Especialista revela como identificar temas com potencial de cobrança
Em vez de apostar em listas de possíveis temas, estudantes podem analisar problemas que impactam o Brasil e construir repertório para desenvolver uma redação sobre diferentes assuntos
Por Redação
Campina Grande, PB – 04/11/2026
Todos os anos, às vésperas do Enem, uma pergunta se repete entre os estudantes: qual será o tema da redação? Embora não seja possível antecipar a proposta escolhida pelo exame, especialistas afirmam que existe uma estratégia mais eficiente do que tentar adivinhar: observar os principais problemas brasileiros e entender quais deles têm características compatíveis com o modelo de redação exigido pela prova.
De antemão não é possível antecipar qual tema será a redação do Enem, no entanto, é possível se preparar com antecedência para os principais eixos temáticos. De acordo com especialistas e professores, a banca Inep não busca adivinhações, mas problemas sociais, culturais, políticos ou ambientais contemporâneos do Brasil.
O Enem 2025 teve 4.811.338 inscrições confirmadas, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Desse total, 1.390.815 eram estudantes concluintes da rede pública de ensino médio, mostrando a dimensão do exame para os jovens que buscam uma vaga no ensino superior.
Para Cris Oliveira, professora de redação, língua portuguesa e literatura, o estudante não deve confundir um assunto que está viralizando com um tema que necessariamente tenha potencial para aparecer na prova.
“Não existe uma fórmula para descobrir o tema da redação. O que podemos fazer é analisar o contexto e identificar problemas que possuem relevância social, no cenário brasileiro. O estudante que tenta decorar uma lista de possíveis temas fica limitado. Já aquele que entende os problemas do país e consegue argumentar sobre eles está preparado para uma proposta que pode vir de diferentes maneiras”, explica.
A redação do Enem, exigirá do candidato a produção de um texto dissertativo-argumentativo em modalidade de escrita formal da língua portuguesa sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política. O candidato deverá defender um ponto de vista — uma opinião a respeito do tema proposto —, apoiada em argumentos consistentes, estruturados com coerência e coesão, formando uma unidade textual.
Quanto à estrutura do texto, o candidato deverá selecionar, organizar e relacionar, também de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para a defesa do seu ponto de vista. Você também deverá elaborar uma proposta de intervenção social para o problema apresentado no desenvolvimento do texto. Por fim, essa proposta deve respeitar os direitos humanos.
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A estratégia mais eficiente: estudar por eixos temáticos
Em vez de tentar decorar possíveis temas para a redação, os estudantes podem direcionar a preparação para grandes eixos temáticos que aparecem com frequência nos debates sociais e podem servir de base para as propostas do Enem. Entre os principais estão:
- Meio ambiente e sustentabilidade: mudanças climáticas, preservação ambiental e consumo consciente;
- Tecnologia, redes sociais e desinformação: inteligência artificial, fake news e impactos do ambiente digital;
- Saúde e saúde mental: acesso aos serviços de saúde, qualidade de vida e bem-estar psicológico;
- Inclusão social e minorias: direitos dos povos indígenas e quilombolas, idosos e pessoas com deficiência;
- Educação e desafios de acesso: desigualdades educacionais, evasão escolar e democratização do ensino;
- Cidadania e questões urbanas: mobilidade urbana, violência e garantia de direitos.
“Se a estrutura do aluno não estiver impecável, se o texto não estiver muito bem estruturado, não adianta ter repertórios, não adianta ter ideias se o básico da estrutura não estiver muito bem consolidado”, alerta o professor de Redação da Rede Chromos de Ensino, Joel Fonseca. Segundo o professor, o aluno deve evitar os chamados “repertórios coringa”, que se referem às referências utilizadas pelos candidatos em diversas propostas de redação.

O professor menciona que segundo indicações do Enem, os candidatos devem buscar por repertórios socioculturais pertinentes e produtivos, para que possam construir com efetividade a argumentação. Fazer o uso de Filmes, séries, músicas, livros, acontecimentos noticiados e documentos oficiais, como a Constituição Federal, entre outros, também podem servir de referência. O que importa é o candidato conseguir explicar a relação entre o repertório escolhido e a discussão proposta. “Às vezes, no Enem, o que embasa as ideias do aluno são questões simples, exemplos do mundo do cotidiano, uma notícia que ele viu, uma música que ele consegue relacionar com o tema”, explica o professor.
Uma boa dica é que os candidatos possam analisar as edições anteriores do Enem e possam ver as recorrências das áreas das propostas. E uma recomendação do professor Fonseca é acompanhar as questões sociais que ganharam destaque no país nos últimos anos, como os seguintes grupos: crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, pessoas neuro divergentes, população LGBTQIA+, trabalhadores, professores e estudantes.
O que realmente faz a diferença na redação
Mais importante do que tentar adivinhar o tema é dominar a estrutura do texto dissertativo-argumentativo e compreender as cinco competências avaliadas pelo Inep. São elas que orientam a correção da redação e determinam o desempenho do candidato:
- Domínio da escrita formal: demonstrar conhecimento da norma-padrão da língua portuguesa.
