Especialistas explicam como o calendário de comidas afetivas e a pressão social disparam gatilhos de culpa, e ensina estratégias para curtir o São João sem cair na armadilha da compensação
Por Redação
Campina Grande – PB, 15/06/2026
O mês de junho chega embalado pelo som da sanfona, pelo calor da fogueira e, principalmente, pelo aroma irresistível de canjica, pamonha, bolo de milho, pé de moleque e quentão. No entanto, para além da celebração cultural e familiar, esse período costuma inaugurar uma temporada de forte ansiedade para quem convive com o sobrepeso, a obesidade ou uma relação difícil com a alimentação. A combinação de receitas calóricas sazonais, quebra de rotina e uma intensa pressão social transforma as quermesses em um gatilho para a culpa e o sofrimento emocional. Longe de ser apenas uma questão de “falta de disciplina”, o comportamento alimentar nessa época do ano é influenciado por complexos fatores metabólicos, hormonais e psicológicos que exigem estratégias realistas e, acima de tudo, acolhimento.
Além de celebrar as festividades juninas e a colheita do milho, podem vir junto a sensação de culpa por exceder nos comes e bebes. Esta época do ano é aguardada por muitas pessoas, por ser um período de muitas festividades, momentos descontraídos, rotina flexível, encontros com amigos e familiares, noites de muitas festas; além disso, o período também é marcado com muita afetividade, excessos e noites mal dormidas, proporcionando uma combinação perfeita de fatores que dificultam a autorregulação, principalmente para quem tem tendências de comer em excesso devido a problemas emocionais ou até mesmo histórico de dietas com restrições.

E a questão da afetividade recai também sobre a comida. “Nas festas juninas, a comida carrega afeto, memória e convivência. Em muitas situações, recusar um prato pode ser visto como desfeita, e isso gera desconforto. A pessoa come para participar, para agradar, para não se sentir deslocada, e não necessariamente porque está com fome física”, observa a especialista.
Para entender a raiz desse conflito e como atravessar as festividades juninas sem neuras, conversamos com a médica nutróloga Dra. Mariana Wogel. Segundo a especialista, o impacto do período vai muito além do que é colocado no prato.
“O problema não está apenas na comida típica. O que pesa para muita gente é o conjunto da experiência: a quebra da rotina, o apelo emocional, a pressão social para comer, a sensação de que é preciso aproveitar tudo e, depois, a culpa por ter exagerado”, explica a médica.

O tabuleiro emocional: O perigo do “Tudo ou Nada”
De acordo com a Dra. Mariana, quem já vive em conflito com a balança costuma chegar aos eventos juninos em um estado de alerta constante, tentando se controlar pelo medo do exagero. O problema é que, ao entrar em um ambiente de fartura e forte apelo afetivo, essa contenção excessiva frequentemente deságua em episódios de perda de controle. “Muitas pessoas chegam às festas juninas já tentando se controlar, já com medo de exagerar. Quando entram em contato com um ambiente de fartura, memórias afetivas e estímulo constante à comida, acabam oscilando entre contenção excessiva e perda de controle”, afirma.
É aí que se instala o perigoso ciclo de compensação:
[Exagerou na Festa] ➔ [Sentimento de Culpa] ➔ [Promessa de Jejum/Restrição Radical] ➔ [Aumento da Fome e Estresse] ➔ [Novo Episódio de Excesso]
“A pessoa promete que no dia seguinte vai compensar com restrição ou corte radical. O problema é que isso muitas vezes aumenta a fome, piora a relação com a comida e favorece novos episódios de excesso”, alerta a nutróloga. Ela acrescenta que o pensamento de “já que saí da dieta, agora perdi tudo, é um dos maiores sabotadores do processo de cuidado com a saúde. Uma refeição diferente não define o mês inteiro, assim como um exagero pontual não anula todo um processo de cuidado”, pontua.

