Além das campanhas do Setembro Amarelo, organizações precisam reavaliar rotinas para identificar o esgotamento antes do afastamento do colaborador
Por Redação
Campina Grande, PB – 21/09/2026
Durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e prevenção do suicídio, a discussão sobre saúde mental também ganha espaço no ambiente corporativo. Cansaço constante, dificuldade de concentração, irritabilidade , sensação de estar sempre atrasado e incapacidade de se desconectar do trabalho costumam ser tratados como parte da rotina profissional. O problema começa quando esses sinais deixam de ser pontuais e passam a fazer parte do dia a dia. Com o avanço das discussões sobre saúde mental e a atualização da NR-1, comportamentos antes normalizados começam a ser observados também como possíveis indicadores de riscos psicossociais relacionados à organização do trabalho.
Segundo o médico do trabalho Dr. Marco Aurélio Bussacarini, especialista em Medicina Ocupacional e CEO da Aventus Ocupacional, o principal desafio das organizações está em reconhecer os sinais antes que o trabalhador chegue ao limite. “O esgotamento raramente começa com um colapso. Antes disso, existem mudanças graduais no comportamento que muitas vezes são normalizadas. Quando cansaço, irritabilidade e dificuldade de concentração passam a ser vistos como parte da rotina, existe um sinal de alerta”, afirma.
Na rotina da sociedade de hoje, a cultura corporativa frequentemente se confunde à exaustão com esta comprometida com a empresa. O que acaba não dando a devida atenção para o burnout que é uma síndrome decorrente do estresse não gerenciado do ambiente de trabalho. Esse esgotamento se manifesta através de uma exaustão crônica, distanciamento e queda de produtividade; estes indícios não são reconhecidos pelas lideranças das empresas.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) o Burnout é reconhecido como um fenômeno ocupacional na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), caracterizado por três dimensões: exaustão, distanciamento mental do trabalho e redução da eficácia profissional.
O termo burnout vem de uma expressão em inglês que significa “consumir-se por completo” ou “queimar até a última ponta”. A ideia surgiu nos anos 1970 com o psicólogo Herbert Freudenberger, que usou essa imagem para descrever a exaustão profunda vivida por médicos, enfermeiros e cuidadores.
Com o passar dos anos, percebeu-se que esse limite não era exclusivo da área da saúde: a síndrome de burnout passou a reconhecer a dor de qualquer pessoa que enfrenta cobranças excessivas, ritmo frenético e estresse contínuo na rotina profissional.
No Brasil, o Ministério da Saúde apontou para um crescimento nos afastamentos de profissionais em decorrência de problemas relacionados à saúde mental, devido ao estresse no trabalho nos últimos anos, trazendo impacto direto na Previdência Social e nas empresas.
Conforme dados divulgados pelo INSS e analisados pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), as condições de saúde mental se consolidaram entre os maiores motivos de afastamento por auxílio-doença. As estatísticas revelam uma escalada expressiva nas concessões do benefício nos últimos anos.

Principais dados:
- 2023: 219.850 benefícios concedidos por questões de saúde mental.
- 2024: Salto para 367.909 licenças.
- 2025 (até novembro): 393.670 concessões — alta de 79% na comparação com todo o ano de 2023, mesmo sem a contabilização do mês de dezembro.
Nas questões financeiras, o impacto também tem sido elevado, apenas em 2025, o montante equivale a R$ 954 milhões. Trazendo de forma clara o reflexo do peso crescente dos transtornos mentais na previdência brasileira, embarcando tanto auxílio-doença quanto em aposentadorias por incapacidade, ao qual também inclui casos decorrentes de acidentes de trabalho e doenças profissionais.
Em 2023, o esgotamento profissional no Brasil atingiu um patamar recorde. Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), do Ministério da Previdência Social, 421 trabalhadores precisaram se afastar de suas funções devido à Síndrome de Burnout — o maior volume registrado na última década.
Esse avanço acelerado teve na pandemia um forte divisor de águas: entre 2019 e 2023, as licenças decorrentes do burnout dispararam 136%, saltando de 178 para as 421 concessões no ano passado.
