Estatísticas alarmantes revelam o tamanho do abandono paterno no Brasil, enquanto a terapia integrativa alerta para marcas invisíveis que acompanham o indivíduo da vida intrauterina até a idade adulta
Por Redação
Campina Grande, PB – 08/08/2026
O laço entre pais e filhos começa a ser traçado muito antes do primeiro choro na sala de parto. Ainda na fase embrionária, embora o feto não processe emoções de forma cognitiva, ele já reage à assinatura química que a mãe libera na corrente sanguínea. Essa resposta neurobiológica atua de maneira sinérgica na formação do bebê. Contudo, à medida que a criança nasce e se desenvolve, a figura paterna passa a exercer um papel fundamental na consolidação de sua psique, de seu corpo e de seu comportamento.
Na vida de uma criança a presença ou ausência da figura paterna, tem uma função estrutural muito importante, ao qual traz impactos profundos que moldam a saúde mental, o comportamento social e de que modo sucederá a vida adulta.
Entre janeiro de 2016 a abril de 2025, nasceram mais de 1,4 milhões de crianças que em seus registros não constavam os nomes dos pais; segundo os dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil). Nos quatro primeiros meses de 2025, mais de 65 mil crianças tiveram no registro de nascimento apenas o nome da mãe, o que equivale a 6,3% de todos os nascimentos no país nesse período.
A ausência do nome do nome do pai no registro vai muito além dos dados estáticos, a carência do lado paterno traz consequências reais para o desenvolvimento da criança como sentimento de abandono, baixa autoestima e insegurança. Na fase da adolescência os impactos refletem nas dificuldades de se relacionar, busca por referências fora do seio familiar, quadro depressivos e ansiedade.
“A presença afetiva e participativa do pai em atividades como dar banho, alimentar, colocar para dormir, brincar, ajudar nas tarefas escolares ou simplesmente ouvir com atenção fortalece a autoestima, a segurança emocional e a capacidade de resiliência da criança. O que favorece, ainda, relações mais saudáveis na vida adulta”, explica a psiquiatra Dra. Carla Vieira, do CAPS Infantojuvenil II M’Boi Mirim, unidade gerenciada pelo CEJAM em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP).
A presença ativa do pai também traz impactos à saúde mental da mãe, “Isso reduz a sobrecarga e o risco de depressão pós-parto. Os benefícios começam já na gestação. Pais que se envolvem desde as consultas médicas e interagem com o bebê ainda na barriga constroem laços afetivos mais sólidos”, afirma a Dra. Carla.

Os rastros do afeto: Como a presença — ou a ausência — Presença paterna molda horizontes
A figura de um pai vai muito além do registro em cartório. Por muito tempo, as funções paternas eram apenas de ser o provedor e garantir a segurança. No entanto, ao longo do tempo, passou por transformações conforme foi pensando O papel masculino trata-se de uma das primeiras referências que ajudam uma criança a compreender o mundo e o próprio valor. Quando essa ponte não se constrói, o silêncio da ausência ressoa por longos anos, deixando marcas que frequentemente acompanham o indivíduo até a vida adulta.
Estudos no campo da psicologia social mostram que crescer sem essa referência pode fragilizar a estrutura emocional. É comum que a falta do pai se desdobre em um sentimento silencioso de rejeição, baixa autoestima e uma hesitação crônica em confiar no outro. Na adolescência, essa ferida invisível pode se manifestar fora, surgindo na forma de comportamentos de risco, agressividade ou dificuldades na rotina escolar. Além disso, as estatísticas de saúde mental reforçam que a ausência paterna eleva os índices de ansiedade, depressão e vulnerabilidade ao uso de substâncias.
O poder transformador da paternidade ativa
Em contrapartida, quando o pai decide ser presença constante, afetuosa e participativa, o cenário muda radicalmente. Ele deixa de ser um mero espectador da criação e passa a atuar como um verdadeiro escudo protetor para o desenvolvimento da criança.
Um pai engajado não apenas cuida: ele valida quem a criança é, oferecendo a segurança necessária para que ela explore o mundo sem medo de cair.
Esse vínculo ativo traz benefícios perceptíveis no dia a dia:
- Estatura emocional: O afeto paterno consolida a autoconfiança e constrói resiliência para lidar com as frustrações da vida.
