Em meio ao crescimento do mercado bilionário de wellness e à pressão por padrões estéticos, especialistas alertam para a importância da nutrição integral e da reconexão emocional com a alimentação

Por Redação 

Campina Grande, PB – 02/09/2026

​Na última segunda-feira, 31 de agosto, foi celebrado o Dia do Nutricionista, data que homenageia os profissionais dedicados a garantir o acesso à informação, à saúde e ao bem-estar da população. Em um cenário transformado pelas redes sociais e pelo avanço de um mercado bilionário de wellness, o papel desse especialista passou a ir muito além da elaboração de dietas: o desafio atual consiste em ajudar as pessoas a reconstruírem uma relação saudável com a alimentação e com o próprio corpo.

O dia do nutricionista traz como reforço a atuação deste profissional na promoção da saúde e um aspecto que vem chamando a atenção é a relação que tem entre alimentação, intestino e saúde mental. Além de estudar os alimentos e a relação com o organismo como um todo, tendo como objetivo a promoção, recuperação e manutenção da saúde por meio da alimentação. 

Na prática a atuação do profissional vai além da contagem de calorias, envolve pesagem corporal, prescrições de receitas, ou até mesmo ver qual alimento deve ou não fazer parte do cotidiano. 

Seguir à risca o tratamento para os transtornos mentais é muito importante, é dar a devida importância aos fatores que contribuem para o bem-estar. Entre um deles está a alimentação; estudos apontam que a conexão entre intestino e cérebro contribuem para entender o que acontece no intestino que pode se relacionar com as atividades cerebrais.

Para a nutricionista da Prati-Donaduzzi, Joice Rauber, ressalta que, quando se trata de saúde mental, diferentes fatores devem ser considerados. “A alimentação não substitui tratamentos ou outros cuidados necessários, mas contribui para fornecer nutrientes importantes para o funcionamento adequado do organismo e do sistema nervoso”, afirma. 

A partir de estudos que têm investigado a relação entre intestino e cérebro, conseguiu identificar diferenças na microbiota intestinal de pessoas que possuem ou não diagnóstico de depressão e ansiedade, o que reforça ainda mais a relação entre os dois. “A microbiota intestinal participa dessa interação e está relacionada a mecanismos envolvidos no funcionamento cerebral e em processos associados ao humor, ao sono e à resposta ao estresse”, complementa a nutricionista. 

No entanto, a nutricionista deixa bem claro, que embora haja bons resultados não significa que alguns alimentos podem ser considerados para tratamento de transtornos mentais. O que pode ser considerado é o padrão alimentar na sua totalidade. “Não existe um alimento isolado capaz de prevenir ou tratar um transtorno mental. O mais importante é manter uma alimentação equilibrada, respeitando as necessidades de cada pessoa e buscando orientação profissional quando necessário”, afirma.  A alimentação é um dos fatores que ajudam no processo de cuidados, em conjunto com outros elementos como boa qualidade de sono, atividades físicas e acompanhamento profissional adequado. 

​A nutrição, ciência dedicada ao estudo dos alimentos e de como o organismo absorve e utiliza os nutrientes para prevenir doenças, vem expandindo seus horizontes. Para promover a saúde de forma efetiva, a área passou a integrar saberes do comportamento humano, hábitos culturais e especificidades regionais.

​Essa evolução ganha ainda mais relevância diante das pressões contemporâneas. Com a popularização da profissão na internet, surgiram também novos desafios no atendimento prático e clínico.

Fonte: Imagem de magnific

​“Nossos antepassados comiam comida de verdade. Não tinham acesso a produtos ultraprocessados, a propagandas massivas em ambientes físicos e digitais, e muito menos estavam em busca de um padrão estético insustentável para a saúde”, destaca a nutricionista clínica e holística e terapeuta integrativa Jhenevieve Cruvinel. Segundo a especialista, o ato de comer transformou-se em um símbolo de status, sinal de pertencimento social e busca por validação.

​A armadilha do mercado wellness e dos ultraprocessados

​O impacto dessas mudanças refletem-se na economia global. O segmento de wellness (bem-estar) movimenta atualmente cerca de US$ 6,8 trilhões, com projeção de atingir US$ 9,8 trilhões até 2029 — impulsionado principalmente pelas categorias de alimentação saudável, nutrição funcional e suplementação.

​Contudo, a proliferação de produtos com rótulos que prometem “bem-estar”, mas que são hiper-ricos em carboidratos e pobres em micronutrientes, gera confusão entre os consumidores.

​“Trata-se de uma grande armadilha, que demanda do profissional ainda mais cuidado com a saúde integral do paciente, além de dedicação contínua à educação e conscientização da população”, adverte Cruvinel.

