Falta de água potável, destruição de hospitais e aglomerações em abrigos criam o cenário perfeito para a proliferação de doenças infecciosas na região

Por Redação 

CAMPINA GRANDE, PB – 06/07/2026

A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta urgente sobre o risco iminente de surtos de doenças infecciosas nas regiões da Venezuela severamente afetadas pelo recente terremoto. A destruição da infraestrutura hospitalar, o colapso no abastecimento de água tratada e o confinamento de milhares de desabrigados em alojamentos temporários acenderam o sinal vermelho para as autoridades, que correm contra o tempo para evitar que a catástrofe natural se transforme em uma crise sanitária generalizada.

A OMS avaliou 21 hospitais da Venezuela em meio ao caos gerado pelos terremotos que assolou o país nos últimos dias. De acordo com os últimos dados do governo, mais de 3 mil pessoas morreram e mais de 5 mil estão feridos em decorrência do terremoto. As ações para encontrar os desaparecidos e a ajuda humanitária do exterior seguem em curso. 

Enquanto isso, o sistema de saúde do país segue em caos, operando sob forte pressão, desorganização, segundo avaliou a OMS (Organização Mundial da Saúde). Também foi avaliado que devido aos tremores alguns hospitais sofreram danos estruturais, e outros estavam sem profissionais de saúde suficientes para atender a alta demanda de vítimas. Essa falta de profissionais deve-se também devido muitos profissionais terem desaparecidos durante o terremoto, a exemplo, do setor obstrétrico. Muitos pacientes devido a situação foram atendidos no chão por falta de leitos, enquanto tremores secundários foram registrados.

“Neste momento, o problema não são as doenças infecciosas”, explicou Alberto Díaz Quiñónez, diretor regional da Escola de Medicina e Ciências da Saúde do Tecnológico de Monterrey. “O mais importante são os traumatismos, as fraturas, as lesões por esmagamento e, principalmente, garantir a continuidade do atendimento às pessoas que já convivem com doenças crônicas.”

Fonte: Metropólis

Ao menos 3 unidades hospitalar está com danos estruturais gravíssimos, 6 estão com danos e/ou funcinando de forma parcial, e de acordo com o porta-voz da OMS Christian Lindmeier, em uma coletiva dada em Genebra:

“Os demais permanecem operacionais (mas) sob forte pressão”, afirmou Lindmeier, referindo-se a um levantamento feito em 21 unidades de saúde venezuelanas. “Constatações preliminares revelam prestação de serviços caótica e fluxo de pacientes desorganizado, marcado por superlotação e aumento do acúmulo de cirurgias”, acrescentou.

Milhares de pessoas que foram deslocadas pelo terremotos correm o risco de surtos de doenças como a febre amarela e dengue, devido a baixa cobertura vacinal, como afirma o porta-voz da OMS. O agravamento destas doenças podem ocorrer principalmente dos problemas estruturais, que favorecem a disseminação. A situação do país pode permanecer ou piorar dependendo dos trabalhos de busca pelas vítimas sobreviventes.

“A destruição de moradias e da infraestrutura provocou uma crise massiva de deslocamento”, afirmou Carolina de Jesús, diretora da Project HOPE na Venezuela. Famílias inteiras estão dormindo em praças e espaços abertos, em condições improvisadas, sem saber se poderão voltar para casa ou se as estruturas que ainda permanecem de pé resistirão a novos tremores. “As pessoas vivem em um estado de profundo terror”, acrescentou. Até mesmo o necrotério está operando acima da capacidade. 

Fonte: G1.globo

“A principal dificuldade é que esta emergência acontece sobre uma crise humanitária que já existia”, afirmou Carolina de Jesús. “Muito antes dos terremotos, o sistema de saúde venezuelano já estava sobrecarregado e subfinanciado. Simplesmente não tinha capacidade para absorver um desastre dessa magnitude”, complementa.

“Os hospitais continuam funcionando muito acima de sua capacidade enquanto atendem um grande número de pacientes com traumas, e a escassez de medicamentos, insumos cirúrgicos, reagentes laboratoriais e equipamentos médicos essenciais ameaça a continuidade do atendimento”, resumiu a Opas em comunicado.