- Estímulo ao aprendizado: Pais envolvidos costumam incentivar a curiosidade, o raciocínio crítico e a autonomia, com impactos diretos no desempenho escolar.
- Referencial de convivência: O convívio diário ensina a criança a impor limites saudáveis, respeitar os outros e construir relacionamentos futuros pautados pelo equilíbrio.
A presença física que silencia: Quando estar pertinho não basta
Existe, contudo, um ponto cego no debate sobre a família: a presença que machuca. A simples coexistência sob o mesmo teto não garante proteção emocional. De fato, dinâmicas familiares tóxicas podem ser tão danosas quanto o abandono completo.
O abandono afetivo é um desses exemplos. O pai que está na sala, mas permanece distante, frio ou absorto no trabalho, deixa na criança um vazio muito semelhante ao da ausência física. Já o autoritarismo e a violência — traduzidos em gritos, humilhações ou agressões físicas — destroem a autoestima do filho e perpetuam ciclos de trauma que podem atravessar gerações.
“É difícil hoje em dia olhar para a paternidade porque ela apresenta vários desafios. Antigamente, a função do pai era ser apenas o provedor, o que lhe dava destaque social, e não se esperava mais nada. Só que o mundo mudou. Hoje, além de provedor, espera-se que ele seja emocionalmente presente”, afirma a psicóloga Andrea Aguiar.
No entanto, socialmente e culturalmente o homem não foi preparado para estar presente emocionalmente, e na maioria das vezes se sente perdido com as inúmeras exigências. O fato do termo “obrigação” carregar um peso muito grande, muitos sentem uma certa resistência quanto ao cumprimento, o que acaba por sobrecarregar a maternidade. O que poderia amenizar sobre a palavra, seria pensar na palavra colaboração; já que os pais em muitos dos casos são dois adultos que em comum acordo resolveram construir uma família, e por isso, deveriam se dispor na colaboração das atividades maternais e domésticas.
Quanto aos impactos da ausência paterna na vida da criança, a psicóloga Andrea Aguiar diz que “Essa ausência, no dia a dia ou em momentos marcantes, gera na criança uma crença central de que ela não é importante. Esse adulto levará essa informação para a vida: se for demitido ou terminar um relacionamento, ele sentirá que é porque “não tem importância”, quando na verdade são cursos da vida. O vínculo seguro construído pela presença permite que a pessoa lide com os desafios da vida sem se desestruturar emocionalmente”.

A força da rede: O futuro não está escrito em pedra
Apesar do peso que a figura paterna carrega, a psicologia do desenvolvimento traz uma mensagem essencial de esperança: o destino de ninguém está selado pela falta de um pai.
Mães solo dedicadas, avós, tios, professores e mentores têm o poder de reescrever essa história. Essa rede de apoio afetiva oferece a sustentação que a criança precisa para ressignificar as próprias dores, curar cicatrizes e construir uma vida plena, saudável e cheia de realizações.
No Brasil contemporâneo, a paternidade atravessa um momento de contradições. Se por um lado cresce o desejo masculino de um envolvimento ativo no cuidado diário, por outro, barreiras culturais e sociais ainda limitam essa atuação. As estatísticas desenham um cenário preocupante: dados do IBGE e da FGV apontam que mais de 41 milhões de lares brasileiros (52% do total) são chefiados por mulheres, sendo cerca de 10 milhões deles compostos por famílias monoparentais femininas, onde as mães criam os filhos sozinhas. Em 2025, o país registrou o segundo maior percentual de certidões sem o nome do pai nos últimos dez anos (6,9%), somando atualmente 1,7 milhão de crianças sem o registro paterno.
“A presença do pai na vida de uma criança melhora o desenvolvimento emocional infantil, estimula o vínculo afetivo precoce, reduz comportamentos ansiosos e agressivos, apoia a formação da autoconfiança e impacta positivamente o bem-estar familiar ao longo do crescimento”, destaca a Dra. Jhenevieve Cruvinel, mentora em saúde integral, nutricionista e terapeuta integrativa.
| Tema Central | Dimensão | Benefícios e Impactos |
| Presença Paterna & Desenvolvimento | Impacto Emocional | • Redução de ansiedade • Menor agressividade • Formação da autoconfiança |
| Visão Sistêmica | • Percepção de pertencimento • Construção de identidade • Bases para relações saudáveis |
Das feridas emocionais à saúde física
Segundo a terapeuta integrativa, a ausência ou o descompromisso paterno geram reflexos que vão muito além da questão financeira. Atingem a saúde física, mental e sistêmica, criando uma predisposição a comportamentos de risco, vícios, menor acesso à escolaridade e a tendência à repetição de padrões na vida adulta — perpetuando relacionamentos adoecidos.