Por trás desses indicadores está o estresse laboral crônico, muitas vezes impulsionado por cenários que escapam ao controle dos próprios colaboradores. A dinâmica do desgaste cotidiano é ilustrada por um estudo realizado em 2020 com 20 mil profissionais na Alemanha: 60% conviviam com a exigência de realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo, 48% enfrentavam forte pressão por tempo e resultados, 46% tinham sua rotina constantemente interrompida e 34% precisavam operar sob um ritmo acelerado de trabalho.
Isso mostra que os transtornos mentais não são mais casos que ocorrem de forma isolada, mas um problema estrutural que pressiona tanto o mercado de trabalho quanto às políticas públicas de saúde mental. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estima-se que para a economia global depressão e ansiedade custam cerca de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade.
Quanto às internações, há três modalidades, e de acordo com a legislação brasileira (Lei 10.216/2001), a internação pode ser:
- Voluntária – com consentimento do paciente
- Involuntária – sem consentimento, a pedido da família, com critérios técnicos
- Compulsória – por determinação judicial
Hiper disponibilidade não é sinônimo de engajamento
Um dos principais sinais que merecem atenção é a dificuldade de se desconectar do trabalho. Permanecer disponível fora do expediente, responder mensagens constantemente, acompanhar demandas durante períodos de descanso ou sentir culpa por não estar trabalhando podem indicar que o tempo necessário para recuperação física e mental está sendo comprometido. Outras mudanças também podem surgir de maneira progressiva, como aumento da irritabilidade, perda de iniciativa, dificuldade de concentração, sensação permanente de urgência e maior esforço para realizar tarefas que antes eram executadas com facilidade.
Isso não significa que todo período de pressão ou aumento de demanda representa necessariamente um risco à saúde. A diferença está, sobretudo, na frequência, na intensidade e na possibilidade de recuperação. “Existe uma diferença entre um período de maior demanda e uma rotina permanentemente marcada pela urgência. Quando a exceção se transforma em rotina e não há espaço suficiente para recuperação, é preciso olhar para a forma como o trabalho está organizado”, explica Bussacarini.
O desgaste também pode permanecer invisível porque nem sempre vem acompanhado de uma queda imediata de produtividade. Em algumas situações, o profissional continua cumprindo metas e entregando resultados, mas precisa mobilizar um esforço cada vez maior para manter o mesmo desempenho. A hiper disponibilidade, nesse contexto, pode ser interpretada como comprometimento ou alto engajamento, enquanto os sinais de esgotamento passam despercebidos.

O burnout não acontece de um dia para o outro; ele é um processo gradual que se desenvolve à medida que o estresse crônico no ambiente de trabalho não é gerenciado adequadamente. Mapear esse percurso em 5 fases ajuda a reconhecer os sinais de alerta antes que o esgotamento se torne grave:
- Fase da Lua de Mel: Marcada por alto entusiasmo, energia e forte compulsão para provar seu valor. A pessoa aceita demandas excessivas sem perceber o desgaste inicial.
- Início do Estresse: A energia diminui e surgem os primeiros sinais físicos e mentais, como cansaço frequente, ansiedade, falta de foco e queda na produtividade.
- Estresse Crônico: O estresse se torna a norma diária. Aparecem sentimentos de apatia, irritabilidade, atrasos constantes e sintomas físicos mais intensos, como dores ou alterações no sono.
- Fase do Burnout: Ocorre o colapso físico e emocional. A pessoa sente exaustão extrema, distanciamento afetivo, cinismo em relação ao trabalho e uma sensação incapacitante de impotência.
- Burnout Habitual: O esgotamento se consolida como parte do estilo de vida, podendo desencadear quadros sérios de depressão, ansiedade crônica e problemas de saúde graves que exigem intervenção médica e psicológica.
Fatores que desencadeiam ou agravam o Burnout
O esgotamento profissional raramente é fruto do acaso. Ele surge do desequilíbrio contínuo entre o indivíduo e o ambiente de trabalho, impulsionado principalmente por seis fatores centrais:
- Sobrecarga de trabalho: Demandas excessivas, prazos irrealistas e jornadas exaustivas que superam continuamente a capacidade de recuperação física e mental.
