No Dia Nacional de Conscientização sobre o Transtorno, neurologista explica por que a desatenção não deve ser confundida com preguiça ou falta de esforço
Por Redação
CAMPINA GRANDE, PB – 12/07/2026
Celebrado em 13 de julho, o Dia da Conscientização sobre o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) joga luz sobre uma condição neurobiológica que afeta cerca de 5% das crianças e adolescentes e até 4% dos adultos globalmente. Apesar de ser um distúrbio comum, o diagnóstico tardio ainda é uma realidade para milhões de pessoas que crescem ouvindo que sua falta de foco é, na verdade, preguiça, desinteresse ou falta de disciplina. O alerta vem de especialistas que reforçam: o cérebro de quem tem TDAH funciona de forma diferente, e o que parece descuido é, muitas vezes, um sintoma médico que precisa de suporte.
Segundo estudos, o componente do TDAH está comumente ligado aos pais que também possuem o transtorno. Meninos e meninas possuem sintomas semelhantes, porém a hiperatividade é menos evidente nas meninas. De 3% a 5% das crianças possuem o transtorno, e nos últimos anos a identificação passou a ser feita com mais precisão. Das crianças com TDAH, 15%, se tornam adultos com sintomas completos; já 65% têm remissão parcial dos sintomas.
Para o médico neurologista e neurocirurgião Dr. Marcio Rassi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, o preconceito e a falta de informação são os maiores obstáculos para o bem-estar dos pacientes.
“O TDAH é uma condição neurobiológica. Não estamos falando de falta de vontade ou de esforço. O cérebro dessas pessoas funciona de maneira diferente, especialmente em áreas relacionadas à atenção, ao planejamento e ao controle dos impulsos”, explica o especialista.
TDAH é a sigla para Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, que é um transtorno que tem seu início na infância, geralmente por volta dos 12 anos, podendo continuar na adolescência e na vida adulta. A causa do transtorno ainda é desconhecida, no entanto, pode estar relacionada a herança genética e as influências ambientais, como por exemplo, o período gestacional e os primeiros anos de vida.

Os sintomas variam de pessoa para pessoa, manifestando-se de diferentes formas em crianças, adolescentes e adultos. Geralmente, os sintomas principais se enquadram nas seguintes categorias, ao qual pode se manifestar em todos os pacientes ou alguns deles. São eles:
- Desatenção;
- Hiperatividade;
- Impulsividade.
Os sinais ocultos na vida adulta
Embora as manifestações costumam aparecer ainda na infância, uma parcela expressiva de pacientes só descobre o transtorno na idade adulta, após anos de frustrações acumuladas. Os sintomas vão muito além da conhecida agitação física e mental, incluindo:
- Dificuldade crônica para manter a concentração em tarefas longas;
- Esquecimento frequente de compromissos e datas importantes;
- Perda constante de objetos do dia a dia (chaves, carteira, celular);
- Procrastinação severa e grande dificuldade de organização;
- Inquietação e comportamento impulsivo.
Além disso há outros indicadores silenciosos, como:
- Instabilidade Emocional: Extrema dificuldade em gerenciar frustrações, críticas ou rejeições. Isso costuma engatilhar respostas emocionais abruptas e intensas, fenômeno caracterizado como Disforia Sensível à Rejeição.
- Hiperconcentração: Habilidade de mergulhar profundamente em temas de interesse pessoal por períodos prolongados — a ponto de ignorar necessidades biológicas básicas —, enquanto obrigações rotineiras acabam ficando de lado.
- Bloqueio por Sobrecarga (Paralisia de Tarefas): Um estado de travamento mental em que, apesar de a pessoa ter plena consciência da urgência de um compromisso, o cérebro simplesmente não consegue dar o primeiro passo ou finalizar a ação.
- Mente Inquieta: Um fluxo ininterrupto de ideias, reflexões ou melodias repetitivas ecoando na mente, o que sabota os momentos de descanso e prejudica a qualidade do sono.
- Espontaneidade Social Excessiva: Tendência a atravessar a fala alheia, comunicar-se em volume ou ritmo exagerados e manifestar dificuldade em calibrar o tom de voz ou ler as nuances do ambiente.
- Distorção da Percepção Temporal: Fenômeno também conhecido como “cegueira do tempo”, em que a noção das horas se perde, fazendo com que atividades triviais parecem durar muito mais — ou muito menos — do que duram na realidade.
- Reações Impulsivas (Financeiras ou Verbais): Agir sem medir as consequências em busca de satisfação instantânea, o que se traduz em gastos desnecessários ou em comentários impensados.

