​Especialista do IEEE detalha o uso de criptografia, chips exclusivos e o sistema operacional Uenux, garantindo agilidade, sigilo e máxima segurança ao voto

Por Redação 

Campina Grande, PB – 23/09/2026

Há 30 anos, o Brasil dava início a uma das maiores revoluções tecnológicas da administração pública: o uso da urna eletrônica. Desde então, avanços da engenharia — especialmente nas áreas da computação, telecomunicações e segurança da informação — transformaram profundamente o sistema eleitoral do país. O uso de hardware e sistemas operacionais criados especificamente para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tornou o processo de votação mais rápido, padronizado, acessível e seguro, diz Jéferson Campos Nobre, membro sênior do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE).

Comemorado no último dia 13 de maio, 2026 marca os 30 anos de uso das urnas eletrônicas nas eleições brasileiras. Foi no ano de 1996, que a urna foi usada oficialmente pela primeira vez, mudando a forma de votar e apurar os votos. Neste ano, apenas 30% dos brasileiros votaram usando as urnas eletrônicas, em 2000 a marca foi de 100% de eleitores votando pela urna eletrônica. Hoje o equipamento é referência internacional.

A urna eletrônica foi criada com o objetivo de substituir o voto impresso e reduzir fraudes eleitorais, a ação nasceu de um esforço conjunto entre a Justiça Eleitoral e os técnicos de instituições de referência em tecnologia, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e o então Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos.

Até o momento as urnas foram utilizadas em 15 eleições, se tornando peça fundamental na democracia brasileira, além de alvo de muitas discussões quanto a sua segurança. “Nós temos um dos sistemas eleitorais, graças às urnas eletrônicas, mais eficientes e mais rápidos do planeta. A democracia brasileira é uma das democracias mais admiradas do planeta, exatamente pelas urnas eletrônicas. Porque o Brasil foi pioneiro nisso. Quem critica as urnas eletrônicas é que tem saudade de um triste tempo. Um triste tempo em que o voto em cédula, esse sim, cambiava para a fraude”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues.

A ideia de transformar o voto em algo digital, começou a ganhar força no final dos anos 80, ganhando forma apenas em 1995, durante a gestão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Carlos Velloso. Surgindo em uma conversa informal em uma partida de tênis em Brasília.

Em reunião entre TSE e técnicos foi desenvolvido o projeto da urna eletrônica, que reuniu especialistas em informática, segurança, logística e processo eleitoral. A urna eletrônica foi um marco importante para o povo brasileiro; antes a apuração levava dias para terminar e era passível de sofrer Interferências, hoje a apuração é realizada em poucas horas.

Fonte: o globo

Embora seja um marco de inovação no país, a urna eletrônica continua no centro de um intenso debate nacional. Um levantamento do instituto Genial/Quaest, publicado em fevereiro, reflete essa divisão: enquanto 53% dos brasileiros declaram confiar no modelo atual de votação, 43% expressam algum grau de desconfiança.

O tema voltou a movimentar o Congresso e agora tramita na Comissão de Direitos Humanos do Senado uma proposta que defende a implementação do voto impresso. Ao comentar o cenário, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) avalia que o sentimento de insegurança de parte do eleitorado decorre, principalmente, do déficit de letramento digital no país e do impacto de episódios recentes de corrupção na confiança pública.

“Eu trabalho com o povo lá na região ribeirinha. E esse ano a dúvida vai ser maior por causa da fraude do INSS, que era tudo eletrônico. E eles disseram, “lá no eletrônico eles roubam mais”. Então, a gente vai ter questionamento, especialmente do povo, que não entende de tecnologia, a gente explicar porque pode confiar literalmente”, comentou a Senadora Damares Alves. 

“Muito além do equipamento utilizado nas seções eleitorais, a engenharia está presente em toda a estrutura do sistema brasileiro de votação: do desenvolvimento e da atualização contínua do hardware à criptografia dos dados, passando pelo armazenamento seguro, pela transmissão das informações e auditoria pública”, ressalta Nobre.

Para se ter uma ideia do nível de avanço tecnológico do sistema eleitoral brasileiro, as urnas eletrônicas do TSE utilizam um sistema operacional específico — o Uenux, baseado em Linux — que permite modernizações constantes, tornando o equipamento cada vez mais seguro. Esse sistema exclusivo suporta apenas o hardware exclusivo da urna, sem qualquer conexão com dispositivos de rede. 

