Com canal de escuta confidencial ativo há mais de um ano, Colégio Anchieta fortalece rede de apoio, acolhimento e prevenção ao sofrimento emocional
Por Redação
Campina Grande, PB – 25/09/2026
O cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes também passa pela qualidade das relações que eles constroem na escola e pela segurança que encontram para pedir ajuda quando alguma coisa não vai bem. Durante o Setembro Amarelo, esse debate ganha ainda mais espaço e reforça uma responsabilidade que não pode ficar restrita a um mês do calendário: criar ambientes em que os estudantes se sintam ouvidos, protegidos e amparados por adultos de referência.
O ato de transformar relatos de bullying em ações contínuas de cuidados durante todo o Setembro Amarelo, é muito importante para proteger a saúde mental de crianças e adolescentes com o intuito de prevenir situações extremas que possam causar sofrimento emocional.
O Setembro Amarelo é uma campanha nacional de prevenção ao suicídio e valorização da vida, que foi criada em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), em parceria com o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria.
O nome é remetido ao laço amarelo, que é o símbolo internacional de apoio a quem está enfrentando algum tipo de sofrimento psicoemocional. O mês de setembro foi escolhido para a campanha por que no dia 10 é celebrado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
O Centro de Valorização da Vida (CVV), se encontra em atividade desde 1962, e possui o reconhecimento de entidade de utilidade pública Federal, ao qual oferece apoio emocional de forma gratuita, sigilosa e voluntária 24 horas por dia, através do número 188, chat e e-mail. Sendo uma referência segura para qualquer instituição que precise indicar para toda a comunidade escolar servindo de canal de apoio para fora do ambiente acadêmico. Além disso, a pessoa também pode procurar por ajuda na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Serviços de Urgência e Emergência.
O avanço dos números da saúde pública volta a colocar o suicídio no centro do debate sobre o bem-estar social. Em todo o mundo, mais de 720 mil vidas são perdidas anualmente para essa realidade, que já se consolidou como a terceira causa de morte mais frequente entre jovens de 15 a 29 anos, segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS).
No cenário nacional, o problema guarda contornos igualmente delicados. Dados de 2023 mostram que o Brasil registrou 17.009 casos, o que representa um índice de 8,6 mortes a cada 100 mil pessoas. O indicador aponta um crescimento de 9,7% na comparação com 2021, ano em que foram contabilizadas 15.507 ocorrências.

O impacto entre a população mais jovem traz ainda mais preocupação. Uma análise feita por pesquisadores da Fiocruz Bahia em parceria com a Universidade de Harvard revelou que, entre 2011 e 2022, a taxa de suicídio nessa faixa etária subiu a um ritmo médio de 6% ao ano. No mesmo intervalo, os registros de autolesão entre pessoas de 10 a 24 anos avançaram, em média, 29% a cada ano.
A escola é um ambiente que dá toda a assistência para todos que fazem parte da comunidade escolar, porém, deve-se ter ciência de que a escola não substitui o tratamento psicológico e psiquiátrico. Visto que exige um conhecimento técnico que não deve cair nas questões pedagógicas. O papel da escola é acolher, observar e encaminhar.
Ter as atribuições divididas traz proteção à escola para que não caia em armadilhas e evitar que assuma responsabilidades para a qual não foi preparada. Para isso, existe um amplo espaço de atuação pedagógica, e é neste espaço que o Setembro Amarelo faz a diferença de modo significativo.
No Colégio Anchieta, em Salvador, um canal específico para relatos relacionados a bullying está em funcionamento desde julho de 2025. A iniciativa permite que vítimas e testemunhas comuniquem situações de intimidação física, verbal, psicológica ou virtual de maneira anônima e confidencial. Cada relato recebido segue um fluxo interno de análise, acolhimento e encaminhamento, com participação de uma equipe preparada para avaliar a situação e acompanhar os envolvidos.
O canal tem ajudado a escola a compreender melhor as relações entre os estudantes. Os relatos permitem identificar situações recorrentes, rever procedimentos e pensar em ações educativas e preventivas adequadas às diferentes idades e contextos. Para Klecius Oliveira, diretor de ensino do Colégio Anchieta, a existência de um espaço de escuta aproxima a escola dos estudantes, mas o trabalho não termina quando o relato chega.
“Quando um estudante sabe que pode falar e que será levado a sério, ele entende que não precisa enfrentar sozinho uma situação de violência. O canal é uma porta de entrada. O que realmente importa é o que fazemos depois: acolher, compreender o contexto, agir com responsabilidade e acompanhar cada situação”, pontua.
Esse cuidado também exige atenção para não tratar da mesma forma situações diferentes. Nem todo conflito entre estudantes é bullying. A caracterização depende da análise do contexto e pode envolver elementos como repetição ou continuidade das agressões, desequilíbrio de poder e práticas de intimidação, humilhação ou exclusão. Fazer essa distinção é importante tanto para não minimizar situações graves quanto para evitar classificações precipitadas.
