou piercings, certifique-se de que o local utilize materiais esterilizados. A higiene diária também conta: opte sempre por água tratada e alimentos bem higienizados ou cozidos. Por fim, faça exames de rotina e testes para hepatites virais regularmente para acompanhar sua saúde.

Fonte: Assembleia Legislativa de Goiás/SBCL/ML, Alerj/Agência Brasília/Camara Municipal de Aracaju 

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