De acordo com a especialista, esta ação pode ser classificada como falta de indisciplina. “Quem enfrenta dificuldade com o peso não lida apenas com uma questão de força de vontade. Existem fatores metabólicos, hormonais, emocionais e comportamentais envolvidos. Em períodos festivos, tudo isso tende a ficar mais sensível”, diz a Dra. Mariana.
No entanto, a especialista ainda comenta que “Nem todo aumento imediato na balança significa ganho real de gordura. Muitas vezes existe retenção, inflamação transitória, mudança no padrão alimentar e intestinal. O problema é quando a culpa vira desistência”, diz. Os cuidados diários precisam seguir estratégias reais, não para se punir além das festas como relata Wogel; que complementa, “Quem convive com sobrepeso ou obesidade já carrega, muitas vezes, um histórico de frustração, autocobrança e tentativas rígidas que não se sustentaram. Em datas festivas, isso pode se intensificar. Por isso, o melhor caminho é atravessar esse período com mais planejamento, menos culpa e mais consciência sobre o que o corpo realmente precisa”, afirma.
A balança social: Comer para pertencer
Outro fator determinante mapeado pela especialista é o ambiente social. Nas festas juninas, a comida é um veículo de afeto, memória e convivência. “Em muitas situações, recusar um prato pode ser visto como desfeita, e isso gera desconforto. A pessoa come para participar, para agradar, para não se sentir deslocada, e não necessariamente porque está com fome física”, observa.
Essa pressão, somada à quebra de rotina — que envolve horários irregulares, mais eventos na agenda e noites mal dormidas —, desregula a capacidade de autorregulação do corpo, especialmente em indivíduos com tendência à fome emocional ou histórico de dietas muito rígidas.

Estratégias práticas para mudar a rota em junho
Para não passar o mês em guerra com as tradições, a Dra. Mariana Wogel sugere focar em consciência em vez de perfeição. Abaixo, confira as principais orientações da especialista para modular a relação com a comida neste São João:
- Evite jejuns prolongados antes dos eventos: Chegar com fome excessiva bloqueia a capacidade de fazer escolhas conscientes e estimula a impulsividade alimentar.
- Não transforme exceções em regra diária: O calendário junino é longo, mas os eventos são pontuais. Desfrute das festas escolhidas, mas mantenha a rotina equilibrada nos dias comuns.
- Acolha as oscilações da balança: Nem todo aumento de peso imediato após o final de semana significa ganho real de gordura. “Muitas vezes existe retenção de líquidos, inflamação transitória e mudança no padrão intestinal. O problema real é quando a culpa vira desistência”, pontua.

Saúde e tradição são incompatíveis?
A resposta é um não categórico. Para a nutróloga, quem enfrenta o sobrepeso ou a obesidade já carrega um histórico doloroso de frustrações e tentativas rígidas que não se sustentaram ao longo do tempo. O caminho ideal, portanto, não passa pela punição.
“A proposta não é viver com medo da comida típica nem transformar um momento cultural em sofrimento. O objetivo é sair dessa lógica de culpa e compensação, que adoece mais do que ajuda. Quando existe estratégia, acolhimento e individualização, é possível passar por esse período de forma mais leve”, conclui a Dra. Mariana Wogel.
A médica ainda faz uma ressalva de que a melhor estratégia para entrar nesta época do ano é não chegar com mentalidade punitiva. “O ideal não é pensar em perfeição. É pensar em consciência. A pessoa não precisa passar a festa em guerra com a comida, mas também não precisa viver junho inteiro no automático. O equilíbrio começa quando ela entende seus gatilhos e faz escolhas mais possíveis dentro da própria realidade”, afirma.
Com a chegada das festividades de longa duração, como o tradicional calendário junino, manter a constância na alimentação saudável torna-se um dos maiores desafios para quem busca qualidade de vida e emagrecimento. Para entender como conciliar as celebrações sem cair nas armadilhas do efeito “tudo ou nada”, também conversamos com a nutricionista Ana Paula Cancio. Especialista em comportamento alimentar e equilíbrio nutricional, ela traz uma perspectiva realista e humana sobre o autocuidado, mostrando que a consistência — e não a perfeição — é a verdadeira chave para resultados duradouros.
O Mito do “Chutar o Balde”: Como mudar a mentalidade nas festas longas?
Pergunta: A matéria destaca que o calendário junino é longo, mas os eventos são pontuais, e que o pensamento de “já que saí da dieta, vou chutar o balde” é um grande sabotador. Como o paciente pode trabalhar a mentalidade para entender que uma refeição festiva não anula todo o esforço anterior, mantendo a consistência nos dias sem festa?
Resposta de Ana Paula Cancio:
“Convido as pessoas a olharem para a alimentação em uma perspectiva de longo prazo. Uma refeição de festa não tem o poder de anular meses ou anos de bons hábitos; o que determina nossos resultados é o padrão construído ao longo do tempo. Muitas pessoas acreditam que precisam fazer tudo perfeitamente e, quando saem do planejado, entram na lógica do ‘já que errei, vou continuar errando’. Mas não lidamos assim com outras áreas da vida: se borramos o batom ou derramamos algo no chão, limpamos o excesso, não transformamos um pequeno erro em um desastre maior. O pensamento de ‘tudo ou nada’ gera um ciclo desgastante de restrição e exagero que aumenta a sensação de fracasso. O corpo responde melhor à previsibilidade do que aos extremos.”

