Com o início da Copa do Mundo, cardiologistas alertam para os perigos da ansiedade, do estresse e dos excessos gastronômicos durante as partidas decisivas
Por Redação
Campina Grande, PB — 11/06/2026
Com o início da Copa do Mundo, o clima de festa, a euforia e a ansiedade começam a tomar conta dos brasileiros, que tiram as camisas da seleção do armário e se reúnem em bares e casas para torcer. No entanto, momentos de extrema tensão no futebol — como uma cobrança de pênalti ou um gol nos acréscimos — podem transformar o famoso bordão “aguenta, coração” em um risco real à saúde. Médicos alertam que emoções fortes disparam reações biológicas que alteram a frequência cardíaca e a pressão arterial, acendendo um alerta vermelho principalmente para indivíduos que já possuem fatores de risco cardiovascular.
A paixão por futebol, conecta mente e corpo em um só ritmo. Gerando fortes emoções que são como um gatilho para o sistema cardiovascular. Em momentos onde a tensão se sobrepõe e os ânimos ficam à flor da pele, principalmente nos pênaltis, partidas decisivas e final de campeonatos, o nível de estresse repentino pode levar a pessoa a ter picos de pressão, arritmia ou até mesmo a ter infartos. Isso devido ao organismo liberar hormônios como a adrenalina e cortisol em grande escala.

É nesse momento que se abre para um alerta. O cérebro a tensão como uma grande ameaça e ativa o sistema nervoso simpático, trazendo os seguintes resultados:
- Tsunami de Hormônios: Na hora do sufoco, o cérebro dá o alarme e inunda o corpo com uma descarga massiva de adrenalina, noradrenalina e cortisol — os hormônios do estresse.
- O Coração no Limite: Com essa química toda solta, o ritmo cardíaco dispara e os vasos sanguíneos se espremem. O resultado? A pressão arterial vai lá para o alto em questão de segundos.
- O Perigo Real: O risco não é brincadeira. Pesquisas mostram que a tensão de acompanhar uma partida importante pode mais do que dobrar as chances de um infarto. Para se ter uma ideia, os atendimentos de emergência nos hospitais chegam a subir até 8% em dias de decisões em campo.

Basicamente, aquela sensação de que “o coração vai sair pela boca” durante os pênaltis é o seu corpo operando no limite máximo. Cuidar da saúde também faz parte do jogo. De acordo com estudos, em dias de jogos importantes há um aumento na procura da emergência nos hospitais.
O Alerta Vermelho fora de campo
A preocupação médica não é mero preciosismo. As doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de morte no planeta. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 17,9 milhões de pessoas perdem a vida anualmente por essas enfermidades no mundo. No cenário nacional, a Sociedade Brasileira de Cardiologia aponta para um dado alarmante: são cerca de 400 mil mortes por ano, o que equivale a um óbito a cada 90 segundos.
Casos trágicos e recentes mostram que a paixão pelo futebol pode, literalmente, custar vidas. Em 2019, a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) registrou a morte de dois torcedores do Flamengo após a histórica virada na final da Libertadores. Mais recentemente, em agosto de 2025, um idoso de 70 anos sofreu um mal súbito e faleceu no estádio do Morumbis durante o intervalo de uma partida entre São Paulo e Atlético Nacional.

A biologia do “Coração de Torcedor”
Para o cardiologista Dr. Jaifábio Lima, o termo “coração de torcedor” descreve uma realidade fisiológica. Quando o torcedor vivencia o estresse de um jogo decisivo, o corpo interpreta a situação como um estado de alerta.
“O coração responde diretamente às emoções. Em momentos de nervosismo (…) substâncias são liberadas na corrente sanguínea, provocando mudanças no funcionamento do organismo”, explica o Dr. Jaifábio. “Essas substâncias podem alterar diretamente a frequência cardíaca e a pressão arterial”.
A cada lance no jogo desperta um misto de emoções como: gritos, gestos exagerados e diversos comentários. Essa é a realidade para muitos torcedores Brasil afora. No entanto, esse tipo de comportamento pode trazer prejuízos para a saúde do coração.
“Vários mecanismos geram fatores para descompensar um indivíduo sob estresse. Se há um estresse abrupto, nosso organismo tem resposta cardiovascular para aquele estímulo. Então, se você leva um susto, naturalmente você sente o coração acelerar. É a resposta fisiológica. Se o estresse é muito intenso, a resposta também. No caso de você ter uma predisposição básica, ou seja, condições cardiovasculares que geram um fator de risco maior, essa descompensação pode ocorrer mais facilmente e você parar mesmo em um Pronto-Socorro”, explica Carlos Hossri, cardiologista e membro da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).

A exemplo disso, em 2006, um estudo alemão publicado na revista The New England Journal of Medicine apontou um crescimento de 2,66 vezes mais em casos de internações em dias de partidas da seleção alemã na Copa do Mundo daquele ano. Já em 2013, um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP), houve um aumento de 4% a 8% em ocorrências de casos de infarto durante as partidas da Copa do Mundo. Um exemplo mais recente foi a grande final entre Argentina e Alemanha. “A final Argentina x Alemanha superou todos os outros dias em número de atendimentos. Talvez por aquele temor de que a Argentina fosse campeã”, analisa Ghorayeb. Para algumas pessoas, tal episódio pode servir de gatilho para desencadear problemas cardíacos.
Enquanto o pico emocional é passageiro e suportável para indivíduos saudáveis, o cenário muda drasticamente para corações vulneráveis. Pacientes com histórico de infarto, hipertensão, arritmia, diabetes, colesterol elevado, obesidade ou tabagistas precisam redobrar a atenção. A orientação do especialista não é abdicar dos jogos, mas sim gerenciar o estresse e a ansiedade gerados por eles.