A psicanálise já indicava a profundidade dessas marcas. Para Carl Gustav Jung, pai e mãe representam arquétipos fundamentais na estrutura psíquica. As primeiras experiências com essas figuras moldam a compreensão da criança sobre autoridade, responsabilidade, proteção, afeto e pertencimento.
Quando ocorrem inversões de papéis, ausência emocional ou convivência marcada por violência e alcoolismo, a criança muitas vezes abandona o próprio senso de identidade para assumir uma postura hipervigilante, hiper-reativa ou subserviente como mecanismo de sobrevivência.
“Costumo acompanhar diariamente na prática clínica traumas relacionados à ausência paterna. Percebo que os danos persistem por anos e muitas vezes se manifestam até mesmo na saúde física”, relata Jhenevieve. “Do ponto de vista sistêmico, é pela presença do pai que a criança desenvolve parte da sua percepção de pertencimento e segurança.”

Políticas públicas e o desafio da paternidade protagonista
Embora as diretrizes nacionais reconheçam a relevância da figura paterna, a aplicação prática ainda esbarra em limitações. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem busca valorizar a paternidade como componente da saúde, mas traz lacunas de abordagem. Já a Rede Cegonha estimula a participação do pai no pré-natal, parto e puerpério, contudo, costuma posicioná-lo como um mero apoio à mãe e ao bebê, sem criar diretrizes focadas no protagonismo da paternidade ativa.
Mesmo com muitos diálogos sobre o assunto, ainda há muitos desafios a serem superados. “A visão tradicional de masculinidade que associa o homem ao trabalho e à provisão financeira e não ao cuidado, ainda é muito forte, a falta de políticas públicas como licença-paternidade estendida, debates sobre a dificuldades da paternidade e o despreparo emocional ainda são entraves importantes”, ressalta a psiquiatra. Isso mostra que a paternidade precisa ser cuidada para que possa promover um ambiente familiar saudável.
Para Jhenevieve Cruvinel, exercer a paternidade exige superar a ideia de que o cuidado é exclusivo das mães, avós ou cuidadoras. Vínculos afetivos de qualidades podem suprir a falta da figura paterna, que não depende exclusivamente das questões de gênero.
“Ao trazer uma criança à vida, ganha-se a responsabilidade prática de zelar por ela. Não somente em tarefas de lazer, mas fazendo-se presente na rotina diária, consultas médicas e vida escolar. Abandonar esse cuidado é perpetuar violências transgeracionais e perder a oportunidade de ressignificar a própria existência”, conclui a especialista.
Neste Dia dos Pais, o convite que se faz vai além das homenagens festivas: é uma convocação para a reflexão, a reconexão de vínculos e a construção de uma paternidade consciente e comprometida com a saúde das futuras gerações.
Sobre a Fonte
Dra. Jhenevieve Cruvinel: Mentora em saúde integral, nutricionista clínica e holística e terapeuta integrativa com doutorado e especializações. Atua na integração entre ciência, espiritualidade e autoconhecimento.
A presença paterna — ou a falta dela — é uma das estruturas mais determinantes na formação psicológica do indivíduo. Seja pelo abandono definitivo ou pela convivência com a frieza emocional dentro de casa, os reflexos da ausência de um pai reverberam na vida adulta, moldando a autoestima, as relações interpessoais e os mecanismos de defesa emocional.
Para aprofundar o debate sobre abandono afetivo, barreiras culturais da paternidade moderna e o papel das redes de apoio, o Portal Em Pauta conversou com os psicólogos clínicos Jayme Pinheiro Rabelo e Pri Paccitto. Confira a entrevista na íntegra:
Sobre os impactos na vida adulta
Em Pauta: Como a ausência do pai na infância costuma se refletir na vida adulta do paciente e qual é o caminho na terapia para superar essa ferida?