A preparação dos profissionais que convivem diariamente com os estudantes é outra parte desse processo. Mudanças de comportamento, isolamento, queda no rendimento ou alterações nas relações sociais podem indicar que alguma coisa precisa de atenção, mesmo quando não há um pedido explícito de ajuda.
“Um canal de escuta só faz sentido quando o estudante confia que haverá um adulto preparado do outro lado. Por isso, nosso compromisso não termina no recebimento do relato. Ele começa ali. Professores, coordenadores, orientadores e demais profissionais precisam saber acolher, avaliar cada situação com responsabilidade, agir quando necessário e acompanhar o estudante ao longo do processo”, afirma Klecius.
Os relatos também ajudam a escola a trabalhar de forma preventiva. Quando determinadas situações começam a aparecer com frequência, é possível desenvolver ações de convivência, rever práticas e trabalhar com os estudantes temas como respeito, empatia, responsabilidade e cuidado com o outro.
É nesse ponto que a discussão se aproxima do Setembro Amarelo. Sem estabelecer relações simplistas de causa e efeito, a escola reconhece que experiências de violência, exclusão e isolamento podem afetar o bem-estar de crianças e adolescentes e, por isso, precisam ser identificadas e acompanhadas.
A Organização Mundial da Saúde estima que um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos convive com algum transtorno mental, o que reforça a importância de redes de apoio capazes de perceber sinais de sofrimento e oferecer ajuda.
“Prevenção não pode acontecer apenas em momentos específicos do calendário. Ela precisa estar presente no cotidiano, nas relações, na forma como a escola escuta seus estudantes e na maneira como intervém diante de uma situação de violência. Quando conseguimos transformar um relato em acolhimento e, a partir dele, em uma ação preventiva, estamos fortalecendo toda a comunidade escolar”, conclui o diretor de ensino.
Depois de mais de um ano de funcionamento, a experiência do Colégio Anchieta reforça uma ideia simples: escutar é apenas o começo. Uma escola segura não é aquela em que conflitos nunca acontecem, mas aquela em que o estudante sabe que pode falar e confia que os adultos irão agir. Transformar essa confiança em cuidado, acompanhamento e prevenção é um trabalho permanente.
Como o bullying afeta a saúde mental e como a comunidade escolar pode agir
O impacto do bullying no ambiente escolar vai muito além de um simples desentendimento da infância ou juventude. Trata-se de uma violência que deixa marcas profundas e exige atenção contínua e humanizada de pais, educadores e da sociedade.

O impacto psicológico das agressões
Quando um estudante se torna alvo recorrente de humilhações, violência física ou ataques no ambiente virtual, as consequências emocionais costumam surgir rapidamente. O convívio com o medo gera um estado constante de ansiedade, retira o sentimento de pertencimento e mergulha a vítima em um isolamento silencioso. Diante do desespero e da falta de perspectiva, esse sofrimento não raramente evolui para um quadro grave de ideação suicida.
Para evitar que a dor chegue a esse ponto, a escola precisa se consolidar como um porto seguro. A criação de um espaço de escuta empática é fundamental para que os alunos se sintam acolhidos e consigam romper o silêncio sem o receio de serem ridicularizados ou desacreditados.
Estar atento aos pequenos detalhes no dia a dia também faz a diferença.
Alterações repentinas no humor, queda injustificada no rendimento acadêmico e o afastamento dos grupos de amigos não devem ser encarados como simples “fases do crescimento”. Esses comportamentos são alertas silenciosos de que o jovem precisa de ajuda especializada imediata.
Caminhos práticos para construir uma rede de proteção contínua
Combater o bullying não é uma tarefa pontual, mas um compromisso permanente. Para transformar a cultura escolar em um espaço verdadeiramente acolhedor, algumas medidas essenciais podem ser adotadas:
- Canais de denúncia protegidos: Garantir meios seguros e confidenciais para que estudantes e funcionários possam relatar episódios de violência sem o medo de retaliações.
- Aliança entre família e escola: Manter um diálogo aberto e frequente com os pais e responsáveis, fortalecendo a rede de apoio que acompanha o jovem tanto na sala de aula quanto em casa.
- Preparo pedagógico e acolhimento especializado: Capacitar professores e funcionários para identificar precocemente os sinais de sofrimento e encaminhar os casos mais delicados aos profissionais de saúde mental.
Na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental
As crianças pequenas raramente conseguem expressar em palavras o que estão sentindo, por isso o sofrimento costuma se manifestar de outras formas, tais como:
- Choro sem um motivo evidente;
- Retorno a comportamentos que já haviam sido superados;
- Dores frequentes de cabeça ou de barriga, sem qualquer causa médica;
- Recusa em ir à escola ou atitudes agressivas e repentinas com os colegas.
