Com 74 mil pacientes na fila de espera, ABTO alerta para a importância do diálogo em vida, em meio à rejeição de doações por quase metade das famílias

Por Redação

Campina Grande, PB – 26/09/2026

A campanha Setembro Verde promove, ao longo de todo o mês, a conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos e busca mobilizar a sociedade para a necessidade de ampliar o número de doadores no Brasil. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), 45% das famílias recusaram a doação após o diagnóstico de morte encefálica de um ente querido, tornando a recusa familiar um dos principais desafios para ampliar a oferta de órgãos e reduzir as filas por transplantes Apesar desse obstáculo, o Brasil registrou 4.335 doadores efetivos em 2025, o maior número da última década, e 27.725 procedimentos, embora a fila de espera supere os 49 mil pacientes. Os transplantes de córnea e renais lideraram o volume de procedimentos, seguidos pelos transplantes de fígado, coração, pâncreas e pulmão. O mês ganha um maior destaque devido ao dia 27 de setembro ser celebrado o Dia Nacional de Doação de Órgãos, reforçando a importância de se falar sobre o assunto.

“Um único doador pode transformar a vida de até oito pessoas que aguardam por um transplante, além de beneficiar outras por meio da doação de tecidos. O Brasil tem o maior programa público de transplantes do mundo, e o Sistema Nacional de Transplantes é uma das políticas públicas mais bem-sucedidas do país, mas precisamos avançar na conscientização das famílias, porque informação e diálogo podem fazer a diferença em um momento de dor e permitir que uma decisão se transforme em oportunidade de vida para outras pessoas”, destaca a Tainá de Sandes, presidenta da ABTO.

Apesar do avanço no número de transplantes, a lista de espera ainda reúne cerca de 74 mil pessoas no Brasil, que aguardam por um órgão para seguir com o tratamento. O desafio para reduzir a fila de espera permanece latente. A grande maioria concentra-se na espera por um transplante de rim e córnea, seguidos por pacientes que aguardam por fígado, coração, pulmão e pâncreas.

No Brasil, não é necessário realizar cadastro, registrar a decisão em cartório ou portar qualquer documento específico para ser doador de órgãos. O mais importante é conversar em vida com familiares, como pais, irmãos e cônjuge, e deixar claro o desejo de doar, já que a autorização da família é obrigatória para que a doação seja efetivada. A decisão da família precisa ser rápida, já que entre o óbito e a retirada do órgão precisa ocorrer em menos de 12 horas.

No Brasil, a retirada de órgãos após o falecimento depende exclusivamente da autorização da família de até segundo grau, independente se o paciente deixou autorizado por escrito a sua vontade de doar. Caso o paciente espresse esse desejo de doar, é importante que converse com os familiares; conversar sobre este assunto aumenta as chances da doação ser atendida.

“A chance de uma pessoa precisar de um transplante é cinco vezes maior do que a possibilidade de se tornar um doador. Por isso, é importante conversar com a família e deixar claro esse desejo. No momento da decisão é ela quem poderá autorizar a doação”, explica Bonvento. O médico ainda reforça que o Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo e que a conversa sobre a doação é muito importante.

A ampliação do número de transplantes além da autorização da família, depende da identificação dos potenciais doadores, da existência de uma equipe, estruturas adequadas, e da agilidade do transporte do órgão.

Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), 49.489 pessoas esperam por algum tipo de transplante no Brasil. A maioria espera por um transplante de rim, seguidos de fígado, coração, pâncreas e rim, pulmão, pâncreas e multivisceral.

Em 2025, o Brasil registrou um marco histórico na realização de 31 mil transplantes de órgãos, o maior já registrado no país. Entre os transplantes realizados, o de córnea liderou as estatísticas com 17 mil procedimentos.

Os números refletem a recuperação após os impactos causados pela pandemia de covid-19, além dos investimentos feitos na última década para garantir a captação de órgãos, preparação de equipes e aprimoramento da logística de distribuição dos órgãos para todo o país. Mesmo com todos os avanços, problemas antigos ainda persistem.