- Falta de controle: Pouca ou nenhuma autonomia sobre a própria rotina, tomada de decisões, ritmo ou prioridades do dia a dia.
- Reconhecimento insuficiente: Ausência de valorização — seja por remuneração inadequada, falta de apoio ou desconsideração do esforço investido.
- Ambiente de trabalho tóxico: Relações interpessoais desgastadas, marcadas por falta de apoio da equipe, comunicação falhar ou conflitos constantes.
- Injustiça e favoritismo: Tratamento desigual, falta de transparência nas decisões ou critérios arbitrários para avaliações e promoções.
- Conflito de valores: Incompatibilidade profunda entre as convicções pessoais do profissional e as práticas, metas ou éticas da organização.
Principais Fatores de Risco para o Burnout
O acúmulo prolongado de pressões no ambiente profissional é o principal gerador do esgotamento. Entre os fatores de risco mais importantes, destacam-se:
- Sobrecarga de responsabilidades: Assumir demandas acentuadas ou papéis além da capacidade do indivíduo, sem o suporte necessário para executá-los com segurança.
- Jornadas excessivas de trabalho: O hábito recorrente de realizar horas extras, que compromete o descanso adequado e impede a recuperação física e mental.
- Exposição contínua ao estresse: A convivência diária com altos níveis de pressão, prazos apertados e clima de tensão constante no ambiente profissional.
- Desequilíbrio entre vida pessoal e profissional: A dificuldade de desconectar-se do trabalho, permitindo que as exigências corporativas invadam os momentos de lazer, descanso e convivência familiar.

No contexto do Setembro Amarelo, identificar esses sinais precocemente ganha ainda mais importância, já que a campanha amplia o diálogo sobre saúde mental e pode ajudar as empresas a questionarem a normalização de comportamentos que, quando persistentes, indicam que algo pode não estar funcionando bem. Dependendo do caso, o esgotamento pode ser associado a:
- Episódios depressivos;
- Crises de ansiedade;
- Uso abusivo de álcool ou outras substâncias;
- Exaustão constante;
- Queda na eficiência no trabalho;
- Sentimento de fracasso e incompetência;
- Distanciamento emocional;
- Sintomas fisicos;
- Flutuações de humor;
- Dificuldade de concentração;
Quando há riscos à saúde física e mental, ideação suicida, incapacidade funcional ou descontrole comportamental, é necessário uma avaliação psiquiátrica com urgência. Para o RH, isso significa observar não apenas o indivíduo, mas também o contexto em que determinados comportamentos aparecem. Sobrecarga persistente, metas incompatíveis com os recursos disponíveis, baixa autonomia, conflitos, comunicação inadequada, jornadas extensas, falta de clareza sobre responsabilidades e ausência de apoio das lideranças podem contribuir para ambientes psicossocialmente desfavoráveis.
NR-1 amplia atenção aos sinais
A atualização da NR-1 reforça a necessidade de identificar e gerenciar fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Na prática, um dos desafios das organizações é diferenciar situações individuais e circunstanciais de problemas que podem estar relacionados à maneira como o trabalho está estruturado, distribuído e gerenciado.
Além da avaliação dos fatores psicossociais, indicadores organizacionais podem funcionar como sinais complementares de alerta. Aumento do absenteísmo, afastamentos, turnover, conflitos interpessoais, erros, retrabalho, acidentes, queixas recorrentes e alterações de produtividade podem ajudar a revelar padrões que merecem investigação.
Um caso isolado pode ter diferentes explicações. Quando os mesmos sinais começam a aparecer repetidamente em uma equipe, setor ou unidade, porém, a análise precisa avançar além das características individuais. “Se diferentes profissionais de uma mesma equipe apresentam os mesmos sinais, é preciso investigar o ambiente e a organização do trabalho, e não apenas responsabilizar individualmente cada trabalhador”, afirma Bussacarini.
Do Setembro Amarelo para uma cultura permanente de prevenção
Para além das ações pontuais promovidas durante o Setembro Amarelo, o especialista defende que a atenção à saúde mental precisa estar integrada à rotina das organizações. Palestras, campanhas e materiais educativos são importantes para ampliar a conscientização, mas não substituem a análise das condições concretas de trabalho.
