​Uso de deep fakes em período eleitoral cresceu mais de 300%; confira dicas práticas de especialistas para identificar conteúdos manipulados e proteger a democracia

Por Redação 

Campina Grande, PB – 24/09/2026

O avanço da inteligência artificial generativa vem transformando a comunicação digital — inclusive no cenário político. Em ano eleitoral, especialistas alertam para o crescimento acelerado de conteúdos falsos produzidos com IA, como vídeos manipulados, áudios sintéticos e imagens hiper-realistas que podem influenciar a opinião pública, gerar desinformação e comprometer o debate democrático.

A inteligência artificial tem sido amplamente utilizada para vários segmentos, no entanto, vídeos falsos têm sido criados por IA com informações de baixa qualidade que vem substituindo as tradicionais fake news, tornando-se a principal ameaça do meio digital neste período eleitoral e a democracia brasileira. 

Nas eleições de 2018 a principal rede de disseminação de informações era o Facebook, nas eleições deste ano, o WhatsApp assume esta posição. Em estudos realizados por especialidades da CGI.br identificaram que disseminação das desinformações estão sendo distribuídos de forma simultâneas para diferentes plataformas. 

“Em termos de formato, o vídeo passou a ser o principal vetor, quase sempre acompanhado de um texto curto que ancora e legitima a narrativa falsa”, aponta o documento.

Em 2025, a desinformação passou a ser considerada um dos maiores riscos a democracia global, segundo instituições como o Fórum Econômico Mundial. Diante do atual cenário, e a centralidade da Internet, tornou-se um elemento muito importante para as disputas democráticas.

Nas eleições de 2022, a inteligência artificial generativa estreou no ciclo eleitoral, nas eleições deste ano, espera-se que seu impacto seja ainda maior. “Hoje, as plataformas digitais ocupam um lugar central na forma como os brasileiros se informam sobre o que acontece no mundo, no país e nas cidades onde vivem”, diz a coordenadora do CGI.br, Renata Mielli.

Fonte: Imagem de pvproductions no Magnific

Um alerta para os eleitores, é que devido ao aprimoramento das IAs com a produção de conteúdos cada vez mais fidedigno ao real, tem tido um potencial de enganar até mesmo quem seja experiente no assunto. Conteúdos assim, podem gerar uma desconfiança generalizada em instituições sérias sobre qualquer tipo de informação, por mais que seja verdadeira. 

“A perda de confiança em instituições como a imprensa e o Judiciário, somada à polarização política, também contribuem para esse cenário, fazendo com que convicções pessoais se sobreponham à verificação dos fatos”, alerta o Guia.

Dados divulgados pelo Agência Lupa, agência de notícias especializada no combate à desinformação, mostram que os conteúdos falsos criados com inteligência artificial mais que triplicaram no Brasil entre 2024 e 2025. Os casos envolvendo deep fakes e outras peças manipuladas por IA passaram de 39 ocorrências em 2024 para 159 em 2025, representando um aumento de 308%. O estudo também aponta que quase 45% dos conteúdos gerados com IA tinham viés ideológico ou político.

​O raio-x da desinformação mostra ainda um alvo muito claro. Quase 45% dessas publicações tinham motivação político-ideológica e mais de 75% usavam a voz ou a imagem de personalidades conhecidas, com foco em lideranças públicas. Para complicar esse cenário, essas manipulações digitais não estão restritas a um único canal; elas se espalham de forma pulverizada por diversas redes e aplicativos, tornando a missão de filtrar a verdade no meio da avalanche de dados um desafio cada vez maior para o cidadão.

Para especialistas da Dataside, empresa especializada em inteligência artificial e com reconhecimento nacional neste mercado, o cenário exige uma combinação entre educação digital, verificação de informações e uso responsável da tecnologia. 

“Hoje, a IA consegue reproduzir voz, expressão facial e até padrões de comportamento com um nível de realismo que dificulta a identificação imediata de manipulações. Em períodos eleitorais, isso pode ser usado para disseminar informações falsas em larga escala e afetar diretamente a percepção pública”, afirma Oscar Meyer, Arquiteto de Soluções da Dataside.

O impacto vai além das redes sociais: conteúdos manipulados podem afetar campanhas, aumentar a polarização e gerar crises reputacionais em poucas horas, especialmente em aplicativos de mensagens e plataformas de vídeo curto. O problema não está apenas na existência da tecnologia, mas na velocidade de disseminação. Muitas vezes, o conteúdo falso viraliza antes mesmo de ser desmentido oficialmente.