​Riscos da automedicação e dos padrões estéticos

​Outra preocupação crescente nas clínicas é a combinação entre alimentos de baixa densidade nutricional e o uso indevido e não prescrito de canetas emagrecedores, suplementos e implantes hormonais. Essa busca por resultados estéticos rápidos tem desencadeado problemas físicos e emocionais graves.

​Entre os sintomas mais frequentes relatados por especialistas estão:

  • ​Perda acelerada de massa muscular e massa óssea precoce;
  • ​Flacidez acentuada e queda de cabelo;
  • ​Queda no rendimento cognitivo;

​Transtornos comportamentais e prejuízos emocionais ligados à alimentação

  • ​O futuro da nutrição: integrar mente, corpo e hábitos

​Para Jhenevieve Cruvinel, o próximo passo da nutrição exige olhar para as causas profundas dos comportamentos alimentares. O foco deve migrar da obsessão estética para a busca por longevidade e bem-estar real. Por isso, a valorização do profissional de nutrição é reconhecer que o cuidado com a alimentação vai além do lado estético. É buscar a prevenção de doenças e a boa relação com a comida.

​“Talvez o próximo passo da nutrição não seja ensinar as pessoas apenas a comer melhor, mas ajudá-las a compreender por que comem como comem. Saúde não é apenas a ausência de doença crônica, mas um estado de bem-estar que engloba a mente, o corpo, as relações, o ambiente e a conexão com a vida”, ressalta.

​A especialista conclui que negligenciar esses aspectos compromete a qualidade da experiência de vida. Por isso, o papel do nutricionista na atualidade começa na conscientização das emoções e na transformação da forma como cada indivíduo aprende a cuidar de si mesmo. Além de alertar contra a desinformação advinha da facilidade da Internet, e o risco de seguir dietas informais. 

O nutricionista tem uma atuação ampla e pode atuar em diferentes ambientes, como: hospitais, auxiliando no cuidado e na recuperação de pacientes; em escolas, contribuindo para a formação de hábitos alimentares desde a infância; no esporte, trabalhando junto a atletas e praticantes de atividade física; em restaurantes e serviços de alimentação, cuidando da qualidade e da segurança dos alimentos; na saúde pública, com o desenvolvimento de ações de promoção e prevenção; além de estar presente na pesquisa, na indústria de alimentos, na docência e em diversas outras áreas.

Fonte: Imagem de artursafronovvvv no Magnific

​Serviço / Fontes

​Dra. Jhenevieve Cruvinel: Mentora em saúde integral, nutricionista clínica e holística e terapeuta integrativa, com doutorado e especializações em ciência, práticas de autoconhecimento e reconexão entre mente, corpo e alma.

Fonte: Prati-Donaduzzi 

Mitos da beleza, promessas milagrosas e saúde real: uma conversa sobre o papel da nutrição no dia a dia

O Dia do Nutricionista foi celebrado na última segunda-feira (31), o debate sobre alimentação saudável vai muito além de calorias, porções ou contagem de macronutrientes. Em um cenário dominado por tendências de redes sociais, promessas de emagrecimento rápido e rotulagens que confundem o consumidor, a busca pelo bem-estar tem gerado mais ansiedade do que saúde.

Para entender os impactos do “wellness de fachada”, as armadilhas do mercado e a importância de olhar para a relação emocional com a comida, conversamos com a nutricionista Milena Cogo, da cidade de Remígio (PB). Confira a entrevista na íntegra:

A busca por status no mercado wellness e a ansiedade alimentar

Como o excesso de promessas e a busca por status no mercado de bem-estar afetam a relação das pessoas com a alimentação no dia a dia?

Milena Cogo: O excesso de promessas no mercado de bem-estar pode gerar muita frustração e, principalmente, uma relação cada vez mais ansiosa com a alimentação. Muitas pessoas compram um produto ou aderem a determinado método esperando alcançar o resultado que foi prometido nas redes sociais, mas esquecem que cada indivíduo tem uma história, uma genética, uma rotina, um contexto emocional e necessidades diferentes.

Um método que funcionou para uma pessoa não necessariamente terá o mesmo resultado para outra. Quando isso não é compreendido, é comum que o indivíduo interprete a falta de resultado como uma falha pessoal, quando, na verdade, muitas vezes o problema está na expectativa irreal criada pela promessa.

Além disso, existe uma busca constante por status dentro do mercado wellness. Hoje, ter muitos seguidores ou uma imagem de “vida saudável” nas redes sociais não significa, necessariamente, ter conhecimento ou qualificação profissional para orientar alguém. Encontramos pessoas sem formação na área divulgando métodos milagrosos, suplementos, dietas extremamente restritivas e até mesmo terrorismo alimentar.

