Vinte e cinco anos após o ataque aos símbolos do poder americano, os desdobramentos geopolíticos, as guerras e a expansão do Estado de vigilância mostram que o mundo ainda vive sob a lógica do 11 de Setembro

Por Mateus Vieira

Belo Horizonte – MG, 11/09/2026

Uma explosão no céu de Nova York. Uma das Torres Gêmeas do World Trade Center arde em chamas no horizonte. A população assiste atônita, sem compreender inteiramente o que está acontecendo. Naqueles primeiros minutos, ainda não havia uma explicação clara. Um avião havia atingido uma das torres; bombeiros, policiais e equipes de emergência começaram a receber chamados em uma escala que rapidamente ultrapassa qualquer ocorrência anterior.

O World Trade Center era uma pequena cidade vertical dentro de Nova York. Em 2001, aproximadamente 50 mil pessoas trabalhavam no complexo, que também recebia dezenas de milhares de visitantes todos os dias. Naquela manhã, porém, a quantidade de pessoas era menor que a de um dia comum.

A Comissão do 11 de Setembro, com base em estimativas do National Institute of Standards and Technology (NIST), calcula que entre 16.400 e 18.800 civis estavam no complexo às 8h46, quando o primeiro avião atingiu a Torre Norte. O NIST estima que cerca de 8.900 pessoas estavam na própria Torre Norte pouco antes do impacto.

Nova York havia acabado de ultrapassar os oito milhões de habitantes. No Censo de 2000, a cidade registrava 8.008.278 moradores. No imaginário mundial, era — e continua sendo — um dos grandes símbolos do capitalismo, das finanças, da imigração e da vida urbana contemporânea. No coração de Lower Manhattan, Wall Street concentra parte importante desse poder econômico. O World Trade Center, por sua vez, havia se transformado em um dos marcos mais reconhecíveis da cidade e da globalização.

Às 8h46min30s, o céu claro daquela terça-feira foi rasgado pelo impacto de um Boeing 767. Cinco sequestradores haviam assumido o controle do voo 11 da American Airlines e o conduziram contra a face norte da Torre Norte. O avião levava 92 pessoas, incluindo os cinco sequestradores.

O impacto não foi apenas físico. Em poucos segundos, um dos maiores símbolos arquitetônicos e econômicos dos Estados Unidos havia sido transformado em uma coluna de fumaça e fogo. O século XXI ainda não completará nove meses.

Dezessete minutos depois, às 9h03, o voo 175 da United Airlines atingiu a Torre Sul. Dessa vez, milhões de pessoas já acompanhavam a situação pela televisão. As imagens transmitidas ao vivo transformaram uma tragédia que ainda parecia localizada em um acontecimento global. O segundo impacto eliminou qualquer possibilidade de que o primeiro avião pudesse ser tratado como um acidente.

A partir daquele momento, o mundo sabia que estava diante de um ataque.

Às 9h37, o voo 77 da American Airlines atingiu a face oeste do Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, em Arlington, na Virgínia. O terrorismo chegava ao centro do poder militar americano.

Às 10h03, o voo 93 da United Airlines caiu em um campo próximo a Shanksville, na Pensilvânia. Passageiros e tripulantes, depois de receberem informações por telefone sobre os ataques em Nova York e Washington, compreenderam que a aeronave provavelmente seria usada como arma. Tentaram retomar o controle do avião. A reação impediu que ele alcançasse seu provável alvo em Washington, mas terminou com a queda da aeronave e a morte das 40 pessoas a bordo, além dos quatro sequestradores.

Fonte: Reuters

Os quatro aviões haviam sido sequestrados por 19 homens associados à Al-Qaeda, organização jihadista transnacional liderada por Osama bin Laden. Eles não eram afegãos: 15 eram cidadãos da Arábia Saudita, dois dos Emirados Árabes Unidos, um do Líbano e um do Egito. A Al-Qaeda operava a partir do Afeganistão, onde mantinha campos de treinamento e encontrava proteção do regime Talibã.

