Mesmo com a diminuição no número geral de candidatos no país, a presença de lideranças da diversidade cresce no pleito e consolida avanço histórico rumo ao Legislativo
Por Redação
Campina Grande, PB – 07/09/2026
Em um cenário eleitoral marcado pelo encolhimento do número total de concorrentes ao pleito de 2026, a diversidade caminha na contramão da retração política. Levantamento do Instituto Plena Cidadania, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e na plataforma VoteLGBT, revela que o número de candidaturas declaradas LGBT+ registrou um salto expressivo de 57% em relação às eleições gerais de 2022, alcançando a marca de 514 postulantes a cargos públicos em todo o país.
O avanço reflete a consolidação de um movimento que deixa de ser pontual e passa a ocupar espaço estratégico na disputa por representatividade direta nas esferas de decisão. Além de acontecer em um cenário de retração geral, tendo em vista que no Brasil o total de candidaturas escolheu cerca de 30% (caindo de 29.262 para 20.524) no mesmo período.
Após essa mudança, houve um crescimento saindo de 1.12% para 2.5% de candidatos da comunidade, segundo dados levantados pelo Instituto Plena Cidadania. Os dados foram divulgados no último dia (18/08), pelo Instituto que é uma organização que trabalha com o desenvolvimento de projetos relacionados a democracia, direitos humanos e cidadania e pelos dados apresentados por se tratar de dados autodeclarados, novos podem ser incluídos durante a campanha no dashboard do projeto.
O projeto VoteLGBT foi criado em 2014, tendo o objetivo de conectar os eleitores às lideranças LGBT+ comprometidas com as causas dos direitos humanos, democracia e representatividade política.
No levantamento dos dados também fizeram parte para as eleições de 2026 representantes da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), o coletivo Tymbyras e o Transmasc no Poder. Em 2022, as candidaturas LGBT+ eram de 1 para 90 candidatos, nas eleições deste ano, a proporção é de para 40 candidaturas.

Representatividade em expansão: candidaturas LGBTQIA+ batem recorde e avançam pelo país em 2026
O mapa político brasileiro passa por uma mudança expressiva nestas eleições. Além do crescimento numérico, a presença de postulantes LGBTQIA+ ganha traços mais estratégicos, com um movimento claro de descentralização geográfica e busca por espaços no Poder Legislativo. As eleições de 2022, tiveram eleitas as primeiras mulheres trans Erika Hilton e Duda Salabert, eleitas para as vagas de Deputadas Federais na Câmara dos Deputados.
Anteriormente, nas eleições municipais de 2020, Erika foi eleita vereadora mais votada para ocupar a vaga na Câmara Municipal de São Paulo pelo PSOL, já Duda Salabert, foi a vereadora mais bem votada por Belo Horizonte. Ambas continuam na busca pela vaga na Câmara dos Deputados nas eleições deste ano.
Avanço regional e foco no Congresso
A ocupação dos espaços do poder nacional virou prioridade. A disputa por cadeiras na Câmara dos Deputados quase dobrou nesta eleição, com um salto de 116 para 214 nomes — uma alta de 84%. Para as assembleias estaduais e distritais, o avanço foi de 36%, somando 279 postulantes que antes eram apenas 205 para a vaga às assembleias estaduais e distritais.
Fora do eixo tradicional Sul-Sudeste, as novas fronteiras eleitorais ganharam força:
● Norte: liderou a expansão com um aumento de 141% (subindo de 22 para 53 candidatos).
● Centro-Oeste e Nordeste: registraram crescimentos de 88% e 82%, respectivamente.
● Sudeste: embora outras regiões tenham acelerado, a região ainda reúne a maior parcela do eleitorado do grupo, concentrando 31,3% do total de inscritos.
A pluralidade partidária também se consolidou: as candidaturas estão espalhadas por 27 das 30 legendas registradas no país.

O marco inédito nas urnas e a subnotificação oficial
O pleito de 2026 traz um marco institucional: pela primeira vez, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) incluiu a declaração voluntária de orientação sexual no formulário oficial de registro.
Nos dados do tribunal, pouco mais de 400 candidatos preencheram o campo. A diferença em relação aos levantamentos de entidades da sociedade civil, como o Instituto Plena Cidadania, expõe uma realidade delicada: muitos postulantes ainda optam por não formalizar a informação nos sistemas públicos por receio de sofrer discriminação, ataques ou violência política durante a campanha.
Segundo Gui Mohallem, membro da diretoria executiva do Instituto Plena Cidadania, relatou que a presença de candidatos LGBTQIA+ também se encontra mais distribuída pelo sistema partidário. De acordo com dados levantados em 2022, os candidatos se encontravam presentes em 23 das 32 legendas que disputaram as eleições naquele ano. Nas eleições deste ano, os candidatos se encontram nas 27 legendas dos 30 partidos que disputam vagas no Legislativo.
“O que a gente está vendo é que o maior aumento de candidaturas LGBT+ é justamente no Congresso Nacional. A eleição para deputado federal é extremamente importante para os partidos, porque ela determina o quanto de dinheiro ele vai ter. O financiamento do partido é determinado pela quantidade votos a deputados federais que ele consegue”, disse em entrevista cedida à Agência Brasil.
Ainda complementou dizendo que, “Os partidos estão vendo, o que já sabemos há muito tempo, que LGBT entrega mais por real investido. A nossa leitura dessa explosão é que finalmente os partidos estão entendendo que LGBT é uma força eleitoral”, afirmou.