Sinais do TDAH em crianças e adolescentes
O TDAH pode ser diagnosticado em qualquer fase da vida. No entanto, quanto mais cedo for feito o diagnóstico melhor, para que tanto a criança quanto o adolescente possa receber o suporte adequado, para desenvolver estratégias para lidar com os sintomas. Nas crianças os impactos podem afetar o desempenho escolar, relacionamentos e vida familiar.
Como é feito o diagnóstico?
Uma das principais razões para o atraso na descoberta é que o TDAH não aparece em exames de sangue ou de imagem, como tomografias e ressonâncias. É feito geralmente com o apoio de uma equipe multidisciplinar que vai desde neuropediatra, neurologista, psiquiatras e neuropsicólogos. Na avaliação se considera os sintomas, histórico médico, comportamento em casa, na escola e no trabalho. Além disso, exames clínicos também são levados em consideração, para descartar outras condições que tenham sintomas parecidos; por isso, é importante que o indivíduo receba um diagnóstico correto para se ter um acompanhamento regular.
Como complemento da avaliação, os especialistas usam com frequência a escala de avaliações do TDAH, como questionário aplicados a pais, professores e alguns casos ao paciente. A partir disso, é avaliado a frequência e intensidade dos sintomas, fazendo uma comparação com os padrões já estabelecidos. A escala mais utilizada é a Escala de Conners, avaliando a hiperatividade e dificuldades emocionais. O uso destas ferramentas atrelados a uma avaliação médica detalhada, é importante para fazer um diagnóstico completo e ver as melhores formas de tratamento.
“O diagnóstico é puramente clínico”, esclarece o Dr. Marcio Rassi. “Ele exige uma avaliação detalhada da história de vida do paciente, dos sintomas apresentados e, principalmente, dos prejuízos reais que essa condição está causando em diferentes contextos, como na escola, no trabalho e nos relacionamentos afetivos.”
Sem o direcionamento correto, o impacto na saúde mental pode ser grave. Pesquisas mostram que indivíduos que convivem com o transtorno sem suporte apresentam um risco significativamente maior de desenvolver quadros de ansiedade, depressão, baixa autoestima, além de enfrentarem constantes problemas profissionais e conflitos interpessoais.
Os sintomas do TDAH, podem coexistir com sintomas de outros transtornos ou parecer com eles. Por isso, exames rápidos e listas de sintomas encontrados na Internet não devem ser considerados para uma avaliação adequada. A instabilidade emocional em adultos é um dos sintomas que mais trazem impactos aos adultos com o transtorno.

- Quadros ansiosos: que frequentemente geram agitação física e mental, além de comprometerem a capacidade de concentração.
- Estados depressivos: Os quais costumam minar a disposição, o foco nas tarefas e o entusiasmo diário.
- Transtorno bipolar: com impactos perceptíveis sobretudo em fases de comportamento impulsivo e instabilidade emocional.
- Alterações do sono: a exemplo da insônia e da apneia, que afetam diretamente as funções cognitivas, como a retenção de memórias e a atenção.
- Consumo de substâncias: incluindo o abuso de álcool, entorpecentes ou os efeitos colaterais de certas medicações.
O tratamento vai além do medicamento
Felizmente, quando o diagnóstico é feito, as perspectivas de melhora são excelentes. O Dr. Rassi enfatiza que o tratamento do TDAH é totalmente individualizado e multidisciplinar, integrando diferentes frentes de ação:
| Frente de Tratamento | O que envolve |
| Terapia Psicológica | Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para criar estratégias de foco e organização. |
| Mudança de Estilo de Vida | Rotina estruturada, sono adequado e alimentação equilibrada. |
| Atividade Física | Prática regular de exercícios, que ajuda a regular os neurotransmissores da atenção. |
| Suporte Medicamentoso | Utilizado de forma criteriosa e quando avaliado necessário pelo médico. |
No tratamento de crianças e adolescentes incluem medicamentos, terapia, apoio psicológico e suporte escolar. A medicação pode ser utilizada para controlar a hiperatividade. No entanto, é preciso a criação de uma rotina organizada, valorizar os bons comportamentos e incentivar a prática de exercícios físicos que foram a diferença no desenvolvimento da criança e adolescente.
A maioria das crianças se tornam adultos produtivos e parecem se adaptar melhor ao trabalho até mais do que a escola. No entanto, caso não tratadas enquanto crianças, podem desenvolver problemas com abuso de substâncias como álcool e drogas, e cometer algo contra si próprio.
“O objetivo do tratamento não é mudar a personalidade da pessoa, mas ajudá-la a desenvolver todo o seu potencial, reduzir os prejuízos causados pelos sintomas e melhorar substancialmente sua qualidade de vida”, destaca o neurologista. Para que o paciente desenvolva estratégias para lidar melhor com os desafios diários.

Para melhorar o foco algumas estratégias são importantes para melhorar o foco, e a concluir as atividades, como:
- Uso da técnica pomodoro;
- Ter um ambiente livre de distrações;
- Uso de aplicativos e ferramentas;
- Técnica do bloco de tempo;
- Checklist e alarmes para ajudar a manter os compromissos e evitar atrasos;
- Organização visual por meio de cores;
- Ter uma rotina fixa;
- Técnicas de associação mental;
- Dividir as tarefas em pequenos passos;
- Estabelecer metas de curto prazo;
- Criar recompensas para motivar na conclusão das atividades.
A mensagem principal para este 13 de julho é a urgência do acolhimento e da busca por ajuda especializada. “Quanto mais cedo o diagnóstico for realizado, maiores são as chances de o paciente evitar impactos profundos na vida escolar, profissional e social. O TDAH tem tratamento e nunca deve ser encarado como uma falha de comportamento”, conclui o Dr. Marcio Rassi.






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