Desaparecimento de insumo radioativo em Rosário mobiliza autoridades internacionais, expõe falhas de segurança e reacende o debate sobre os perigos invisíveis da radiação para a saúde e o meio ambiente

Por Redação 

CAMPINA GRANDE, PB – 01/07/2026

O desaparecimento de uma cápsula contendo o elemento radioativo Césio-137 de um centro médico da Rua La Rioja, província de Santa Fé, centro da cidade de Rosário, na Argentina, mobilizou as forças de segurança do país e acendeu um alerta internacional sobre os severos riscos associados ao manejo inadequado de rejeitos nucleares. O episódio, que levou o governo argentino a emitir um decreto de emergência nacional, despertou a atenção de agências reguladoras em todo o continente devido ao perigo iminente de contaminação e, inevitavelmente, trouxe à memória coletiva a tragédia de Goiânia ocorrida em 1987, até hoje considerada um dos maiores desastres radiológicos do mundo fora de uma usina nuclear.

Segundo os relatórios oficiais divulgados pela Autoridade Regulatória Nuclear da Argentina, o material desaparecido era rotineiramente utilizado para a calibração de equipamentos de ponta na ala de medicina nuclear do centro médico. A substância que é o mesmo material radioativo que foi o responsável pela tragédia ocorrida em 1987 em Goiânia. Até o momento do sumiço, a cápsula encontrava-se abrigada no interior de um recipiente blindado de chumbo, um invólucro projetado especificamente para reter as emissões radioativas e garantir que o manuseio externo ocorra sem riscos à saúde dos operadores, e vinha sendo utilizada na calibração de equipamentos. 

Logo após a constatação do desaparecimento, a agência ativou o Sistema de Intervenção em Emergências Radiológicas (SIER) comunicando também a Agência Federal de Emergências (AFE), assim como a Divisão de Risco Radiológico e Nuclear da Polícia Federal Argentina, que repassaram o alerta às autoridades locais de Rosário. O material onde está inserida a substância, se encontra no formato de gel e acondicionado em um recipiente de plástico transparente, e guardado em uma proteção envolta por chumbo.

A falta do material se deu quando técnicos foram calibrar equipamentos de medicina nuclear e sentiram a ausência do elemento radioativo. A última vez que o elemento foi utilizado, segundo registros, foi alguns dias antes do desaparecimento. O controle do elemento era dado de forma restrita, tendo o acesso restrito a apenas 4 pessoas. 

Enquanto estiver blindada, a cápsula apresenta riscos baixos. Especialistas no assunto e a Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA) ressaltaram que o maior perigo ocorre no caso da blindagem ser rompida e o material entrar em contato direto com o corpo humano ou o ambiente.

Fonte: http://www.manualdaquimica.com.br

Após o desaparecimento da cápsula, o governo argentino emitiu uma nota de alerta nacional instruindo a população. A orientação principal é de que as pessoas, caso encontrem o elemento, que não toquem, abram ou manipulem; buscando chamar imediatamente às autoridades responsáveis. “Embora o risco radiológico seja muito baixo, caso a encontre, não a toque nem a manipule”, afirmou a ARN em comunicado.

As autoridades buscam através das câmeras e registros internos saber quais motivos levaram a saída da cápsula. Uma possível hipótese do desaparecimento é que tenha havido falhas nos controles internos da instituição. No entanto, não se houve o descarte da possibilidade de que alguém com acesso ao local tenha pego o material. 

A sombra de 1987 e o perigo oculto

A perda do controle sobre o dispositivo argentino evoca de forma imediata o acidente histórico de Goiânia. Naquela ocasião, a violação de uma fonte de Césio-137 abandonada nas ruínas de uma clínica desativada foi encontrada por catadores de recicláveis que encontraram um equipamento de radioterapia e abriram o aparelho desmontando a cápsula, liberando um pó azul brilhante. 