Esse crescimento chama a atenção também para o investimento partidário nas campanhas, já que para entrar na competição é preciso recursos. Nas eleições municipais de 2024, as lideranças LGBT eleitas não receberam recursos dos partidos, que possuíam vínculos com partidos de centro e de direita, segundo dados levantados em um estudo realizado. Para candidatos eleitos de partidos de esquerda esse número foi de um quinto.
Barreiras estruturais persistem
Apesar do avanço nas estatísticas, especialistas alertam que a presença nas urnas não garante, por si só, uma disputa em igualdade de condições. Lideranças e analistas apontam três grandes gargalos:
● Invisibilidade nas propostas: Um levantamento da Agência Diadorim mostra que 51% dos planos de governo apresentados por candidatos a governadores e à Presidência simplesmente ignoram a população LGBTQIA+, sem incluir propostas para o segmento.
● Desigualdade financeira: Candidaturas de grupos historicamente marginalizados costumam receber parcelas menores dos recursos dos fundos partidário e eleitoral controlados pelas cúpulas das legendas.
● Hostilidade no debate público: Discursos de ódio e ameaças — tanto no ambiente virtual quanto nas ruas — continuam sendo um entrave direto para a segurança e a consolidação dessas trajetórias políticas.
“LGBT é um dos grupos a quem são negados a cidadania plena. A gente também é deficiente, mulher, favelado, negro. LGBT está em todos os lugares, então, quando a gente chega no poder, tem uma bagagem muito maior e pronta para responder às demandas da população”, afirmou.
O avanço pelas regiões do país
O crescimento da representatividade não ocorreu de forma homogênea, revelando um movimento marcante de descentralização. Historicamente concentradas nos grandes centros urbanos do Sudeste, as candidaturas da diversidade ganharam força expressiva em regiões onde o debate político costuma ser mais conservador.
A região Norte liderou a expansão com um salto de 141% em relação ao pleito anterior, seguida de perto pelo Centro-Oeste, que registrou alta de 88%. No entanto, o aumento de candidaturas LGBT + teve maior força no eixo Sul-sudeste. Analistas apontam que o fortalecimento de redes locais de direitos humanos e a organização de coletivos de base foram decisivos para impulsionar novos nomes fora dos eixos tradicionais de poder.
A Região Sudeste concentra o maior número de candidatos, mesmo com o recuo de 37.6% para 31.3%. Em números de candidaturas a Região Norte, cresceu de 22 para 53, a Centro-Oeste de 41 para 77, a Nordeste de 73 para 133 e a Sudeste permanece na frente com 161.
“A gente está fazendo muito mais ações e decidiu, há três anos, focar fora do Sudeste, onde já estava mais organizado”, acrescentou Gui, ao fazer destaque para a eleição de 2022, ao qual os candidatos LGBT+ conseguiram 3,5 milhões de votos no país.
Para as eleições deste ano, a grande diferença é que as candidaturas que antes estavam concentradas apenas no PT e PSOL, que ainda seguem sendo os partidos que mais concentram candidatos LGBTQIA+, este ano as candidaturas encontram-se espalhadas para outros partidos.
“A nossa presença na sociedade é inevitável. Está sendo interessante porque o aumento vai até os partidos de extrema direita”, contou, completando que os partidos é que fazem a declaração LGBT.

O funil do poder: a concentração no Legislativo
Apesar do salto quantitativo, o perfil das candidaturas expõe a permanência de barreiras estruturais para a ocupação do Poder Executivo. A quase totalidade dos nomes registrados disputa vagas no Poder Legislativo, com forte concentração nas câmaras estaduais e na Câmara dos Deputados.
Em contrapartida, a presença em chapas majoritárias — como disputas a Governos de Estado, ao Senado e à Presidência da República — permanece residual. Para especialistas em ciência política, o cenário evidencia que, embora haja maior abertura partidária para candidaturas proporcionais, o topo das decisões políticas do país ainda impõe filtros rigorosos para lideranças de grupos minoritários.
| Região | Crescimento vs. 2022 | Fator de Destaque |
| Norte | +141% | Articulação de redes comunitárias ativistas |
| Centro-Oeste | +88% | Interiorização do debate sobre direitos civis |
| Sudeste | +32% | Manutenção do maior volume bruto de registros |
Verba e segurança: os gargalos da campanha real
A viabilidade eleitoral dessas candidaturas enfrenta dois desafios centrais: o repasse de recursos financeiros e a garantia de integridade física e digital durante a campanha.
Sem uma cota financeira compulsória garantida por lei — a exemplo do que ocorre com candidaturas de mulheres e de pessoas negras —, a destinação de verbas do Fundo Partidário e do tempo de propaganda eleitoral para postulantes LGBT+ fica a critério das direções das legendas. A ausência de regras rígidas de distribuição orçamentária faz com que muitos candidatos enfrentem campanhas com infraestrutura reduzida.
Somado ao desafio financeiro, a segurança política desponta como preocupação central. O aumento da visibilidade traz acompanhado o risco de episódios de violência política de gênero e diversidade, que variam de ataques coordenados em redes sociais a ameaças diretas no trabalho de rua. Redes de apoio e coletivos independentes têm criado protocolos próprios de proteção e assessoria jurídica para resguardar a integridade dos postulantes durante todo o ciclo eleitoral.
Com propostas que ultrapassam a pauta identitária e abarcam debates centrais como desenvolvimento econômico, educação, meio ambiente e segurança pública, as 514 candidaturas LGBT+ chegam às urnas de 2026 com o desafio de converter a presença crescente em mandatos efetivos.
Fonte: Agência Brasil/Carta Capital/TV Cultura/CNN Brasil






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