A distinção é fundamental: Al-Qaeda e Talibã não eram a mesma organização. A primeira era uma rede jihadista transnacional, voltada para uma guerra que ultrapassava as fronteiras afegãs. O segundo era um movimento político e militar que controlava grande parte do Afeganistão. Havia entre eles uma relação de aliança, proteção e conveniência, mas também divergências. Foi essa relação que colocaria o território afegão no centro da resposta americana.

Ao final daquele dia, 2.977 pessoas haviam sido mortas nos ataques, sem contar os 19 sequestradores. Foram 2.753 vítimas associadas ao World Trade Center, 184 no ataque ao Pentágono e 40 no voo 93. Entre os mortos estavam pessoas de mais de 90 nacionalidades, fazendo do 11 de Setembro uma tragédia que, desde o primeiro momento, ultrapassou as fronteiras dos Estados Unidos.

Eram trabalhadores de escritórios, bombeiros, policiais, funcionários de restaurantes, seguranças, executivos, imigrantes, passageiros e visitantes. Pessoas que haviam saído de casa para trabalhar, viajar ou simplesmente atravessar uma das áreas mais movimentadas de Manhattan. 

Enquanto as torres ardiam e Lower Manhattan começava a ser tomada por poeira, fumaça, vidro e aço retorcido, a cerca de 1.700 quilômetros dali, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, estava em Emma E. Booker Elementary School, em Sarasota, na Flórida. Participava de uma atividade de leitura com uma turma de segundo ano quando recebeu a primeira informação sobre o ataque ao World Trade Center.

Às 9h05, poucos minutos depois do segundo impacto, o chefe de gabinete Andrew Card aproximou-se do presidente e sussurrou em seu ouvido. Anos depois, Card descreveu o momento: “A second plane hit the second Tower. America is under attack!” As câmeras registraram a reação de Bush. Ele permaneceu sentado diante das crianças enquanto os assessores e agentes de segurança começaram a reorganizar a resposta do governo. O livro utilizado na atividade era The Pet Goat, uma história infantil que os alunos liam em voz alta.

Bush permaneceu na sala durante aproximadamente sete minutos depois de receber a notícia, antes de deixar a escola. A cena se tornaria uma das imagens mais debatidas daquele dia. Para alguns, representava hesitação diante de uma crise sem precedentes; para outros, era uma tentativa de não provocar pânico enquanto informações ainda eram reunidas e sua equipe organizava a retirada. Pouco depois, Bush deixaria a escola.

A partir dali, o atentado deixaria de ser apenas uma tragédia em Nova York, Washington e Pensilvânia. Tornar-se-ia o acontecimento que redefiniu a política externa americana, alteraria protocolos de segurança, ampliaria poderes do Estado e inaugurou uma guerra cuja duração seria medida não em meses, mas em décadas. O dia 11 de setembro terminaria naquela noite. Suas consequências, não. 

O ataque como campo de disputa geopolítica

O 11 de Setembro poderia se restringir a um mero ataque terrorista. Mas de fato, foi um acontecimento que reconfigurou a geopolítica mundial. A partir dele, vieram novos modelos de guerras, novas doutrinas de segurança, redefinições de soberania e uma narrativa que atravessaria décadas: a chamada Guerra ao Terror.

O atentado foi possível, entre outros fatores, porque a Al-Qaeda encontrou no Afeganistão condições excepcionais para sua expansão: campos de treinamento, redes de combatentes estrangeiros e espaço para que sua liderança planejasse operações de alcance internacional. A organização havia transformado o território em uma base para treinamento e articulação de militantes de diferentes países.

O 11 de Setembro não foi planejado pelo Talibã. A Al-Qaeda é uma organização distinta, embora mantivesse uma relação estreita com o regime que controlava grande parte do Afeganistão. O Talibã oferecia a Bin Laden e à sua organização um ambiente de proteção e operação; em contrapartida, a Al-Qaeda mantinha vínculos financeiros, militares e políticos com o movimento afegão.