Isso pode fazer com que a alimentação deixe de ser algo prazeroso e passe a ser motivo de culpa, medo e preocupação. Por isso, acredito que o consumidor precisa aprender a questionar: quem está fazendo essa recomendação? Existe formação e embasamento científico? Essa promessa é realmente possível? Saúde não deveria ser uma tendência ou um símbolo de status, mas algo construído de forma individual, consciente e sustentável.

Fonte: Imagem de magnific

Como identificar “falsos saudáveis” nos rótulos e no supermercado

Como o consumidor pode identificar os rótulos de “falsos saudáveis” e evitar as armadilhas do mercado?

Milena Cogo: O primeiro passo é entender que a embalagem não conta toda a história de um alimento. Termos como “fit”, “natural”, “zero”, “light” ou “sem açúcar” podem chamar a atenção, mas não significam automaticamente que aquele produto seja a melhor escolha.

Por isso, é muito importante desenvolver o hábito de ler a lista de ingredientes e a tabela nutricional. A lista de ingredientes, por exemplo, é apresentada em ordem decrescente de quantidade; então aquilo que aparece primeiro está presente em maior quantidade no produto. Também é importante não olhar apenas para um único componente. Às vezes, o consumidor vê que um produto não contém açúcar, por exemplo, mas não observa o restante da composição. A indústria também pode utilizar diferentes nomes para ingredientes semelhantes, o que dificulta a interpretação de quem não tem conhecimento sobre rotulagem.

Informação é uma das melhores ferramentas de proteção do consumidor. Não precisamos transformar a ida ao supermercado em uma investigação, mas aprender a interpretar minimamente os rótulos nos dá autonomia para fazer escolhas mais conscientes.

E, principalmente, precisamos parar de pensar que existe alimento “perfeito” e alimento “proibido”. Um produto industrializado pode fazer parte da alimentação, assim como um alimento in natura pode não ser adequado para determinada pessoa em determinado contexto. O que importa é o padrão alimentar como um todo.

Os riscos do uso indiscriminado de canetas emagrecedoras, suplementos e hormônios

Quais são os principais riscos físicos e emocionais do uso sem orientação de canetas emagrecedoras, suplementos e implantes hormonais?

Milena Cogo: Costumo dizer que cada indivíduo é um mundo diferente. Cada pessoa possui fatores genéticos, ambientais, emocionais, comportamentais e uma rotina própria, e todos esses fatores podem interferir tanto na resposta ao tratamento quanto nos possíveis efeitos adversos.

Quando uma pessoa utiliza medicamentos para emagrecimento, suplementos ou hormônios por conta própria, sem avaliação e acompanhamento profissional, ela pode estar se expondo a riscos desnecessários, como efeitos adversos, interações medicamentosas, uso inadequado de doses, desidratação, alterações gastrointestinais e, dependendo da estratégia utilizada, perda de massa muscular ou carências nutricionais. No caso dos hormônios, o cuidado precisa ser ainda maior, porque estamos falando de substâncias que interferem diretamente em processos fisiológicos importantes. Não existe uma estratégia universal que seja segura ou indicada para todas as pessoas.

Além dos riscos físicos, existe também uma questão emocional. A promessa de um emagrecimento rápido pode criar expectativas irreais e reforçar a ideia de que o corpo precisa mudar rapidamente para que a pessoa se sinta bem ou saudável. Quando o resultado não corresponde à expectativa, isso pode gerar frustração, culpa e até uma relação ainda mais difícil com o próprio corpo.

O acompanhamento profissional não elimina completamente a possibilidade de intercorrências, mas permite avaliar indicações, contra indicações, riscos, necessidades individuais e acompanhar a resposta ao tratamento. A pergunta não deveria ser apenas “isso emagrece?”, mas também “isso é indicado para mim e é seguro no meu contexto?”.

Além do prato: a importância da nutrição comportamental e emocional

Por que a nutrição precisa ir além da dieta e focar nos motivos emocionais que levam a pessoa a comer?

Milena Cogo: Porque comer não é apenas uma necessidade fisiológica. A comida também está relacionada à nossa história, às nossas memórias, à cultura, às relações familiares, às celebrações e aos afetos. Por isso, não podemos compreender completamente o comportamento alimentar olhando apenas para calorias, nutrientes e porções.

