Do romance O Caçador de Pipas ao documentário sobre Zarifa Ghafari: uma reflexão sobre o Afeganistão, o Talibã e o futuro das meninas afegãs
Por Mateus Vieira
Belo Horizonte, 20/08/2026
O Afeganistão costuma aparecer nos noticiários como sinônimo de guerra e fundamentalismo. Mas cinco anos depois da volta do Talibã ao poder, o país enfrenta uma crise que vai além das manchetes: 21,9 milhões de pessoas dependem de ajuda humanitária, meninas estão proibidas de estudar e mulheres foram excluídas da vida pública. Este artigo reconstrói a trajetória do regime talibã, analisa os números da crise atual e examina como obras culturais, como O Caçador de Pipas e o documentário sobre Zarifa Ghafari, ajudam a compreender um país que a cobertura jornalística muitas vezes reduz a poucas palavras.
Uma história que não começa no Talibã
Durante décadas, o Afeganistão foi uma monarquia, um país de montanhas imensas, cidades em transformação e fronteiras atravessadas por interesses estrangeiros. Em 1973, um golpe derrubou o rei e proclamou a república, abrindo uma longa sequência de rupturas, guerras e governos breves.
Em 1979, a União Soviética invadiu o país para sustentar um governo aliado. A presença soviética transformou o Afeganistão em campo de batalha da Guerra Fria. De um lado, o Exército Vermelho; de outro, grupos de combatentes afegãos, os mujahidin, apoiados por potências estrangeiras, incluindo Estados Unidos, Arábia Saudita e Paquistão. Quando os soviéticos partiram, em 1989, deixaram para trás um país devastado, armas espalhadas e uma sociedade ainda dividida.
Sem um poder capaz de reunir as diferentes forças, veio a guerra civil. Cabul foi disputada, bairros foram destruídos e a promessa de ordem se tornou mais poderosa do que a promessa de liberdade. Em meio ao cansaço e ao caos, o Talibã apareceu como uma força disciplinada, apoiada por setores que desejavam segurança e por redes religiosas e militares formadas durante os anos de conflito. O movimento nasceu em 1994, principalmente em madraças paquistanesas na fronteira com o Afeganistão, e recebeu apoio logístico e financeiro do Paquistão, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes. Em 1996, o grupo tomou Cabul e passou a controlar grande parte do país.
O regime talibã impôs uma interpretação rígida do islamismo e isolou ainda mais o Afeganistão. Execuções públicas, amputações, proibição de música e televisão, e restrições severas às mulheres, que foram excluídas da educação, do trabalho e da vida pública, tornaram-se rotina. O regime também ofereceu abrigo a Osama bin Laden e à Al-Qaeda, decisão que, após os ataques de 11 de setembro de 2001, levaria à intervenção militar liderada pelos Estados Unidos e à queda do governo talibã.
Durante vinte anos, o Talibã se reorganizou nas áreas rurais e nas regiões de fronteira com o Paquistão, mantendo uma guerra de insurgência contra o governo apoiado pelo Ocidente e as forças internacionais. Quando os Estados Unidos anunciaram a retirada de suas tropas, em 2021, o grupo avançou com rapidez, aproveitando a fragilidade das instituições afegãs e o desgaste de duas décadas de conflito. Em 15 de agosto, entrou em Cabul. O governo caiu, o presidente deixou o país e cenas de desespero se espalharam pelo aeroporto da capital.
Assim, o Afeganistão pareceu voltar ao ponto de partida. Embora nada fosse exatamente igual. A monarquia, o golpe, a invasão soviética, a guerra civil, o primeiro governo talibã, a ocupação americana e a retirada não formaram uma linha reta, mas uma sucessão de círculos. Cada potência chegou prometendo estabilidade; cada saída deixou novas feridas. E, entre uma promessa e outra, permaneceram os afegãos, vivendo no país onde a história raramente termina, apenas muda de uniforme.
