Por Juliana Ajuz Campos, Cirurgiã-Dentista, Mestre em Implantodontia, Nutricionista e Psicanalista Clínica
A queda estrogênica que caracteriza o climatério não é um evento exclusivamente ginecológico. Seus efeitos alcançam tecidos distribuídos por todo o organismo — e a cavidade oral representa um dos territórios mais precocemente e mais intensamente afetados. O problema clínico central é que médicos não olham para a boca e dentistas raramente perguntam sobre o status hormonal de suas pacientes.
O estrogênio possui receptores ativos em gengiva, ligamento periodontal, osso alveolar e glândulas salivares. Quando seus níveis caem, o equilíbrio entre formação e reabsorção óssea se rompe: citocinas pró-inflamatórias como IL-1β, IL-6 e TNF-α se elevam no tecido periodontal, acelerando a destruição do osso de suporte dos dentes. A queda hormonal também reduz o fluxo salivar, favorece disbiose oral e aumenta a prevalência da síndrome da boca ardente — condição que afeta entre 10% e 40% das mulheres pós-menopáusicas e permanece sistematicamente subdiagnosticada.

A periodontite, potencializada pelo hipoestrogenismo, não é apenas doença local. É infecção bacteriana crônica de baixo grau que mobiliza resposta imune persistente, eleva proteína C-reativa (PCR), fibrinogênio e interleucinas circulantes. Em agosto de 2025, a American Heart Association formalizou, em Scientific Statement publicado na Circulation, a associação entre periodontite e doença cardiovascular aterosclerótica — reconhecendo tanto mecanismos diretos quanto indiretos, via resposta inflamatória sistêmica. No mesmo ano, o American College of Cardiology listou a periodontite entre as fontes de citocinas pró-inflamatórias relevantes para o risco cardiovascular, ao lado de tabagismo, hipertensão e dislipidemia.
No climatério, essas duas correntes convergem: o hipoestrogenismo eleva o risco cardiovascular de base enquanto a periodontite — potencializada pelo mesmo hipoestrogenismo — adiciona uma carga inflamatória crônica que amplifica esse risco. A mulher que chega ao consultório com perda óssea alveolar acelerada e gengiva inflamada pode estar, simultaneamente, com PCR elevada e risco cardiovascular crescente — e ninguém conectou esses pontos.
Fechar esse gap exige mudança de prática. O dentista que examina uma paciente de 52 anos com periodontite progressiva precisa perguntar sobre status hormonal. O ginecologista que acompanha uma mulher em transição menopáusica precisa incluir saúde oral na avaliação de risco. A boca não existe isolada do corpo. Tratá-la como se existisse é uma forma silenciosa de negligência clínica.
Juliana Ajuz Campos

Cirurgiã-dentista com mestrado em Implantodontia, nutricionista, psicanalista clínica e Health Coach com formação pelo Institute for Integrative Nutrition de Nova York. Com mais de vinte e cinco anos de prática clínica, atua na interseção entre saúde oral, equilíbrio hormonal, nutrição e psicanálise, uma abordagem integrativa que conecta o que a medicina convencional costuma tratar em separado.






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