Projeções da Organização Internacional para as Migrações (OIM) da Organização Mundial da Saúde (OMS), indicaram que 6 milhões de pessoas podem ter sido afetadas pelos tremores. E cerca de 50 mil podem estar desaparecidas. Os locais mais atingidos foram: o litoral da porção leste do país, sendo La Guaira a cidade que mais sofreu com os danos. A região do desastre inclui também, Caracas e Maiquetía, onde fica o Aeroporto Internacional Simón Bolívar, a principal porta de entrada do país, o qual permanece fechado até segunda ordem. Outros aeroportos internacionais, como o de Valência, foram reabertos.

Os problemas pós terremoto também atingiram o sistema sanitário. O acesso a água potável e sabe básico entrou em colapso, e ao qual por meses dependeu de ajuda da Cruz Vermelha e de organizações internacionais para ter seu sistema restabelecido. 

Fonte: elespanol.com

O colapso da infraestrutura e o perigo invisível

O comprometimento direto dos serviços de saúde locais gerou um duplo desafio: além de dificultar o atendimento emergencial aos feridos pelo sismo, reduziu drasticamente a capacidade do país de monitorar, rastrear e isolar doenças transmissíveis. Sem saneamento básico e com o acesso limitado à água potável, comunidades inteiras com alta concentração de desabrigados ficaram expostas a vetores e contaminações.

O biofísico Rômulo Neris, mestre em Microbiologia e doutor em Imunologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que o cenário observado na Venezuela infelizmente segue um padrão conhecido em grandes desastres.

“Após esse tipo de catástrofe, é bem comum termos um aumento de doenças virais. Esse número cresce por conta do sistema de saúde que já está sobrecarregado após os terremotos, resultando em milhares de pessoas vulneráveis devido, também, à baixa cobertura vacinal na região”, destaca o especialista.

Fonte: revistanovaimagem.com.br

O mapa das ameaças à saúde pública

A lista de enfermidades que preocupam os infectologistas e a OMS é extensa e divide-se em diferentes frentes de contágio:

  • Doenças de transmissão hídrica e alimentar: Condições precárias de higiene e falta de água tratada abrem caminho para hepatites A e E, leptospirose e doenças diarreicas agudas.
  • Doenças preveníveis por vacina: A interrupção abrupta das campanhas de imunização pode causar o repique de casos de sarampo, difteria e coqueluche.
  • Doenças sazonais e tropicais: O acúmulo de escombros e água parada favorece a proliferação de mosquitos, aumentando o risco de dengue e febre amarela.

“A interrupção das campanhas de vacinação e as condições precárias de higiene podem acelerar a propagação desses agravos”, ressalta Neris. Para conter o avanço dessas ameaças, o especialista aponta o caminho imediato: “É fundamental reforçar a vigilância epidemiológica, ampliar a cobertura vacinal, garantir o fornecimento de água tratada, melhorar as condições de saneamento e intensificar o controle de vetores, como o mosquito transmissor da dengue”.

Corrida contra o tempo e ajuda humanitária

Diante da gravidade do cenário, Neris defende o envio imediato de ajuda humanitária internacional como ferramenta indispensável para fortalecer a resposta à emergência e evitar o agravamento da saúde pública no país vizinho.

No momento, equipes de assistência locais e internacionais seguem mobilizadas em uma força-tarefa para acolher a população afetada e restabelecer os serviços essenciais de energia e água. A expectativa das autoridades de saúde é de que uma resposta rápida, coordenada e cirúrgica nas próximas semanas consiga minimizar os impactos do desastre e, acima de tudo, frear novos surtos antes que eles se espalhem.

Após a ocorrência de grandes desastres naturais, como terremotos e inundações, a contagem de vítimas e o resgate de sobreviventes representam apenas a primeira onda de um desafio complexo. O colapso imediato da infraestrutura básica abre espaço para uma ameaça silenciosa, mas igualmente devastadora: as crises sanitárias secundárias. A escassez de água potável, a interrupção dos serviços de saneamento e a destruição de laboratórios e redes de dados hospitalares transformam alojamentos provisórios em potenciais focos de surtos epidêmicos.