Chegar “Faminto” é Cilada: O que comer antes de sair de casa?
Pergunta: Uma das orientações principais é evitar jejuns prolongados antes de ir para as quermesses para não estimular a impulsividade alimentar. Que tipo de lanche ou estratégia nutricional o paciente pode adotar em casa, horas antes do evento, para garantir a saciedade e conseguir fazer escolhas mais conscientes diante das barracas de comidas típicas?
Resposta de Ana Paula Cancio:
“A melhor forma de evitar exageros é não chegar ao evento com fome excessiva. Ficar horas sem comer antes da comemoração para ‘economizar calorias’ só aumenta a impulsividade alimentar, especialmente se somada ao cansaço e ao estresse. Antes de sair de casa, vale a pena fazer um pequeno lanche rico em proteínas, como ovos, frango desfiado, atum, queijos ou iogurte. Essas opções aumentam a saciedade e nos ajudam a fazer escolhas conscientes. Ter alimentos práticos adiantados em casa — como pastinhas ou proteínas pré-preparadas — funciona como um meio-termo inteligente entre cozinhar e recorrer ao delivery. A alimentação equilibrada depende de planejamento e previsibilidade, tornando mais fácil aproveitar as comidas típicas com prazer e controle.”
A balança subiu Pós-São João? Calma, não é gordura
Pergunta: É comum ver o peso subir na balança logo após o fim de semana de São João, o que a nutróloga atribui a fatores como retenção de líquidos e inflamação transitória, e não necessariamente ganho de gordura. Nutricionalmente falando, quanto tempo o corpo leva para se autorregular após esses excessos e quais as melhores condutas (como hidratação e consumo de fibras) para acelerar a recuperação do organismo sem recorrer a restrições radicais?
Resposta de Ana Paula Cancio:
“Oriento evitar subir na balança logo após um fim de semana de excessos. O peso corporal sofre oscilações naturais influenciadas por hidratação, consumo de carboidratos, funcionamento intestinal e retenção de líquidos. Um aumento de um dia para o outro não significa ganho de gordura, já que esse processo exige um excedente calórico sustentado por muito tempo. A melhor estratégia pós-festa não é compensar ou restringir, mas simplesmente retomar a rotina de autocuidado: continue se hidratando bem, pratique atividade física e siga as refeições normalmente. Participar de uma celebração faz parte da vida e não anula o emagrecimento. Confie na consistência dos seus hábitos.”

Comer por Educação? Como Lidar com a Pressão Social e os Pratos Típicos
Pergunta: O texto menciona que, nas festas juninas, recusar um prato muitas vezes é visto como desfeita, fazendo com que a pessoa coma apenas para pertencer ou agradar. Quais ferramentas comportamentais ou técnicas de comunicação a senhora sugere para que o indivíduo consiga estabelecer limites de forma leve, sem se isolar socialmente e sem ceder à pressão alheia?
Resposta de Ana Paula Cancio:
“Nas festas juninas, a comida representa afeto, tradição e convivência. Uma pamonha feita pela avó ou um prato compartilhado entre amigos carregam histórias, por isso não acredito que a solução seja evitar essas experiências. O segredo é o equilíbrio. Aceitar um alimento oferecido com carinho não significa perder o controle. Uma estratégia simples é comer algo leve antes da festa para conseguir degustar o bolo ou o pé de moleque com prazer e presença, focando na experiência e não na quantidade. É importante lembrar que pertencimento não exige excesso. Participar da conversa e compartilhar o momento já cumpre a função social da comida. O valor está na presença.”
Fonte: Portal Click PB





Deixe um comentário