Especialista do Hospital IGESP analisa os riscos de lances de alto impacto, o protocolo de atendimento imediato em campo e os desafios da recuperação de atletas de alta performance
Por Redação
Campina Grande, PB – 20/06/2026
A chocante lesão sofrida pelo meio-campista canadense Ismaël Koné, na última quinta-feira (18), durante o confronto contra o Catar na Copa do Mundo, o qual rendeu uma vitória de 6 a 0, parou o estádio e acendeu, mais uma vez, o sinal de alerta no futebol mundial. O lance de alto impacto, que resultou em uma grave fratura na perna do jogador, reacendeu o debate sobre os limites físicos dos atletas, a violência involuntária em disputas de bola e a eficácia do atendimento médico emergencial em torneios de grande porte.
As imagens fortes do momento da lesão geraram comoção imediata entre torcedores e companheiros de equipe, levantando questionamentos sobre o futuro profissional do jovem atleta e os riscos inerentes ao esporte de alto rendimento. Para compreender a gravidade do caso e os bastidores da medicina esportiva em situações extremas, conversamos com o Dr. Alberto, ortopedista e diretor técnico médico do Hospital IGESP Paulista.
O meio-campista do Sassuolo fraturou a tíbia e a fíbula da perna esquerda, após uma entrada brusca por trás do catari Assim Madibo, que teve a ação revisada pelo VAR e expulso em seguida.

O incidente ocorreu no Estádio BC Place, em Vancouver. E foi considerada a lesão de extrema gravidade nesta copa. O caso chamou bastante atenção, e alguns detalhes deixaram o público curioso, como o apito verde usado pelo jogador após sair de campo.
O que aconteceu na prática?
O atleta usou um inalador de bolso chamado “apito verde” (nome comercial do Penthrox). Esse aparelhinho serve para respirar um remédio chamado metoxiflurano, que alivia a dor na hora em casos de lesões ou pancadas fortes, mas com uma grande vantagem: o paciente continua totalmente acordado e consciente enquanto o medicamento faz efeito.

Outros motivos para a dor ter “sumido” no início:
O remédio não agiu sozinho. Duas coisas do próprio corpo e do atendimento ajudaram a diminuir o sofrimento logo de cara:
- Choque de Adrenalina: Na hora do acidente, o corpo do atleta liberou muita adrenalina (o hormônio do estresse e do reflexo de fuga). Isso funciona como um anestésico natural temporário, “escondendo” a dor.
- Socorro Rápido: A equipe médica agiu depressa e amarrou/prendeu o membro machucado (imobilização). Evitar que o local ficasse se mexendo impediu que a dor piorasse imediatamente.

Em entrevista logo após o ocorrido, Jesse Marsch, treinador da seleção canadense, relatou que foi possível ouvir o estalo do osso se rompendo na beira do campo. Logo após o ocorrido, três cirurgiões que estavam assistindo a partida pela TV, encaminharam de imediato para o hospital onde o atleta foi levado, constatando a gravidade da lesão.
No hospital o jogador passou por uma cirurgia que durou 1h 30 min para fazer o alinhamento dos ossos da perna. Lesões do tipo diafisárias costumam ser tratadas com a introdução de uma haste intramedular metálica para estabilizar a perna.
O mecanismo do trauma: Por que o futebol assusta?
O futebol moderno se tornou um esporte de extrema exigência física, onde velocidade, força e intensidade se cruzam a cada segundo. Segundo o Dr. Alberto, fraturas como a de Koné geralmente ocorrem devido a uma combinação de forças opostas de alta energia.
“Lesões traumáticas graves no futebol costumam acontecer quando há um trauma direto de forte impacto, como uma entrada mais dura, ou quando o pé do atleta fica preso ao gramado enquanto o corpo realiza um movimento de rotação forçada”, explica o ortopedista. “A tíbia e o perônio (fíbula) acabam absorvendo uma carga muito maior do que são capazes de suportar, resultando na ruptura óssea.”

Segundos preciosos: O atendimento em campo
Em casos de fraturas expostas ou desalinhadas, o tempo e a qualidade do primeiro atendimento são cruciais para o prognóstico do jogador. A agilidade da equipe médica na Copa do Mundo foi um fator determinante para evitar complicações imediatas, como o comprometimento vascular da perna do atleta.
O diretor técnico do Hospital IGESP destaca que o protocolo de urgência deve ser milimétrico:
- Imobilização imediata: Evita que os fragmentos ósseos causem novos danos a músculos, vasos sanguíneos e nervos.
- Manejo da dor: Aplicação de analgesia potente ainda no gramado.
- Transporte seguro: Encaminhamento direto e rápido para o centro hospitalar para exames de imagem e intervenção cirúrgica.

O caminho da recuperação: Tratamento e prazos
Para lesões dessa magnitude em atletas profissionais, o tratamento cirúrgico é praticamente mandatório. O objetivo é restabelecer a anatomia exata do osso e garantir a estabilidade necessária para que ele volte a suportar cargas elevadas no futuro. Geralmente, utilizam-se hastes intramedulares, placas ou parafusos de titânio.
“Por ser jogador de futebol, a melhor opção são as hastes intramedulares, que são dispositivos que vão dentro do osso. Mas em atletas, o prognóstico costuma ser bom”, explicou o ortopedista e traumatologista do esporte Bruno Canizares.
O retorno aos gramados, no entanto, exige paciência. O processo vai muito além da consolidação do osso.
“O tempo médio de recuperação para uma fratura grave de perna em um jogador profissional varia de 6 a 9 meses, podendo se estender dependendo da existência de lesões ligamentares associadas”, aponta o Dr. Alberto.
O especialista divide a reabilitação em três fases essenciais:
[Consolidação Óssea & Fisioterapia Inicial]
▼
[Ganho de Massa Muscular & Mobilidade]
▼
[Transição para o Campo & Trabalho Psicológico]
O Dr. Alberto ressalta que o aspecto mental é um dos maiores desafios. “O atleta precisa recuperar a confiança no próprio corpo. O medo de sofrer um novo trauma é real e deve ser trabalhado em conjunto com a fisioterapia e a preparação física”, conclui o médico do Hospital IGESP.
Para a fratura se consolidar, o processo levará um período de 3 meses, com dedicação exclusiva do jogador na fisioterapia. Passado esse período, entrará em uma nova fase que levará 3 a 6 meses para a recuperação da musculatura e técnica. E a volta aos campos dependerá da plena consolidação da fratura e a musculatura esteja bem recuperada.
Enquanto Ismaël Koné inicia sua longa jornada de recuperação, o futebol mundial segue discutindo formas de proteger suas estrelas, sem tirar a competitividade que move o esporte mais popular do planeta.

Após o ocorrido, Koné, que é mulçumano, deu a seguinte declaração nas redes sociais: “Alá nunca me abandonou. Ao longo da minha vida, nem uma única vez. Então por que duvidar dele agora? Especialmente sabendo que Ele conhece e vê tudo antes mesmo de acontecer. (…) Esta batalha é um teste para a minha fé Nele e para o meu caráter. E, sinceramente, estou pronto para isso, porque Alá nunca lhe dará um desafio que você não seja capaz de superar”, escreveu Koné em uma publicação.
Também agradeceu a seus companheiros de clube na publicação, “Aos meus irmãos canadenses, enquanto me transformei em auxiliar técnico para apoiá-los à beira do campo, quero que saibam que amo vocês do fundo do coração. Nossa fraternidade significa muito para mim. O que vocês fizeram ficará comigo para sempre. Voltarei muito em breve e continuaremos criando mais memórias juntos”, postou.






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