Fonte: El diario

​Para compreender as dinâmicas de contágio nesses cenários extremos e mapear as respostas mais eficientes para conter a proliferação de patógenos, conversamos com o biofísico Rômulo Neris. O especialista detalha desde medidas caseiras emergenciais que podem ser adotadas por desabrigados até a complexa logística de imunização em massa e triagem epidemiológica em campo, alertando ainda para os erros históricos da ajuda internacional que custaram milhares de vidas no passado recente. Confira a entrevista completa a seguir.

​Portal Em Pauta com Fernanda Araújo: Considerando que a falta de água potável e o colapso do saneamento são os gatilhos mais rápidos para surtos, quais medidas caseiras ou de mobilização comunitária emergencial os desabrigados podem adotar nos alojamentos para purificar a água e manusear alimentos de forma segura antes da chegada da ajuda oficial?

​Rômulo Neris: As medidas mais eficientes até que o abastecimento de água potável seja normalizado são o consumo de água mineral engarrafada ou de reservatórios filtrados que não foram atingidos pelo desastre. Caso estas fontes não estejam disponíveis, deve-se ferver água limpa por pelo menos 1 minuto e filtrá-la usando um pano. Também é possível misturar aproximadamente 2 gotas de hipoclorito de sódio por litro de água, mexer e aguardar 30 minutos antes do consumo. Alimentos que não sejam embalados só devem ser consumidos caso o transporte e armazenamento tenham sido adequados. Não se deve comer alimentos encontrados nos escombros de regiões afetadas.

​Portal Em Pauta com Fernanda Araújo: O senhor mencionou o risco do retorno de doenças como sarampo e difteria devido à baixa cobertura vacinal. Diante de um sistema de saúde sobrecarregado pelo atendimento aos feridos do terremoto, qual é a melhor estratégia logística para retomar campanhas de vacinação em massa no meio de uma crise dessas?

​Rômulo Neris: As estratégias devem priorizar restabelecer a cadeia de armazenamento e transporte frio para preservar a vida útil dos imunizantes. Uma vez que seja possível o transporte e armazenamento adequado, deve-se priorizar a imunização das populações de risco da doença e desenvolver campanhas que permitam a imunização em clínicas móveis, campanhas de conscientização com o avanço de equipes de imunização em campo alcançando as famílias e para disponibilizar acesso às vacinas.

​Portal Em Pauta com Fernanda Araújo: Como a vigilância epidemiológica pode atuar de forma eficiente em um cenário de destruição física, onde os hospitais perderam laboratórios e sistemas de dados? Existem ferramentas de triagem rápida ou diagnósticos de campo que podem ser usados nesses abrigos?

Rômulo Neris: Nesses cenários é comum o emprego de testes de diagnóstico de triagem. Esse tipo de teste indica uma alta probabilidade de que aquele caso realmente seja causado pelo agente infeccioso em investigação, mas ainda requer um teste de diagnóstico mais preciso para confirmar o caso. Durante essas emergências, o resultado de testes de triagem ajuda a elaborar os primeiros planos de ação para lidar com surtos locais até que amostras suspeitas possam ser encaminhadas a laboratórios centrais para o diagnóstico final ou então que os materiais e estrutura adequada para o diagnóstico estejam novamente disponíveis no local afetado pelo terremoto.

​​​Portal Em Pauta com Fernanda Araújo: Em termos de ajuda humanitária internacional, quais insumos médicos e equipes especializadas devem ser priorizados nos primeiros aviões de socorro para conter especificamente a crise sanitária, e o que o histórico de outros terremotos na América Latina nos ensina sobre a velocidade desse contágio?

​Rômulo Neris: Segundo a Organização Mundial da Saúde é fundamental garantir que haja profissionais especialistas em trauma, infectologistas e imunologistas, bem como epidemiologistas especialistas em respostas a terremotos. A resposta coordenada por esses profissionais é crítica para evitar grandes surtos como consequência de terremotos. Em 2010, após um terremoto no Haiti, casos de cólera que não eram detectados nos 100 anos anteriores no país explodiram durante o suporte de outros países à crise, devido à falta de manejo adequado de dejetos humanos. Em poucos meses, o surto alcançou mais de 800 mil haitianos, causando em torno de 10 mil mortes.

Fonte: G1/CNN

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