Jayme Pinheiro Rabelo: Os pais são as nossas primeiras referências de aprendizado. Passar pelo desenvolvimento com esse repertório reduzido influencia diretamente a quantidade e a qualidade dos recursos na vida adulta — como a resiliência e a comunicação —, que podem ser comprometidos. Não é uma regra que se tornará uma ferida; seres humanos podem ter um desenvolvimento saudável fora do modelo heteronormativo. No entanto, os pais constituem a rede de apoio social e emocional, e crescer sem uma dessas bases estruturantes pode gerar dificuldades relevantes. Na psicoterapia, o objetivo é localizar potenciais danos e trabalhar com os recursos que o próprio indivíduo dispõe para contornar esses desafios.
Pri Paccitto: A ausência paterna pode deixar marcas profundas, como o medo do abandono, a dificuldade de confiar, a baixa autoestima e barreiras nos relacionamentos interpessoais. Mas isso não determina o futuro da pessoa. No processo terapêutico, buscamos compreender essa experiência, elaborar os sentimentos envolvidos e construir novas formas do paciente se relacionar consigo mesmo e com os outros.

Sobre o abandono afetivo (presença física vs. ausência emocional)
Em Pauta: O pai que mora na mesma casa, mas é frio ou distante, pode causar o mesmo dano psicológico que o abandono total?
Jayme Pinheiro Rabelo: O tratamento frio e distante causa danos equivalentes, mas não exatamente iguais por regra. A configuração de um ambiente com pai ausente é diferente do contexto de intermitência — aquele em que uma hora o pai está próximo e, na outra, totalmente distante. O contexto de punição pelo silêncio, por exemplo, contribui para um ambiente altamente ansiogênico, em que o indivíduo vive na incerteza de quando terá, ou não, a presença paterna de forma substancial.
Pri Paccitto: Sim, um pai pode estar fisicamente presente e emocionalmente ausente. Para a criança, a mera presença física não basta: ela precisa se sentir vista, ouvida, cuidada e reconhecida. Entretanto, cabe ressaltar que cada pessoa vivencia e elabora esse tipo de ausência de maneira única.
Sobre os desafios do homem moderno
Em Pauta: Por que muitos homens ainda têm dificuldade em exercer uma paternidade afetuosa e como superar essa barreira cultural?
Jayme Pinheiro Rabelo: Enfrentamos os ecos de uma cultura secular. Os homens ainda são autorizados — inclusive legalmente — a abortar a paternidade, seja por acordos, fugas ou pela abstenção do registro civil. Falta aos homens se apropriarem desse papel de forma substancial, tanto no campo emocional quanto no da responsabilidade legal. Adultos já respondem a obrigações complexas no trabalho e em outras relações; porém, na paternidade, os números de abandono ainda são alarmantes e normalizados. O único caminho para superar isso é a mudança cultural e social ampla.
Pri Paccitto: Muitos homens foram educados sob a crença de que demonstrar sentimentos é um sinal de fraqueza, o que bloqueia o exercício de uma paternidade afetiva. Romper esse padrão exige compreender que cuidar, ouvir, demonstrar carinho e participar ativamente da vida dos filhos não são fraquezas, mas sim expressões legítimas de força e responsabilidade.
Sobre a rede de apoio e superação
Em Pauta: A presença de uma mãe solo, avós ou mentores é suficiente para neutralizar os impactos da falta de um pai?
Jayme Pinheiro Rabelo: Se for um lar saudável e acolhedor, sim. No Brasil, muitos adultos se desenvolvem de forma plena apesar dessa ausência. Contudo, torna-se um ambiente mais delicado, no qual a assertividade e a qualidade da comunicação precisam estar em alto nível. Mães solo, por vezes, sobrecarregam-se com jornadas duplas ou triplas, o que compromete o tempo de qualidade, o lazer e a presença em reuniões escolares devido ao cansaço. Quando a rede de apoio deixa de ser complementar e passa a ser a base estruturante principal, ela precisa ser assistida e verificada com ainda mais atenção.
Pri Paccitto: Uma rede de apoio afetiva e segura é um fator de proteção essencial. Mães, avós, familiares e professores oferecem vínculos extremamente significativos. Eles não necessariamente “substituem” a figura paterna, mas garantem que a criança se desenvolva com sentimento de segurança e pertencimento. A ausência paterna pode fazer parte da história de alguém, mas não precisa definir quem essa pessoa será.





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