De acordo com o professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e líder do Núcleo de Pesquisa em Fisiopatologia Ocular, Eduardo Melani Rocha, a pandemia provocou uma interrupção quase completa dos transplantes de córnea no País.

“Nos anos da pandemia, principalmente em 2020, o número de doações, e consequentemente de transplantes de córnea, foi reduzido a quase zero. Havia o desconhecimento inicial sobre a possibilidade de transmissão da covid-19 para pacientes receptores e também para as equipes de saúde”, afirmou o professor.

Muitas pessoas acreditam que a fila para transplante funciona da seguinte forma: chegou primeiro será realizado o transplante, não é bem assim que funciona. A distribuição dos órgãos de pessoas falecidas segue regras do Sistema Nacional de Transplantes, com a atuação das centrais de transplantes e também de critérios específicos de cada órgão.

“O sistema brasileiro de transplantes é extremamente ativo. Ele conta com profissionais e equipes que trabalham 24 horas por dia, garantindo assistência e apoio logístico para que os transplantes aconteçam”, afirmou o médico intensivista e coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO), complexo do Hospital das Clínicas da FMRP (HCFMRP-USP), Marcelo Bonvento, ao falar sobre o bom desempenho histórico de transplantes em 2025.

A inscrição do paciente é realizada pela equipe médica autorizada. No momento que surge um doador, a seleção faz a consideração de alguns fatores como: compatibilidade, gravidade, urgência e tempo de espera, seguindo regras aplicáveis.

O grau de prioridade vai depender de acordo com a condição clínica do paciente e as características do órgão disponível. O acompanhamento de todo o processo pode ser pelos pacientes nos canais oficiais, ao qual o paciente também pode ver como vai a sua situação. “O grau de gravidade de cada paciente determina sua ordem na lista de transplante hepático”, explica Patrícia.

SETEMBRO VERDE

Realizada anualmente em setembro, a Campanha Nacional de Doação de Órgãos conta com o apoio da ABTO e está relacionada à Lei nº 15.463, de 18 de junho de 2014, que instituiu setembro como o mês de conscientização sobre a doação de órgãos.

Em 27 de setembro, é celebrado o Dia Nacional da Doação de Órgãos, data que reforça a importância desse gesto capaz de transformar e salvar vidas. Entre as ações realizadas pela ABTO está uma caminhada, que reuniu profissionais de saúde, pessoas transplantadas, familiares, doadores, parceiros e toda a comunidade no último dia 13 de setembro, na Avenida Paulista.

Do ponto de vista legal, o Brasil mantém a exigência de que a família autorize a doação de órgãos, conforme estabelecem as leis de 1997 e 2001. A grande novidade veio com a Lei Tatiane (14.722/2023), que criou uma política nacional para levar essa conversa a toda a sociedade — incluindo as salas de aula —, desmistificando o tema e incentivando o diálogo.

Para reforçar esse compromisso com a vida, o Ministério da Saúde lançou a Portaria nº 8.249/2025, criando o PRODOT (Programa Nacional de Qualidade na Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes), que estabelece diretrizes técnicas e garante mais qualidade a todo o processo pelo SNT.

Além da conscientização da doação de órgãos, o Setembro Verde também serve para conscientizar as pessoas transplantadas dos devidos cuidados que se deve ter após a cirurgia. “O transplante não encerra o tratamento. A partir dali começa uma nova etapa de cuidados, com acompanhamento médico, exames e uso correto das medicações. O sucesso do procedimento depende também da continuidade desse cuidado ao longo do tempo”, explica Raphael Fernandes, médico em Saúde Integrativa e professor da Afya Unigranrio Barra da Tijuca.

SOBRE A ABTO

Criada em 1986, a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) é uma sociedade médica civil, sem fins lucrativos, que tem como objetivo principal estimular o desenvolvimento de todas as atividades relacionadas com transplantes de órgãos no Brasil, contribuindo para o estabelecimento de normas, além de criação e aperfeiçoamento de legislações relacionadas ao assunto. Mais informações em site.abto.org.br

Fontes:

• O Globo

• Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios – TJDFT

• Diário do Rio

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