No Dia Nacional da Saúde, especialistas alertam que a prevenção dos transtornos mentais deixou de ser um benefício para virar estratégia de sobrevivência no mercado
Por Redação
Campina Grande, 02/08/2026
Com o marco do Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto, o mercado corporativo brasileiro enfrenta um alerta sem precedentes: os transtornos mentais deixaram de ser apenas uma demanda pontual do RH e assumiram o status de prioridade estratégica no topo da gestão das empresas. O motivo é um número histórico registrado em 2025 pelo Ministério da Previdência Social — mais de 546 mil trabalhadores foram afastados de suas funções devido a problemas de saúde mental (estresse grave, ansiedade, depressão e burnout), o maior índice já contabilizado no país. Tendo o público da geração Z e mulheres mais afetadas, liderando as estatísticas, em comparação com os homens.
No ano de 2025 houve um aumento de 15% a mais comparando com o ano anterior. Marcando o maior volume da última década. De um modo geral, o Brasil contabilizou cerca de 4 milhões de afastamentos neste período, sendo 500 mil relacionados à saúde mental. Segundo o Ministério da Previdência Social foram registrados 472.328 afastamentos em decorrência de transtornos mentais em 2024. Representando um aumento de 68% em relação a 2023, que registrou 283.471 distanciamentos. A idade média dos trabalhadores que se afastam do trabalho é de 41 anos, mostrando que os mais atingidos estão entre os trabalhadores que se encontram em fase de produtividade e maior responsabilidade familiar e profissional.
Para a doutora Roberta Marques, advogada, psicóloga e especialista em saúde mental, os números mostram o reflexo de uma transformação na dinâmica das relações de trabalho. “Os transtornos mentais já representam um dos principais fatores de afastamento dos trabalhadores brasileiros. Esse crescimento demonstra que muitas empresas ainda não conseguem identificar e controlar fatores que contribuem para o adoecimento emocional”, afirma Roberta Marques.
Além de trazer impactos para as pessoas, para as empresas isso gera prejuízos significativos em decorrência da perda de produtividade, aumento do absenteísmo, rotatividade de profissionais e um crescimento dos passivos trabalhistas.
Saúde Mental no trabalho: O que muda na prática para as empresas
A atenção à saúde emocional no ambiente corporativo deixou de ser um diferencial voluntário para se tornar uma responsabilidade legal e moral. Com a entrada em vigor da nova diretriz da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), programada para maio de 2026, o bem-estar psicológico dos colaboradores ganha o mesmo peso das regras tradicionais de segurança física.
O aumento dos afastamentos acontece em um momento em que as organizações precisam se adequar às novas atualizações da NR-1, que passou a reforçar a necessidade de identificar, avaliar e gerenciar os riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
“A NR-1 deixa claro que os riscos psicossociais precisam ser tratados com a mesma seriedade dedicada aos riscos físicos e operacionais. Isso significa mapear situações que favoreçam o adoecimento emocional, implementar ações preventivas e desenvolver uma cultura organizacional mais saudável e segura para todos”, destaca a especialista.
A especialista complementa que o cumprimento da norma vai além da elaboração dos documentos, exigindo uma mudança efetiva na gestão de pessoas. “Quando falamos de saúde mental no trabalho, estamos tratando de pessoas, mas também de responsabilidade legal. Empresas que deixam de prevenir situações de violência psicológica, assédio moral ou ambientes “adoecedores” podem enfrentar ações trabalhistas, pedidos de indenização e danos à própria reputação institucional”, afirma a advogada.
Os dados explicam o porquê que a NR-1, passou a exigir a gestão dos riscos psicossociais, para uma curva que cresce de forma contínua. Antes da atualização a NR-1 e de se transformar em uma obrigação legal, era tratada como uma iniciativa voluntária, que apenas identificava, avaliava e gerenciava os riscos psicossociais associados ao trabalho, como: estresse crônico, metas inatingíveis, assédio, sobrecarga e falhas de segurança.

Na prática, isso exige um olhar atento e transformador sobre o dia a dia das equipes. E investir na prevenção dos riscos psicossociais beneficia tanto o trabalhador quanto a empresa. A mudança pressiona as organizações para irem além da realização de campanhas pontuais e benefícios isolados, passando a exigir diagnósticos com consistência e imergir na descoberta das causas que levam ao adoecimento mental das pessoas.
