Campanhas de conscientização alertam para a baixa nos estoques dos bancos de sangue de cães e gatos, essencial para salvar animais em situações de emergência
O mês de junho é amplamente conhecido pela campanha Junho Vermelho, que conscientiza a população sobre a importância da doação de sangue humano. No entanto, a Medicina Veterinária aproveita o período para acender o alerta para uma realidade ainda desconhecida por muitos tutores: os animais também dependem da solidariedade para salvar vidas. Com estoques frequentemente em níveis críticos, os bancos de sangue veterinários correm contra o tempo para atender cães e gatos que necessitam de transfusões em situações de extrema urgência.
A doação de sangue na medicina veterinária, é de extrema importância para conseguir salvar cães e gatos em situações de emergência; como: traumas, cirurgias, e fazendo os mesmos procedimentos que são realizados em humanos. Até o momento, não há uma central de estoque de sangue animal, no entanto, a rede depende exclusivamente de doações que são cadastradas para poderem salvar vidas.
A campanha do Junho Vermelho surgiu em 2015, a partir do movimento “Eu Dou Sangue”. O dia 14/06 é uma data muito importante para a causa, pois se comemora o Dia Mundial do Doador de Sangue. Além de ser uma homenagem para as pessoas que doam sangue, a data serve como um chamado para a doação é um destaque para também lembrar da causa animal, que sofre com a escassez nos bancos de sangue.

O papel decisivo dos bancos de sangue na veterinária
Acidentes, cirurgias complexas, intoxicações e anemias graves são apenas algumas das situações cotidianas em clínicas que exigem uma resposta rápida. Além disso, enfermidades comuns, como as doenças transmitidas por carrapatos e disfunções imunológicas, elevam drasticamente a demanda por bolsas de sangue. Nesses momentos, a disponibilidade imediata do imunocomponente pode ser o único diferencial entre a vida e a morte do paciente.
Segundo o médico-veterinário e diretor geral da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas, Francis Flosi, o suporte desses hemocentros especializados é um pilar da estrutura médica atual:

“Os bancos de sangue veterinários desempenham papel fundamental na medicina de emergência e nos tratamentos especializados. Assim como acontece na medicina humana, existem situações em que a transfusão de sangue é essencial para salvar a vida de um animal. Sem doadores, muitos tratamentos simplesmente não seriam possíveis.”

Uma única doação pode salvar várias vidas
Um dos pontos que mais reforça a importância do ato é o aproveitamento do material coletado. Um único animal doador pode beneficiar diversos pacientes, já que o sangue extraído pode ser fracionado em diferentes componentes terapêuticos, maximizando o alcance de cada coleta. Durante o Junho Vermelho, especialistas reforçam que uma única bolsa pode representar a diferença crucial em diversas situações clínicas, como:
- Atropelamentos;
- Doenças autoimunes;
- Tumores;
- Anemias;
- Intoxicações e acidentes com animais peçonhentos;
- Distúrbios de coagulação;
- Doenças que provocam baixa de proteínas no sangue;
- Entre outros problemas.
“A doação de sangue é essencial para salvar a vida de muitos pets que passam por cirurgias, traumas ou doenças graves. Mas o número de doadores ainda é muito abaixo do necessário”, alerta Kelly Carreiro, médica-veterinária da Special Dog Company.