Muitas pessoas comem em momentos de ansiedade, estresse, tristeza, solidão ou cansaço. E isso não significa simplesmente “falta de força de vontade”. Nosso comportamento alimentar é influenciado por fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Alguns alimentos também estão associados a sensações de prazer e recompensa, então é natural que, em determinados momentos, o cérebro busque a comida como uma forma rápida de conforto. O problema não está em comer um doce quando estamos tristes ou em aproveitar uma comida que gostamos, mas sim quando a comida se torna praticamente a única estratégia que temos para lidar com nossas emoções.

Por isso, o papel da nutrição não deve ser simplesmente retirar alimentos, mas ajudar o paciente a construir uma relação mais consciente e equilibrada com eles. Precisamos mostrar que é possível encontrar prazer e conforto em outras experiências, desenvolver estratégias para lidar com emoções e, ao mesmo tempo, entender que comer aquele doce preferido não é um crime.

Uma alimentação saudável não é aquela em que a pessoa nunca come o que gosta. É aquela em que existe equilíbrio, variedade, prazer e consciência. O que define nossa saúde não é um alimento isolado, mas o conjunto das nossas escolhas ao longo dos dias e semanas. Sem culpa e sem terrorismo alimentar.

Fonte: Imagem de magnific

Os desafios modernos da profissão e a luta contra a desinformação

Olhando para as transformações dos últimos anos, como você enxerga a evolução da nutrição e qual é o maior desafio do nutricionista na atualidade?

Milena Cogo: A nutrição evoluiu muito nos últimos anos. Hoje entendemos que cuidar da alimentação vai muito além de simplesmente prescrever uma dieta. A profissão ganhou um olhar muito mais amplo para o indivíduo, considerando não apenas o que ele come, mas também seu comportamento, sua rotina, sua cultura, suas condições de saúde, seu contexto social e sua relação com a comida.

Também vejo uma expansão muito grande dos campos de atuação do nutricionista. O profissional está presente em hospitais, unidades de saúde, escolas, empresas, consultórios, esporte, indústria de alimentos, pesquisa, saúde pública e tantos outros espaços. Isso mostra o quanto a nutrição é uma área essencial para a sociedade.

Ao mesmo tempo em que evoluímos, surgiram novos desafios. Talvez um dos maiores seja justamente fazer com que a informação de qualidade consiga competir com a quantidade de desinformação que encontramos diariamente. Nunca tivemos tanto acesso à informação, mas também nunca foi tão fácil encontrar recomendações sem embasamento científico, promessas milagrosas e profissionais ou influenciadores falando sobre assuntos para os quais não possuem qualificação.

Por isso, acredito que o nutricionista de hoje precisa ser, além de um bom profissional técnico, um bom comunicador. Precisamos saber traduzir a ciência para uma linguagem que as pessoas consigam compreender e aplicar na vida real, sem terrorismo, sem culpa e sem promessas irreais.

E existe ainda um desafio que considero muito importante: não perder a humanidade diante de tantos números, protocolos e tendências. Antes de enxergarmos calorias, exames ou composição corporal, precisamos enxergar pessoas. A evolução da nutrição, para mim, está justamente em unir ciência, individualidade e acolhimento.

Recado para o Dia do Nutricionista: saúde sem neuras ou radicalismos

Para celebrar o Dia do Nutricionista e inspirar quem busca uma vida mais saudável sem neuras ou radicalismos, qual mensagem ou conselho fundamental você deixaria para a população hoje?

Milena Cogo: Meu principal conselho seria: não transforme a busca por saúde em uma busca pela perfeição.

Uma alimentação saudável não precisa ser perfeita todos os dias. Você não precisa eliminar tudo o que gosta, viver de salada ou sentir culpa porque comeu um doce. Saúde é construída no conjunto das escolhas e dos hábitos, e não definida por uma refeição isolada. Aprenda a ouvir o seu corpo, respeite a sua individualidade e desconfie de tudo aquilo que promete resultados rápidos, fáceis e iguais para todo mundo. O que funciona para outra pessoa pode não funcionar para você, e isso não significa que você falhou.

Também acredito que precisamos parar de enxergar a comida como uma inimiga. A comida nutre, mas também reúne pessoas, carrega memórias, cultura, afeto e prazer. É possível cuidar da saúde sem abrir mão de viver.

E, se eu pudesse deixar uma mensagem neste Dia do Nutricionista, seria: procure informação de qualidade, busque profissionais capacitados e tenha paciência com o seu processo. Seu corpo não precisa ser tratado como um projeto que precisa estar pronto para você começar a viver. Cuidar da alimentação é cuidar de si — e isso deve ser um ato de saúde, não de punição. Menos radicalismo e mais equilíbrio, consciência e respeito por si mesmo.

Deixe um comentário