A Comissão do 11 de Setembro registra que o líder talibã Mullah Omar chegou a se opor a ataques contra os Estados Unidos. Isso não impediu, contudo, que Bin Laden mantivesse sua organização no país e conduzisse dali a preparação do atentado. Para Washington, a distinção entre quem planejou o ataque e quem oferecia abrigo não eliminava o problema político.

Fonte: Reuters

Desde o fim dos anos 1990, os Estados Unidos pressionavam o Talibã para que expulsasse ou entregasse Bin Laden. Houve sanções, negociações e tentativas de mediação, mas nenhuma delas rompeu a relação entre o regime e a Al-Qaeda.

Depois dos atentados, a questão mudou de escala. Já não se tratava apenas de encontrar os responsáveis. Era preciso decidir o que fazer com o território que lhes oferecia abrigo. Em outubro de 2001, os Estados Unidos iniciaram a invasão do Afeganistão. O regime Talibã seria retirado do poder, mas a guerra estava apenas começando. Duas décadas depois, os Estados Unidos deixariam o país e o Talibã voltaria a controlar Cabul em agosto de 2021, num ciclo autopoiético.

E nisso havia algo de paradoxal: o movimento que Washington havia retirado do poder em 2001 retornava ao governo duas décadas depois, enquanto a promessa original de impedir que o Afeganistão voltasse a servir como base para ataques internacionais permanecia como uma das questões centrais da política americana para a região.

Do Afeganistão ao Iraque: quando a Guerra ao Terror mudou de escala

A guerra no Afeganistão foi a primeira resposta militar direta dos Estados Unidos aos ataques de 11 de Setembro, e no Iraque seria diferente. Em 2002, o governo de George W. Bush passou a apresentar Saddam Hussein como uma ameaça à segurança internacional, sustentando que o regime iraquiano mantinha ou buscava desenvolver armas de destruição em massa e representava um risco diante do novo ambiente criado pelos atentados. Em outubro de 2002, o Congresso americano autorizou o uso das Forças Armadas contra o Iraque. A invasão começou em março de 2003.

A diferença entre as duas guerras é fundamental. No Afeganistão, a ligação entre a Al-Qaeda, Osama bin Laden e o território controlado pelo Talibã estava no centro da resposta americana. No Iraque, a relação com os ataques era muito mais controversa.

A Comissão do 11 de Setembro não encontrou evidências de que o governo iraquiano tivesse financiado os sequestradores ou participado do planejamento dos ataques, e também não encontrou evidências de que algum governo estrangeiro tivesse financiado o complô. A guerra do Iraque mostra, portanto, como o significado político do 11 de Setembro rapidamente ultrapassou a perseguição aos responsáveis pelos atentados.

O trauma produzido em setembro de 2001 ajudou a consolidar em Washington uma nova percepção de ameaça, na qual terrorismo, proliferação de armas e regimes considerados hostis passaram a ser enquadrados dentro de uma mesma lógica de segurança. O campo de batalha se ampliava cada vez mais. 

O inimigo já não era apenas uma organização clandestina. Poderia ser também um regime, um território ou uma capacidade militar considerada potencialmente perigosa. E hoje, em 2026 temos exemplos claros na política latinoamericana, como é o caso da Venezuela. É nesse deslocamento que o 11 de Setembro deixa de ser apenas a história de um ataque terrorista e passa a fazer parte da história de uma nova doutrina de poder americano.

O Estado de segurança

A resposta ao 11 de Setembro não aconteceu apenas no campo de batalha. Ela também transformou o próprio Estado americano. Em 26 de outubro de 2001, pouco mais de seis semanas depois dos atentados, George W. Bush sancionou o USA PATRIOT Act. A legislação ampliou instrumentos de investigação e coleta de informações utilizados pelo governo americano no combate ao terrorismo, alterando o equilíbrio entre segurança nacional, poder investigativo e proteção da privacidade.