Crise humanitária no Afeganistão: fome, pobreza e o regime do Talibã
Com a volta do Talibã ao poder, a população afegã passou a enfrentar uma combinação devastadora de fome, seca prolongada, declínio econômico e colapso de serviços essenciais. O país, que já era um dos mais pobres do mundo, viu sua economia entrar em colapso após a retirada das tropas estrangeiras e a suspensão de grande parte da ajuda internacional, que antes respondia por uma parcela significativa do orçamento nacional.
Os números dão dimensão à crise. Em 2026, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, 21,9 milhões de pessoas precisarão de ajuda humanitária. Isso significa que aproximadamente uma em cada duas pessoas no país depende de algum tipo de assistência para sobreviver. Quase metade da população é afetada pela insegurança alimentar e pelas consequências de uma crise que, cinco anos depois da volta do Talibã, permanece longe de encontrar uma solução.
Toda essa crise se desenrola em um contexto de negação sistemática dos direitos das mulheres. Segundo a UNESCO, uma das expressões mais graves dessa realidade é a exclusão de 2,5 milhões de meninas do ensino secundário. Desde março de 2022, meninas afegãs estão proibidas de frequentar o ensino secundário. Ainda naquele ano, as restrições se aprofundaram com o fechamento das universidades para mulheres jovens. Mulheres foram afastadas de cargos públicos, de organizações não governamentais e de diversos espaços de trabalho. O regime também impôs regras rígidas sobre o uso de vestimentas e a presença feminina em espaços públicos.
Cinco anos depois da retomada do poder, o Talibã continua governando o país, enquanto cresce o contato diplomático de outros países com o regime, mesmo sem mudanças substanciais nas restrições impostas às mulheres. Nações vizinhas, como Paquistão, Irã e China, mantêm relações pragmáticas com o governo talibã, motivadas por interesses econômicos, de segurança e de controle de fronteiras. Alguns países ocidentais, por sua vez, mantêm canais de diálogo para discutir questões humanitárias e de combate ao terrorismo, sem reconhecer formalmente o regime.
O Afeganistão permanece, assim, preso entre a necessidade de ajuda internacional e a recusa de grande parte do mundo em reconhecer plenamente o governo talibã. Enquanto isso, o regime consolida seu poder interno, reafirmando uma visão de sociedade que exclui mulheres, reprime dissidências e isola o país de grande parte da comunidade internacional.

O Caçador de Pipas: um Afeganistão antes da guerra
Publicado em 2003, O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, é uma narrativa sobre dois meninos em um Afeganistão ainda distante da guerra que o mundo conheceria, ambientada na Cabul dos anos 1970. É uma história sobre amizade e traição, culpa e redenção, e sobre como algumas memórias da infância permanecem voando no céu muito depois de as pipas caírem.
Amir e Hassan cresceram juntos em Cabul, no Afeganistão dos anos 1970. Amir é filho de um homem rico e poderoso; Hassan, filho do empregado da família. Apesar da diferença de classe e etnia — Amir é pashtun e Hassan, hazara —, os dois são inseparáveis na infância. Hassan é leal a Amir até o limite, enquanto Amir, atormentado pela inveja e pela culpa, comete uma traição que marcará sua vida para sempre.
Anos depois, já adulto e vivendo nos Estados Unidos, Amir recebe a notícia de que precisa voltar ao Afeganistão. O retorno o obriga a enfrentar o passado, a guerra e uma verdade sobre Hassan que mudará tudo o que ele acreditava conhecer sobre a própria história.
A obra permite enxergar o Afeganistão não apenas como um país em conflito, mas como um país que tinha uma história antes da guerra e que continuava tendo uma história apesar dela. Por meio de uma narrativa sobre amizade, culpa, pertencimento e perda, o livro dá rostos, nomes, afetos e memórias a um lugar que muitas vezes é conhecido apenas como cenário de guerra.