Entre as principais ameaças identificadas estão vídeos de candidatos aparentemente fazendo declarações falsas, áudios manipulados e imagens geradas artificialmente para criar contextos inexistentes.

Fonte: Imagem de magnific

Como identificar conteúdos falsos feitos com IA

A Dataside reuniu algumas orientações para ajudar a população a reconhecer possíveis deep fakes e evitar a propagação de desinformação durante o período eleitoral:

  • Desconfie de conteúdos muito apelativos ou alarmistas: mensagens que estimulam reação imediata costumam ser usadas para viralização rápida;
  • Observe detalhes visuais: movimentos labiais artificiais, piscadas incomuns, distorções em mãos e sombras podem indicar manipulação;
  • Cheque a fonte original: verifique se o conteúdo foi publicado por veículos oficiais, canais verificados ou perfis autênticos;
  • Pesquise em mais de uma plataforma: informações relevantes geralmente aparecem em diferentes fontes confiáveis;
  • Utilize ferramentas de verificação: plataformas de fact-checking e pesquisa reversa de imagens ajudam a identificar montagens;
  • Evite compartilhar imediatamente: mesmo que o conteúdo pareça verdadeiro, a recomendação é confirmar antes de repassar.

Para a Dataside, o avanço da IA também exige adaptação das empresas, governos e plataformas digitais. A expectativa é de que ferramentas de detecção automatizada e autenticação de conteúdo ganham protagonismo nos próximos ciclos eleitorais.

“Precisamos desenvolver uma cultura de pensamento crítico digital. A IA é uma ferramenta poderosa e pode trazer inúmeros benefícios, mas também amplia a sofisticação da desinformação. O eleitor precisará estar cada vez mais preparado para diferenciar informação legítima de manipulação”, concluiu Oscar.

A eleição invisível: Como o Gerrymandering Digital e a IA ameaçam a democracia

As disputas eleitorais contemporâneas deixaram de ocorrer prioritariamente no espaço físico das ruas, comícios e panfletos para se concentrarem no território cognitivo e emocional dos eleitores. A grande disputa política atual se desenrola na infraestrutura das plataformas digitais, onde algoritmos e inteligência artificial operam o que se pode definir como gerrymandering digital. Ao contrário da prática tradicional que redesenha os limites geográficos dos distritos no mapa, essa técnica reorganiza a população a partir de seus perfis psicológicos e comportamentais. 

Por meio dos rastros deixados no uso diário das redes, as plataformas identificam os gatilhos emocionais de cada indivíduo e os agrupam em distritos mentais invisíveis — como o distrito do medo, da fé ou da indignação moral —, alimentando-os continuamente com narrativas sob medida para manter determinado estado afetivo ativado e, com isso, direcionar percepções políticas.

Essa engenharia comportamental atua diretamente sobre as vulnerabilidades da mente humana, explorando mecanismos como o viés de confirmação e a busca por respostas baseadas na afetividade imediata. Com a consolidação da inteligência artificial generativa e de modelos preditivos mais precisos, o alcance dessa manipulação ganha uma escala inédita ao permitir uma nano segmentação, na qual mensagens, áudios e vídeos sintéticos podem ser direcionados para as fragilidades específicas de cada indivíduo. 

E as eleições de 2026, estão sendo regidas por um patamar inédito de manipulação comportamental e um clima de tensões dentro e fora do Brasil. A radicalização também será algo que virá com bastante intensidade e rigidez. Pontos esses que deixam a extrema direita global bastante interessada. 

O atual momento vivido pelo Brasil, acaba por deixar sob olhares do mundo como sendo um laboratório geopolítico, e as eleições deste ano, é um experimento sobre fortes riscos. Como isso, a arquitetura que media a democracia brasileira não as pertence, mostrando que o país possui uma fragilidade estrutural séria.

Diante desse cenário, a manipulação comportamental paga e automatizada deixa de ser um mero debate sobre desinformação para se configurar como um novo tipo de crime eleitoral. Pagar para alterar a base cognitiva e a percepção da realidade do eleitorado destrói a igualdade de condições entre os candidatos, fere a autonomia do voto e expõe o país a interferências opacas e transnacionais. 

Para proteger a integridade democrática, torna-se indispensável que a Justiça Eleitoral coíba o microtargeting direcionado a dados sensíveis, que o Poder Legislativo estabeleça regras claras de transparência e auditoria sobre as plataformas digitais, e que o Estado trate a soberania informacional como pauta estratégica de segurança nacional e de conscientização cidadã.

Fonte: Correio do Povo

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