Segurança em primeiro lugar: quem pode doar?
Para participar dos programas de doação, os animais precisam atender a critérios específicos relacionados à idade, peso, estado de saúde, vacinação e comportamento. Antes de qualquer procedimento, são realizados exames clínicos e laboratoriais rigorosos para garantir a total segurança tanto do doador quanto do receptor.
“A doação é um procedimento seguro, realizado sob supervisão médico-veterinária e com monitoramento constante. Os animais são cuidadosamente avaliados para garantir que estejam aptos a participar do processo sem qualquer prejuízo à saúde”, explica Flosi.
Para realizar as doações, alguns critérios são necessários, como:
- Cachorros: Precisam ter de 1 a 8 anos, contar com mais de 25 kg e apresentar vacinas, vermífugos e proteção contra pulgas/carrapatos totalmente atualizados.
- Felinos: Devem ter entre 1 e 8 anos, possuir peso superior a 4 kg. É indispensável a ausência de enfermidades crônicas e o resultado negativo para FIV e FeLV. O comportamento precisa ser manso.
Assim como os humanos, os animais também têm tipos sanguíneos diferentes, cerca de 8 tipos. E para a doação também segue critérios rigorosos, para que a coleta seja segura e saudável.

Os principais tipos sanguíneos possuem a denominação de Sistema DEA (Dog Erythrocyte Antigen) ou “Antígeno Eritrocitário Canino”. DEA 1, que é subdividido em subtipos: DEA 1.1, 1.2 e 1.3, a DEA 3, 4, 5, 6, 7 e DEA 8. Mais recentemente encontrou-se outro grupo que chamamos de DAL, em estudos com cães da raça Dálmata.
Nos cães, os tipos sanguíneos que normalmente têm maior chance de ter reação à transfusão são os: DEA 1.1, 1.2 e o 7. Sendo que atualmente só existem testes rápidos disponíveis para o grupo DEA 1.1.
Já nos gatos, eles possuem menos tipos sanguíneos do que os cães. Sendo os tipos compostos por três tipos: A, B e AB. Em 2007 foi descoberto um novo antígeno, denominado de MIK. Ele causa uma incompatibilidade que não está relacionada ao sistema AB. Os gatos que possuem o tipo sanguíneo B têm altos níveis de anticorpos anti-A. Fazendo com que se um gato tipo A doar sangue, a reação hemolítica pode ser grave e fatal. Sendo assim, é necessário realizar a tipagem sanguínea dos felinos. Mas já existem testes rápidos para gatos que é possível identificar os três grupos sanguíneos.
O desafio do desconhecimento e a rede de solidariedade
Apesar do avanço e da crescente estrutura dos bancos de sangue veterinários no Brasil, a demanda diária ainda é muito superior ao número de doadores cadastrados. O principal obstáculo enfrentado pelas instituições é a falta de informação dos tutores.
“Muitas pessoas desconhecem que cães e gatos também podem doar sangue. Quanto maior o número de doadores cadastrados, mais preparados estarão os hospitais veterinários para atender casos de emergência”, ressalta o médico-veterinário.
Mais do que suprir uma necessidade médica imediata, a campanha contribui para fortalecer uma rede essencial de solidariedade que conecta profissionais da saúde, hospitais veterinários e responsáveis pelos animais em todo o país.