A prevenção envolve combinar diferentes fontes de informação, como a escuta dos trabalhadores, a avaliação dos fatores de risco psicossociais, a análise de indicadores organizacionais, a atuação das lideranças e a participação das áreas de Saúde e Segurança do Trabalho. Mais do que identificar trabalhadores em sofrimento, o objetivo é compreender por que determinados sinais estão surgindo e se existem fatores relacionados ao trabalho contribuindo para esse cenário.
“Gerenciar riscos psicossociais significa reconhecer os sinais de alerta, identificar os fatores da organização do trabalho que podem estar contribuindo para o desgaste e agir preventivamente sobre aquilo que pode ser modificado”, concluiu Bussacarini.
Nesse contexto, o Setembro Amarelo pode cumprir um papel que vai além da conscientização. Para as empresas, a campanha também pode ser um convite para observar aquilo que, durante o restante do ano, corre o risco de ser confundido com normalidade.
O Burnout não se resolve com palestra isolada de “gestão do tempo”, antes de uma crise, o RH deve adotar medidas estruturais que incluem:
- Revisão de metas e carga de trabalho;
- Política clara contra assédio;
- Programas de saúde mental corporativa;
- Canal seguro para acolhimento.
“Identificar seus valores é a quarta etapa no processo de recuperação de um burnout, e é fundamental fazer isso, pois cada decisão que você tomar a partir daí precisa estar alinhada a esses valores”, explica.
Como tratar e superar o Burnout
A recuperação do Burnout exige uma abordagem integrada, focada em reestruturar a rotina de trabalho e restabelecer a saúde mental e física do indivíduo:
- Redução da sobrecarga no trabalho: Ajuste de demandas, definição de limites claros para a jornada profissional e reorganização de metas junto à liderança para criar um ambiente sustentável.
- Acompanhamento psicoterápico: Suporte profissional (como a Terapia Cognitivo-Comportamental) para desenvolver estratégias de enfrentamento do estresse, ressignificar crenças sobre o trabalho e prevenir recaídas.
- Pausas estratégicas e descanso: Descanso físico e mental efetivo, com momentos regulares de descompressão diária, boas noites de sono e, quando necessário, afastamento temporário do trabalho.
- Fortalecimento da rede de apoio: Busca por suporte emocional com familiares, amigos e colegas de confiança, combatendo o isolamento e criando espaços de escuta acolhedora
Ignorar o esgotamento profissional custa caro. Quando o burnout não recebe o cuidado devido, os impactos ultrapassam o cansaço cotidiano e afetam profundamente o corpo e a mente. No campo emocional, a síndrome pode abrir portas para quadros graves de ansiedade, depressão e até transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Fisicamente, o corpo também cobra a conta: insônia contínua, oscilações na pressão arterial, desconfortos gastrointestinais e um risco maior de complicações cardíacas passam a fazer parte da rotina.
Essa sobrecarga se reflete de forma direta no ambiente de trabalho. Sob exaustão extrema, mesmo os profissionais mais dedicados perdem a motivação, a concentração e a energia. O resultado é um ciclo doloroso: a qualidade das entregas despenca, o rendimento cai e o trabalhador passa a lidar com a frustração e a culpa, afetando tanto o seu bem-estar quanto os resultados da equipe.
Para frear esse avanço, o primeiro passo parte do próprio indivíduo. Desenvolver autoconhecimento e aprender a identificar os primeiros alertas de exaustão são atitudes fundamentais para impor limites antes que o corpo entre em colapso. Desenhar uma fronteira clara entre a vida profissional e a pessoal deixa de ser um luxo e passa a ser uma medida de preservação da saúde física e mental.
No entanto, a responsabilidade não pode recair apenas sobre o trabalhador. As empresas precisam encarar a alta nos diagnósticos como um alerta urgente para rever suas culturas internas. Ambientes de trabalho pautados pela pressão desmedida e pela competição predatória abrem espaço para o adoecimento. Por outro lado, organizações que acolhem as necessidades do indivíduo, respeitam jornadas saudáveis e incentivam a cooperação constroem um caminho sustentável, onde produtividade e saúde caminham juntas.
Fonte: BBC






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