O uso do voto eletrônico ao redor do mundo apresenta formatos e alcances diferentes do nosso, variando de acordo com a legislação eleitoral de cada país. Entre as nações que já recorreram ou recorrem a sistemas de votação eletrônica em diferentes níveis estão: Albânia, Argentina, Armênia, Austrália, Bangladesh, Bélgica, Butão, Brasil, Bulgária, Canadá, Coreia do Sul, El Salvador, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Estônia, Federação Russa, Fiji, Filipinas, França, Índia, Irã, Iraque, México, Mongólia, Nova Zelândia, Omã, Panamá, Paraguai, Peru, Quirguistão, República Democrática do Congo, República Dominicana, Suíça e Venezuela.

De acordo com o IDEA, 17 países utilizam o método de gravação direta nas urnas eletrônicas, seja em eleições gerais, presidenciais, parlamentares e referendos nacionais. O Brasil faz parte desse grupo, ao lado de nações como Índia, França, Peru e Paraguai, entre outras.

Não há terminal de comandos e nele estão incluídas somente aplicações utilizadas nas eleições organizadas pelo TSE. Todos os modelos de urna executam a mesma versão do Uenux. Além disso, o kernel — núcleo central do sistema operacional — inclui mecanismos de validação de assinatura digital de tudo o que é executado.

Em síntese, a urna eletrônica possui um chip físico de segurança singular que atua em conjunto com o sistema interno para criar chaves criptográficas capazes de impedir ataques ou fraudes. “A urna eletrônica brasileira é resultado da integração entre engenharia eletrônica, computação, telecomunicações e segurança da informação. Trata-se de uma tecnologia desenvolvida especificamente para o Tribunal Superior Eleitoral e constantemente atualizada”, diz Nobre. Assim, a engenharia proporciona uma cadeia de segurança robusta ao TSE.

Até o teclado da urna possui chip criptográfico e funciona apenas quando reconhecido pelo sistema oficial do TSE. O mesmo ocorre com o leitor biométrico e a impressora térmica utilizada durante a votação.

Outro ponto fundamental assegurado pela engenharia é o sigilo do voto. Os votos são armazenados de forma embaralhada, impedindo qualquer associação entre o eleitor e a escolha registrada. “O que é transmitido não são votos individuais, mas os totais consolidados do boletim de urna, somados automaticamente. Isso garante tanto a agilidade da apuração quanto a preservação do sigilo”, explica Nobre.

Além da operação das urnas, a engenharia também exerce papel fundamental na inspeção do código-fonte do TSE, auditoria obrigatória em que a Justiça Eleitoral abre todas as linhas de comando dos sistemas eleitorais e da urna eletrônica para averiguação por instituições externas.

“Essa verificação possibilita identificar vulnerabilidades, conferir mecanismos de criptografia e assinatura digital e assegurar que o software execute apenas as funções previstas”, comenta o especialista do IEEE.

Fonte: Poder 360

Desafios da era digital

Embora o sistema eleitoral brasileiro seja considerado seguro e amplamente auditado, o avanço acelerado das tecnologias digitais traz novos desafios, entre eles o uso crescente de deep fakes e campanhas de desinformação nas redes sociais.

Para Nobre, a disseminação de conteúdos manipulados por inteligência artificial tornou-se um dos principais riscos contemporâneos aos processos democráticos. “A velocidade de propagação nas mídias sociais e a dificuldade de identificar os responsáveis tornam esse cenário extremamente complexo. Por outro lado, a própria tecnologia também é uma aliada no combate à desinformação”, afirma. Segundo ele, ferramentas baseadas em inteligência artificial já conseguem detectar comportamentos suspeitos, identificar campanhas coordenadas e auxiliar equipes técnicas na resposta a incidentes cibernéticos.

“A rápida evolução tecnológica exige investimentos contínuos em cibersegurança, educação digital e ferramentas de verificação de informações”, conclui Nobre.

Sobre o IEEE

O IEEE é a maior organização profissional técnica do mundo dedicada ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade. Seus membros inspiram uma comunidade global a inovar para um futuro melhor por meio de seus mais de 420.000 membros em mais de 160 países. Suas publicações, conferências, padrões de tecnologia e atividades profissionais são recomendadas por diversos especialistas. O IEEE é a fonte confiável para informações de engenharia, computação e tecnologia em todo o mundo.

Fonte: Senado Federal/Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP)

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