“A doação de sangue é um ato de solidariedade que ultrapassa a medicina humana. Quando um animal saudável doa sangue, ele ajuda outros animais a terem uma nova oportunidade de recuperação e de vida. É um gesto simples, mas com impacto enorme”, conclui Francis Flosi.
Além de ser um ato de amor, a doação de sangue pode ajudar até três vidas. O processo é totalmente seguro e rápido. Para o animal doador, tem um grande benefício, que é o de passar por um check-up gratuito com exames físicos e laboratoriais antes da realização da coleta, como: hemograma, bioquímico renal e hepático, exame clínico, exames moleculares para algumas doenças como: erliquiose e babesiose (que são doenças do carrapato), leishmaniose, brucelose.
Na Paraíba, há uma iniciativa criada pelo projeto Doe Sangue Pet Paraíba que ajuda no cadastro, buscando doadores para os animais que mais precisam. Para saber mais como levar seu pet para ser um doador, acesse os seguintes links: https://cmvcg.com.br/ e https://fiponline.edu.br/pagina/121, para verificar a disponibilidade dos hemocentros parceiros.
Solidariedade de quatro patas: como a doação de sangue pet pode salvar vidas em emergências
Assim como na medicina humana, a doação de sangue na veterinária é um ato de amor capaz de transformar cenários críticos em chances reais de sobrevivência para cães e gatos. No entanto, a falta de informação e o baixo número de doadores ainda são grandes desafios para clínicas e hospitais veterinários que correm contra o tempo em casos de emergência.
Para entender melhor como funciona esse processo, quais animais podem doar e o impacto desse gesto no ecossistema da saúde pet, conversamos com a médica veterinária Monique Rodrigues. Além de especialista, Monique é CEO da Clinicão, uma das principais franquias de clínicas veterinárias do país, e traz uma visão detalhada sobre a importância da conscientização dos tutores. Confira a entrevista completa:
Entrevista: Monique Rodrigues (CEO da Clinicão)
Quem pode doar e como funciona a segurança?
Portal Em Pauta: Quais são os requisitos para um cão ou gato ser doador e como garantir a segurança do procedimento?
Monique Rodrigues: Os animais passam por uma triagem muito rigorosa para garantir que o processo seja seguro tanto para quem doa quanto para quem recebe. Em geral, os cães precisam ter entre 1 e 8 anos, pesar acima de 25 kg e estar em excelente estado de saúde. Para os gatos, a faixa etária é a mesma (1 a 8 anos), mas o peso mínimo exigido é de 4,5 kg, além da obrigatoriedade de testes negativos para FIV (Imunodeficiência Felina) e FeLV (Leucemia Felina).
Antes de qualquer coleta, nós realizamos uma bateria de exames clínicos e laboratoriais. O procedimento em si é rápido, feito exclusivamente por um médico veterinário, e segue protocolos rígidos que garantem o bem-estar e o conforto do pet doador.

O alcance de uma única bolsa de sangue
Portal Em Pauta: Como uma única doação pode salvar várias vidas?
Monique Rodrigues: Esse é um ponto fascinante. O sangue total coletado não é necessariamente aplicado daquela forma na totalidade. Ele pode ser centrifugado e separado em diferentes componentes, como o concentrado de hemácias e o plasma.
Dessa forma, uma única bolsa coletada consegue atender mais de um paciente simultaneamente. Cada componente é direcionado para uma necessidade específica, atendendo desde casos graves de anemia e hemorragias até distúrbios de coagulação e outras emergências críticas na rotina veterinária.
O gargalo das emergências veterinárias
Portal Em Pauta: Como a falta de doadores impacta diretamente os atendimentos de urgência nas clínicas?
Monique Rodrigues: A escassez de doadores é, infelizmente, um desafio diário na nossa rotina. Quando uma emergência chega e o paciente precisa de uma transfusão imediata, as clínicas e hospitais precisam acionar bancos de sangue e bases de cadastros para tentar localizar e liberar bolsas compatíveis o mais rápido possível. Esse tempo é precioso. Por isso, bater na tecla da conscientização dos tutores é fundamental: quanto maior o nosso banco de dados e o estoque de bolsas, mais vidas conseguimos salvar em tempo hábil.
Como ajudar e os benefícios para o doador
Portal Em Pauta: Para o tutor que tem interesse, como cadastrar o pet como doador e quais são os benefícios dessa ação?
Monique Rodrigues: O primeiro passo é procurar um banco de sangue veterinário ou uma clínica estruturada que realize o serviço de coleta e armazenamento de forma adequada. O pet passará por uma avaliação clínica completa e exames gratuitos para verificar se está apto. E essa é uma grande vantagem para o tutor: como benefício, a maioria dos programas oferece um acompanhamento de saúde contínuo para o animal doador, incluindo exames laboratoriais periódicos e a tipagem sanguínea sem custos. É uma contrapartida justa para quem está contribuindo diretamente para salvar a vida de outros animais.
Fontes: Vetex Laboratório Veterinário/Caesegatos.com.br





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