Fonte: Reprodução

Isso resultou na contaminação direta e indireta de centenas de pessoas, deixando vítimas fatais imediatas e um rastro de sequelas epidemiológicas e ambientais que persistem por gerações no Brasil. A semelhança entre as substâncias envolvidas colocou especialistas em saúde e física nuclear de prontidão.

Para a farmacêutica Ana Paula Corrêa Oliveira Bahia, professora do curso de Farmácia da Newton Paiva Wyden, a mobilização urgente das forças de segurança argentinas é perfeitamente proporcional à gravidade do elemento físico. “O Césio-137 é um radioisótopo que emite radiação eletromagnética de alta energia, suficiente para interagir e ionizar outros elementos químicos e biológicos”, elucida a pesquisadora.

A especialista complementa que a radiação do tipo gama atua de forma devastadora a nível microscópico no organismo. A exposição direta e sem barreiras protetivas ao composto é associada ao desenvolvimento acelerado de patologias oncológicas, além de desencadear respostas agudas graves no corpo humano em curtos intervalos de tempo.

Fonte: Reprodução/Magnific

Efeitos clínicos e o paradoxo da medicina

A manifestação clínica da contaminação varia drasticamente de acordo com o nível e a duração da exposição ao isótopo. “A exposição sem proteção pode desencadear sintomas agudos imediatos como náuseas intensas, vômitos, quadros de diarreia crônica e queimaduras de tecidos profundos. Em cenários de alta absorção ou exposição prolongada, o quadro evolui rapidamente para a falência múltipla de órgãos e óbito”, adverte a professora Ana Paula.

Paradoxalmente, o mesmo poder destrutivo que torna o Césio-137 uma ameaça de segurança pública o transforma em um aliado vital na medicina oncológica moderna. Quando encapsulado e operado sob rígidos sistemas automatizados, o radioisótopo é empregado em sessões de radioterapia, onde feixes controlados de radiação gama são direcionados milimetricamente para destruir tecidos malignos e neutralizar tumores agressivos.

“O exato mecanismo que nos permite combater o avanço de tumores é o que causa danos severos quando ocorre uma exposição não controlada”, pondera a farmacêutica. É devido a essa dualidade que o uso médico da substância é subordinado a protocolos globais estabelecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), pela Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ameaça ambiental e protocolos de emergência

Os riscos inerentes ao sumiço da cápsula em Rosário expandem-se consideravelmente quando analisada a integridade do recipiente protetor. Se a blindagem de chumbo for violada por imperícia ou de forma proposital para a comercialização do metal no mercado de sucata, o impacto deixa de ser local e passa a ser ambiental.

“Se houver o rompimento do invólucro, partículas finas do radioisótopo podem dispersar-se com facilidade, contaminando o solo, os lençois freáticos, a fauna e a flora locais. As consequências sanitárias e ecológicas dessa dispersão têm o potencial de persistir ativas por décadas na região”, sublinha Ana Paula Oliveira Bahia.

Fonte: Reprodução/Magnific

RECOMENDAÇÕES OFICIAIS DE SEGURANÇA

  • Risco Atual: Considerado baixo pelas autoridades enquanto a cápsula permanecer intocada dentro da blindagem original de chumbo.
  • Orientação à População: Caso encontre qualquer objeto metálico suspeito ou cilíndrico de origem desconhecida, não toque e não tente manipulá-lo.
  • Ação Imediata: Isole a área e acione imediatamente as forças policiais ou os órgãos de defesa civil locais.

Até o momento, a Autoridade Regulatória Nuclear da Argentina reitera que o perigo para a população em geral permanece contido enquanto o chumbo não for danificado. Contudo, as buscas prosseguem em caráter prioritário em depósitos de resíduos e perímetros industriais de Rosário. O caso reacende a necessidade urgente de revisão dos mecanismos de rastreabilidade de insumos hospitalares nucleares na América Latina, evidenciando que a segurança radiológica é uma engrenagem que depende tanto de barreiras tecnológicas quanto de fiscalização humana contínua.

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