Trazendo diversas como redução dos conflitos e passivos trabalhistas, promoção de um ambiente saudável emocionalmente que fortalece as relações entre os membros das equipes, melhorias no desempenho da organização, favorecimento da retenção de talentos e criação de uma cultura corporativa mais segura, produtiva e sustentável. Veja os principais pontos dessa mudança:
- Da Intenção à Ação no Combate ao Esgotamento
Mapear, avaliar e mitigar os fatores de estresse e o burnout passa a ser uma exigência para todos os empregadores. O cuidado com as pessoas agora precisa estar estruturado no plano de gestão diário das empresas.
- Mais Ações Contínuas, Menos Campanhas Pontuais
Ações isoladas e pontuais dão lugar a um cuidado permanente. As organizações precisam construir inventários de risco vivos e planos de ação contínuos, acompanhando de perto a rotina dos profissionais — seja no escritório presencial, no trabalho remoto ou no modelo híbrido.
- Responsabilidade Direta e Proteção Legal
Fechar os olhos para a sobrecarga emocional, a pressão excessiva e as práticas de assédio deixou de ser uma falha de gestão para se tornar um alto risco jurídico. O descaso com o clima organizacional agora expõe as empresas a graves sanções e condenações na Justiça do Trabalho.
“A saúde mental precisa deixar de ser discutida apenas quando ocorre um afastamento. O verdadeiro desafio é criar ambientes em que o adoecimento seja prevenido antes que ele aconteça. Empresas que compreendem essa realidade estarão mais preparadas para enfrentar os desafios atuais e futuros do mundo do trabalho”, conclui.
Em suma: O foco das organizações se desloca da reação para a prevenção, reconhecendo que cuidar da mente de quem faz a empresa acontecer é fundamental tanto para a dignidade humana quanto para a sustentabilidade dos negócios.
“O tema finalmente entrou na agenda executiva, ganhou caráter regulatório com a NR-1 e deixou de ser tratado como benefício complementar. Mas ainda existe uma postura reativa. Muitas empresas só começam a agir quando já existe uma crise instalada, com afastamentos, alta rotatividade, perda de engajamento ou conflitos”, afirma a especialista Tatiana Pimenta, CEO e founder da Vittude, empresa referência no desenvolvimento de programas de saúde mental corporativos.
Esse cenário reflete uma realidade na qual o Brasil lidera a prevalência de transtornos de ansiedade no mundo, afetando cerca de 9,3% da população, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No plano global, estimativas da OMS e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que a combinação de ansiedade e depressão rouba cerca de 12 bilhões de dias de trabalho ao ano, totalizando um prejuízo anual de US$ 1 trilhão em perda de produtividade.

O invisível que custa caro: Presenteísmo e clima organizacional
Embora as licenças médicas sejam o indicador mais chamativo, o problema muitas vezes opera de forma silenciosa dentro dos escritórios e operações. Especialistas apontam para o fenômeno do presenteísmo, quando o colaborador permanece fisicamente no trabalho (ou logado nas rotinas remotas), mas sob forte esgotamento emocional. Isso se traduz em perda de foco, queda na velocidade de decisão e atritos desnecessários no clima organizacional.
Fatores organizacionais bem conhecidos atuam como gatilhos para essa escalada:
- Sobrecarga e ritmo acelerado de entregas
- Longas jornadas e pouca flexibilidade
- Que de autonomia e baixa escuta por parte das lideranças
- Ambientes marcados por insegurança,bom assédio ou discriminação
Da reação à prevenção
Para o médico especialista em Saúde Ocupacional e CEO da Aventus Ocupacional, Dr. Marco Aurélio Bussacarini, a chave do problema está na mudança de mentalidade. “Durante muito tempo, as empresas concentraram esforços em tratar os casos de adoecimento quando eles já estavam instalados. Hoje, o grande desafio é atuar de forma preventiva, identificando fatores que podem comprometer a saúde mental antes que eles resultem em afastamentos. Cuidar das pessoas não é apenas uma questão de bem-estar, mas uma estratégia que impacta diretamente a produtividade, o engajamento e a sustentabilidade do negócio”, afirma Bussacarini.
O especialista ressalta que não existe uma fórmula mágica, mas sim a construção de uma cultura diária baseada em segurança psicológica, transparência e capacitação de lideranças. “O primeiro passo é construir um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para falar sobre dificuldades, tenham lideranças preparadas para acolher e encontrem condições adequadas para desempenhar suas funções. A prevenção acontece no dia a dia”, completa o médico.
Segundo estudos recentes, investir de forma estruturada em saúde mental, deixou de ser uma decisão apenas ética para se tornar uma escolha com racionalidade do ponto de vista financeiro. Segundo levantamento realizado pela Zenklub, em parceria com a Harvard Business Review Brasil a cada um R$ 1 real investido em programas de saúde emocional, as empresas conseguem obter um retorno financeiro de até R$ 4 reais, através de produtividade, redução de afastamentos devido a problemas de saúde e menor rotatividade.