Nessa fase, o olhar atento do dia a dia — algo que já faz parte da rotina na Educação Infantil e nos primeiros anos do Fundamental — é a ferramenta mais valiosa para notar essas transformações. É importante lembrar que nem toda mudança de atitude significa um sofrimento profundo, contudo, qualquer alteração que se prolongue no tempo exige um diálogo cuidadoso e afetuoso com a família.
No Ensino Fundamental II: entre a pré-adolescência e a adolescência
A partir dos 10 ou 11 anos, os sinais começam a se aproximar daqueles observados nos adultos, podendo incluir:
- Tendência ao isolamento e ao afastamento social;
- Queda no desempenho escolar;
- Irritabilidade constante;
- Alterações bruscas na rotina de sono ou de alimentação.
Essa também é uma etapa em que o bullying e o cyberbullying se tornam fatores de risco mais frequentes. Por isso, quando um jovem expressa a sensação de não pertencer ao grupo, é essencial oferecer uma escuta empática, em vez de recorrer apenas a medidas disciplinares. Além disso, o uso excessivo das redes sociais pode intensificar comparações e inseguranças comuns da idade, o que reforça a necessidade de ter um adulto de referência por perto, sempre pronto para conversar.
No Ensino Médio: sob a pressão da reta final da vida escolar
Durante o Ensino Médio, a cobrança por resultados se soma às transformações naturais da adolescência. Vale a pena prestar atenção a sinais como:
- Falta de motivação contínua para realizar atividades que antes traziam prazer;
- Falas marcadas pelo desânimo em relação ao futuro;
- Sinais de autolesão;
- Consumo de álcool ou de outras substâncias;
- Expressões diretas de que não consegue mais suportar a situação;
- Expressões de dor emocional profunda: Falas que demonstram desespero, sensação de desamparo ou a intenção explícita de pôr fim à própria vida;
- Retração e isolamento: Distanciamento repentino do convívio social, manifestado pelo afastamento de amigos, familiares e de hábitos que antes traziam alegria;
- Alterações de rotina e autocuidado: Mudanças severas nos padrões de sono e alimentação, perda expressiva de rendimento nos estudos ou descuido visível com a própria imagem;
- Atitudes de encerramento: Mensagens, conversas ou gestos incomuns de despedida, além do desapego repentino de pertences de valor sentimental ou financeiro.
Entenda os principais fatores de risco
- Saúde mental e o peso dos transtornos: Condições como depressão, transtorno bipolar e alterações de personalidade elevam significativamente a vulnerabilidade — sobretudo quando os quadros não são diagnosticados a tempo ou carecem de acompanhamento médico adequado.
- Histórico de tentativas anteriores: Ter vivenciado um episódio prévio é um dos alertas mais decisivos. Essa condição exige vigilância constante, acolhimento contínuo e suporte profissional especializado.
- Impacto das substâncias: O consumo de álcool e outras drogas compromete a capacidade de julgamento, estimula atitudes impulsivas e tende a aprofundar momentos de dor e sofrimento emocional.
- Marcas do isolamento e da violência: Vivências como bullying, cyberbullying, agressões físicas ou sexuais, além de episódios de discriminação, conflitos familiares e a ausência de uma rede de apoio sólida, fragilizam as defesas emocionais do indivíduo.
- Facilidade de acesso a meios letais: A presença ou a facilidade em obter meios potencialmente fatais atua como um fator direto de risco, intensificando situações de crise.
De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 96.8% das mortes por suicídio tem relação com essas condições. Alunos que sofrem com agressões (físicas, emocionais ou virtuais) podem desenvolver sentimentos de desespero, ansiedade e depressão, fatores estes que, em casos extremos, levam a pensamentos suicidas e em muitos dos casos a concretização do ato.
Nenhum desses sinais deve ser visto como um diagnóstico definitivo quando analisado de forma isolada, porém, em conjunto, eles sinalizam a necessidade urgente de diálogo e, quando preciso, de um encaminhamento especializado. A proximidade do vestibular costuma acentuar a ansiedade, e reconhecer esse peso é parte fundamental do cuidado com o estudante, ajudando-o a aprender a lidar com a pressão de maneira mais equilibrada e saudável.
Um único sinal de alerta já é o suficiente para dar o primeiro passo. E a escola tem um papel muito importante para garantir a segurança no depois de seguir todo o fluxo de apoio ao estudante. Isso deve ser abordado durante todo o ano, incluindo a escuta ativa na rotina da escola.
Segundo a Especialista em Direito e Gestão Educacional do Barcellos Tucunduva Advogados (BTLAW), Ana Claudia Ferreira Júlio, sete práticas fundamentais, podem ser implementadas nas escolas para ajudar na prevenção do bullying entre os alunos:
- Política Escolar;
- Treinar professores para reconhecer sinais de alerta;
- Criação de equipe multidisciplinar;
- Comunicação com pais ou responsáveis;
- Desenvolver programas de conscientização;
- Procedimentos em casos de bullying;
- Fomentar rede de apoio entre pares.
Fonte: Instituto Ame sua saúde





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