De acordo com o cardiologista, “Quem tem fatores de risco cardiovascular associados a infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral: tabagismo, hipertensão, diabetes, colesterol alterado, obesidade abdominal, sedentarismo, alimentação não saudável, estresse e depressão ou histórico cardíaco não precisa deixar de torcer, mas deve evitar que a Copa vire um período de desorganização completa da rotina de saúde e estresse elevado. O jogo passa, mas o controle dessas condições precisa continuar todos os dias”. Vida longa com qualidade para continuar torcendo, afirma o cardiologista.
“A emoção de um jogo importante ativa respostas do organismo relacionadas ao estresse. Há liberação de adrenalina, aumento da frequência cardíaca e elevação da pressão arterial. Em uma pessoa saudável, isso tende a ser bem tolerado. Mas, em quem já tem doença coronariana, hipertensão mal controlada ou predisposição a arritmias, esse esforço adicional pode contribuir para uma intercorrência cardiovascular”, explica o Prof. Dr. Álvaro Avezum, Head do Centro Especializado em Cardiologia e Diretor de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Fortes emoções fazem com que o coração trabalhe mais. Havendo um aumento nos batimentos cardíacos, demanda de oxigênio por parte do músculo cardíaco. Em pessoas com obstruções nas artérias, esse descompasso pode ser uma porta de entrada para sintomas como: dor no peito, falta de ar, arritmia, entre outros sintomas. Que podem ser ampliados com o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e má alimentação. E atrelados ao estresse pode ocorrer uma reação onde as artérias se inflamam, formando coágulos de sangue e de gordura que existiam.

O Perigo dos “Combos” de petiscos e bebidas
Além do fator puramente emocional, os hábitos que cercam os dias de jogos atuam como combustíveis para crises de saúde. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas, comidas gordurosas ou muito salgadas, energéticos, excesso de cafeína e as noites mal dormidas sobrecarregam o sistema cardiovascular.
“Para quem já tem algum problema cardiovascular, esses fatores podem se somar à emoção do jogo e aumentar o risco”, adverte o médico.
Sinais de Alerta: Quando procurar ajuda?
O corpo costuma dar avisos. Sintomas sentidos durante ou após as partidas não devem ser negligenciados em hipótese alguma. A recomendação é procurar atendimento médico imediato — sem esperar o apito final do juiz — caso surjam:
- Dor ou desconforto no peito;
- Falta de ar ou palpitações;
- Suor frio e tonturas fortes;
- Sensação de desmaio, náuseas e mal-estar intenso.

A mensagem final dos especialistas não visa retirar a emoção que faz parte da cultura e da identidade nacional, mas sim lembrar que o cuidado com a saúde deve vir em primeiro lugar. Manter as medicações em dia, evitar excessos e consultar o cardiologista antes de períodos de grande tensão são os melhores caminhos. Afinal, antes de torcer pelo tão sonhado “hexa”, é fundamental garantir que o próprio coração esteja pronto para aguentar a jornada.
Para especialistas indica que para aproveitar com segurança e não colocar a saúde em risco, é indicado seguir algumas medidas preventivas, como:
- Pé no Freio com os Excessos: Tudo bem comemorar, mas pegue leve. Maneirar no álcool e evitar aquela comida muito gordurosa já tira um peso enorme das costas do seu coração.
- Deu Ruim? Saia de Perto: Se o nervosismo passar do ponto e o peito começar a apertar, não insista. Levante-se, mude de ambiente, beba uma água e respire fundo. Esse “tempo técnico” é vital para acalmar os batimentos cardíacos.
- Remédio não se Esquece: Se você já tomou alguma medicação, a regra é clara: não pule o horário de jeito nenhum, principalmente em dia de jogo grande.
- Check-up em Dia, Torcida Tranquila: Não espere a final do campeonato para saber como está a saúde. Passar no médico e fazer exames de rotina é o que evita surpresas perigosas bem no meio daquela partida decisiva.

Durante as partidas, fique atento a alguma dicas como:
- Evitar beber álcool ;
- De preferência a alimentos saudáveis ao invés de comida com alto teor de gordura e sódio;
- Evite fumar;
- Pratique atividades físicas para preparar o coração para fortes emoções;
- Se tiver problemas cardíacos ou pressão alta, assista o jogo em ambientes tranquilos ou deixe pra saber do resultado depois;
- Procure não se expor ao sol durante o jogo.
A Regra é Clara: Cuidar de você é o melhor jeito de garantir que você vai estar lá para comemorar o próximo título! “A Copa é um momento de lazer, encontro e celebração. O cuidado é para que a emoção dos jogos não se some a outros fatores que sobrecarregam o coração. Para quem já tem risco cardiovascular, respeitar os próprios limites faz diferença. Seja o maior torcedor de sua saúde, sempre”, afirma Avezum.
Fonte: Oswaldo Cruz Hospital Alemão/G1 Globo





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