“Na prática, muitas empresas fazem campanhas, mas não fazem gestão de risco. E saúde mental no trabalho não se sustenta com ações de conscientização —precisa de ajuste de desenho do trabalho, liderança, rotina de gestão e governança”, complementa Grazi Piva, especialista em desenvolvimento organizacional.

A mensagem do Dia Nacional da Saúde deixa claro que a gestão da saúde mental corporativa precisa ir muito além de campanhas temporárias. A criação de ambientes seguros, o monitoramento de indicadores de bem-estar e o alinhamento das equipes são, hoje, os pilares indispensáveis para organizações que buscam alto desempenho sem abrir mão da qualidade de vida humana.
“O equilíbrio entre bem-estar e performance não é um dilema é uma interdependência. Empresas que cuidam de saúde mental performam melhor. O que precisamos abandonar é a ideia de que bem-estar compete com resultado. O que compete com resultado é o adoecimento. Programas estruturais reduzem turnover, aumentam engajamento, melhoram tomada de decisão e fortalecem colaboração. É cuidado a serviço da performance sustentável”, explica Tatiana Pimenta.
Por trás dos números frios da previdência social, revela-se uma rotina de sofrimento invisível nos ambientes de trabalho brasileiros. Levantamentos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) confirmam que a saúde mental se tornou um dos principais gargalos da força de trabalho no país, impulsionando milhares de pedidos de auxílio-doença. Entre as condições que mais impedem os brasileiros de exercerem suas funções diárias, destacam-se:
- Depressão (Episódios Depressivos): Longe de ser apenas uma tristeza passageira, a depressão lidera os afastamentos por motivos psicológicos e segue em ritmo acelerado de crescimento. Somente nos primeiros seis meses de 2025, mais de 62 mil profissionais precisaram pausar suas carreiras para tentar recuperar a saúde mental. Cerca de 17%*, a depressão segue em segundo lugar como o transtorno que mais retira trabalhadores do ambiente de trabalho.
- Transtornos de Ansiedade: A pressão constante por resultados, a sobrecarga de tarefas e o medo da instabilidade profissional têm cobrado um preço alto. Condições como o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e as crises de pânico foram responsáveis por 80 mil licenças no primeiro semestre de 2025. É um dos transtornos que mais tirou profissionais do trabalho com 51%*.
- Síndrome de Burnout (Esgotamento Profissional): Classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fenômeno estritamente ligado ao trabalho, a síndrome surge quando o estresse crônico no ambiente profissional atinge um limite insustentável sem o devido suporte, tornando-se uma presença cada vez mais marcante nas estatísticas do INSS. De acordo com a pesquisa, 14% relataram ter se afastado das atividades do trabalho devido a este transtorno. Segundo a ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho) indicam que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem ou já sofreram com o problema; colocando o país entre os mais críticos do mundo.
- Reações ao estresse grave e transtornos de adaptação: O estresse também se manifesta de forma súbita ou prolongada em resposta a traumas, reestruturações agressivas na empresa ou rotinas sob constante tensão, deixando o trabalhador sem ferramentas emocionais para continuar. Segundo levantamentos da ISMA-BR (International Stress Management Association), revelou que até 67% dos profissionais relataram níveis elevados de estresse no trabalho.
“A OMS é bem clara ao recomendar intervenções organizacionais e capacitação de gestores, justamente porque o ambiente e o modelo de gestão são determinantes no adoecimento e no desempenho”, reforça Grazi Piva.
Sobre o Dr. Marco Aurélio Bussacarini
Graduado em Medicina pela UNICAMP e especialista em Medicina Ocupacional pela USP, Marco Aurélio Bussacarini é médico, empreendedor e especialista em administração hospitalar e gestão de empresas, com histórico no setor público e privado. Atuou como gestor no Ministério da Saúde e na liderança de cooperativas médicas. É fundador e CEO da Aventus Ocupacional.
Sobre a Aventus Ocupacional
Pioneira no segmento B2B de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) com 25 anos de atuação, a Aventus Ocupacional integra medicina ocupacional e segurança do trabalho. A companhia atende diversos setores do mercado investindo em inovação e tecnologia, incluindo plataformas digitais e EAD para treinamentos operacionais.
Fonte: A crítica/flash blog
*Os dados fazem parte de um levantamento realizado com visitantes do Congresso Nacional de Gestão de Pessoas (CONARH), em São Paulo.






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