Fonte: Reuters

A mudança não foi apenas jurídica. Criou uma nova arquitetura de segurança, no exterior, os Estados Unidos passaram a manter centros de detenção destinados a pessoas capturadas nas operações da Guerra ao Terror. Em janeiro de 2002, os primeiros prisioneiros chegaram à base naval de Guantánamo, Cuba. A prisão se transformaria em um dos símbolos mais controversos da política antiterrorista americana.

Ao longo dos anos, centenas de pessoas passaram por Guantánamo. A questão já não era apenas quem poderia ser capturado, mas quais direitos deveriam ser reconhecidos a alguém classificado pelo governo como combatente inimigo. Habeas corpus, interrogatórios, acusações de tortura e julgamentos militares transformaram a prisão em um dos principais campos de disputa entre segurança nacional e direitos fundamentais no período posterior aos atentados. Ao mesmo tempo, a Guerra ao Terror avançava para um território menos visível: o das comunicações.

Programas de vigilância ampliaram a capacidade do governo americano de coletar e analisar informações. Em 2013, as revelações de Edward Snowden colocaram essa estrutura no centro do debate público. Entre os programas revelados estava a coleta em massa de registros telefônicos associada à Seção 215 do Patriot Act. 

A discussão deixou de ser apenas sobre terroristas. Passou a envolver cidadãos comuns, dados pessoais, comunicações privadas e os limites do poder de um Estado em nome da segurança. Amplia-se o guarda-chuvas conceitual do que é terrorismo.  O ataque havia alterado não apenas quem os Estados Unidos consideravam seus inimigos. Havia alterado também aquilo que o Estado considerava necessário saber sobre seus próprios cidadãos.

O que permaneceu

Vinte e cinco anos depois, os efeitos do 11 de Setembro podem ser encontrados em lugares muito diferentes entre si. Estão nos aeroportos, onde procedimentos de segurança que pareciam extraordinários antes de 2001 se tornaram parte da rotina. Estão nas guerras do Afeganistão e do Iraque, nas sociedades que atravessaram duas décadas de conflito e nos milhões de pessoas deslocadas.

Estão em Guantánamo e nos tribunais que discutiram os limites do poder estatal. Estão nos sistemas de vigilância e na quantidade de informações que governos passaram a considerar relevantes para prevenir uma nova ameaça. Estão também no aumento da islamofobia e na associação, muitas vezes simplista, entre muçulmanos, imigração e terrorismo. E estão nos números. 

Segundo o projeto Costs of War, da Brown University, as guerras pós-11 de Setembro produziram cerca de 905 mil a 940 mil mortes diretas. Quando são incluídas as mortes indiretas — relacionadas à destruição de sistemas de saúde, infraestrutura, alimentação e condições de vida — a estimativa chega a aproximadamente 4,5 milhões a 4,7 milhões de mortes nos conflitos analisados.

O número não representa as pessoas mortas “pelo 11 de Setembro” em sentido direto. Representa uma estimativa do custo humano das guerras e consequências decorrentes das intervenções realizadas no contexto da Guerra ao Terror. É uma diferença importante. Porque a história não termina quando as estatísticas terminam.

O 11 de Setembro deixou de ser apenas uma data. Tornou-se uma referência para compreender as guerras do século XXI, a expansão dos aparatos de segurança, a transformação da política externa americana e os novos limites — e excessos — do poder estatal. Mas talvez seu legado mais profundo esteja em algo menos visível. Antes de 11 de setembro de 2001, segurança era uma preocupação. Depois dele, tornou-se uma lógica.

Entrou nos aeroportos, nas fronteiras, nos bancos de dados, nas guerras, nas leis e no modo como sociedades inteiras passaram a imaginar o perigo. Os edifícios caíram em poucas horas. As consequências levaram décadas para se erguer. E algumas ainda permanecem de pé.

Deixe um comentário