Zarifa Ghafari: uma afegã no poder
Se O Caçador de Pipas permite conhecer o Afeganistão através da memória de um menino, o documentário Zarifa Ghafari: Uma Afegã no Poder desloca o olhar para o presente e para uma mulher que tenta ocupar, em meio à violência, um espaço público historicamente negado a tantas afegãs. Lançado pela Netflix em 2022 com o título original In Her Hands, o filme acompanha Zarifa Ghafari, uma das mais jovens prefeitas do país, durante a retirada das forças ocidentais e o avanço do Talibã.
Zarifa cresceu em Maidan Shahr, capital da província de Wardak, em uma família que valorizava a educação das filhas. Formou-se em direito, trabalhou como ativista pelos direitos das mulheres e, em 2018, foi nomeada prefeita de sua cidade, tornando-se uma das primeiras mulheres a ocupar o cargo no Afeganistão e a mais jovem a fazê-lo. Seu mandato foi marcado por tentativas de melhorar a infraestrutura local, defender escolas e enfrentar pressões de grupos conservadores e insurgentes.

A história de Zarifa se desenrola em um Afeganistão já transformado por décadas de conflito. Quando ela assume a prefeitura, o governo central ainda existe, mas sua autoridade é frágil. As forças ocidentais começam a se retirar, o Talibã avança sobre o território e as ameaças contra mulheres em cargos públicos se tornam cada vez mais frequentes. Zarifa precisa decidir, dia após dia, se continua no cargo, se protege a família ou se abandona o país.
Diferente de Amir, que conta com a distância da memória, Zarifa vive o colapso em tempo real: o telefone que toca com uma nova ameaça, a casa que precisa ser deixada, o futuro que se fecha diante dos olhos. Enquanto Amir carrega durante anos a culpa por não ter protegido Hassan, Zarifa enfrenta a necessidade iminente de proteger a si mesma, à família e à cidade que administra. A amizade entre os dois meninos no livro é atravessada por hierarquias étnicas e sociais que a infância não consegue dissolver; a trajetória de Zarifa é atravessada pela tentativa de ocupar um lugar de poder em um país onde esse lugar foi historicamente negado às mulheres.
Com a queda de Cabul, em 15 de agosto de 2021, a vida de Zarifa muda de forma definitiva. O Talibã retoma o controle do país e as mulheres em cargos públicos se tornam alvos prioritários. Ela precisa deixar a cidade, abandonar o cargo e, eventualmente, o país. Para muitas mulheres afegãs, a mudança significou o desaparecimento de direitos e espaços conquistados desde 2001. A queda da capital não foi apenas uma mudança de governo: foi a transformação repentina do horizonte de uma geração.
Hassan e Amir representam a memória de uma infância interrompida. Zarifa representa a tentativa de construir um futuro dentro de um país ainda em guerra. As meninas que hoje não podem estudar representam aquilo que permanece em suspenso. A passagem da literatura ao documentário e, depois, à realidade contemporânea produz um movimento de aproximação. Primeiro, o Afeganistão é lembrado. Depois, é enfrentado. Por fim, é visto nas vidas de meninas cujo futuro foi novamente colocado sob vigilância.
Assim, O Caçador de Pipas e Zarifa Ghafari: Uma Afegã no Poder não contam a mesma história, nem devem ser tratados como retratos equivalentes do país. O romance é uma obra de ficção baseada na memória e na experiência da diáspora; o documentário acompanha uma figura real diante de acontecimentos políticos concretos. Ainda assim, juntos, eles permitem perceber que a história do Afeganistão não se resume às mudanças de regime. Ela também está nos vínculos rompidos, nas escolhas individuais e nas portas que se abrem — ou se fecham — para as mulheres.
Ao aproximar Zarifa das meninas impedidas de estudar, o passado deixa de ser apenas uma lembrança. A pergunta já não é somente o que aconteceu ao Afeganistão, mas o que ainda pode acontecer com aqueles que continuam tentando existir dentro dele. Se Amir carrega a culpa pelo que não fez e Zarifa luta pelo que ainda pode fazer, as meninas afegãs aparecem como o futuro interrompido de uma história que insiste em recomeçar pelo medo.






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