- Compreensão do tema: interpretar a proposta corretamente e utilizar conhecimentos de diferentes áreas para construir argumentos.
- Defesa de um ponto de vista: selecionar, relacionar e organizar informações, fatos e argumentos para sustentar uma opinião.
- Coesão textual: utilizar adequadamente os mecanismos linguísticos que garantem a conexão e a continuidade das ideias.
- Proposta de intervenção: apresentar uma solução para o problema discutido, com informações detalhadas e respeito aos direitos humanos.
Para conhecer os critérios de avaliação e entender o que é esperado dos participantes, os estudantes podem consultar a Cartilha do Participante, disponibilizada oficialmente pelo Inep.
O que pode transformar um assunto em tema de redação?
De acordo com a professora, a análise deve ir além do que está sendo mais comentado nas redes sociais. O Enem costuma trabalhar com questões-problema, permitindo que o candidato desenvolva uma argumentação e apresente uma proposta de intervenção.
A cartilha oficial do Inep estabelece que a redação deve ser um texto dissertativo-argumentativo, no qual o participante defende um ponto de vista utilizando argumentos e informações, além de apresentar uma proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.
“Uma notícia pode estar em alta hoje e desaparecer da discussão amanhã. Isso não significa que ela tenha características para se transformar em uma proposta de redação. O mais importante é perguntar: qual problema existe por trás desse assunto? Ele afeta a sociedade? Existe uma discussão pública sobre ele? Há diferentes perspectivas que podem ser analisadas?”, afirma Cris.

O período de elaboração também entra no radar
Uma das estratégias de análise é observar o cenário brasileiro durante o período em que a prova está sendo construída. Isso permite identificar quais questões estavam ganhando relevância no país e poderiam integrar o repertório utilizado pelos estudantes.
A professora ressalta, porém, que essa análise deve ser utilizada para direcionar os estudos, e não para criar uma suposta previsão do tema. “É possível fazer um mapa de tendências, mas não uma previsão. O aluno pode olhar para o Brasil e perceber que determinadas questões estão sendo discutidas com intensidade. Isso serve como orientação para aprofundar o repertório, não como garantia de que aquele assunto estará na prova”, explica.
Meio ambiente, inteligência artificial e desigualdade estão entre os grandes eixos
Entre os assuntos que podem ser acompanhados durante a preparação estão mudanças climáticas, eventos climáticos extremos, desigualdade social, saúde pública, educação, inteligência artificial, transformações no mercado de trabalho, desinformação, violência contra grupos vulneráveis, envelhecimento da população, inclusão de pessoas com deficiência, segurança alimentar, mobilidade urbana, racismo, preservação cultural, direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais e saúde mental.
A orientação é não transformar esses assuntos em “apostas”, mas estudá-los como grandes eixos temáticos. Um exemplo está na própria área da educação. Segundo o Censo Escolar 2025, a proporção de matrículas presenciais em tempo integral na rede pública chegou a 25,8% na educação básica. No ensino médio, o índice alcançou 26,8% em 2025, ante 16,7% em 2022.
Dados como esses podem ser utilizados para compreender transformações e desafios da sociedade brasileira e ampliar o repertório sociocultural necessário para a redação.
Como estudar sem tentar adivinhar
Para Cris Oliveira, a preparação deve começar pela compreensão dos problemas, e não pela memorização de redações prontas. “Eu recomendo que o estudante pegue um tema e faça cinco perguntas: qual é o problema, quais são as causas, quem é afetado, quais são as consequências e o que pode ser feito para solucioná-lo. Se ele consegue responder a essas perguntas e relacionar o assunto a dados, acontecimentos históricos, leis, conceitos e exemplos, ele está construindo repertório de verdade”, orienta.
A estratégia também pode ajudar o estudante a desenvolver uma das partes mais importantes da redação: a proposta de intervenção. “Não basta apontar que existe um problema. O aluno precisa pensar em caminhos e perspectivas para enfrentá-lo. Quem entende a estrutura do problema consegue construir uma intervenção mais específica e coerente, em vez de recorrer a soluções genéricas”, acrescenta a especialista.
Redação exige repertório e não uma lista de apostas
A redação do Enem vale até 1.000 pontos e é avaliada em cinco competências, cada uma podendo representar até 200 pontos. Entre os aspectos avaliados estão o domínio da modalidade escrita formal, a compreensão da proposta, a organização dos argumentos e a elaboração de uma proposta de intervenção.
Por isso, segundo Cris, a preparação mais eficiente é aquela que permite ao candidato adaptar seu conhecimento a diferentes propostas. “O estudante não precisa saber exatamente qual tema vai aparecer. Ele precisa estar preparado para discutir problemas. Quando existe repertório, capacidade de análise e argumentação, ele consegue se adaptar. A prova pode surpreender no tema, mas não deveria surpreender quem aprendeu a pensar sobre a realidade brasileira”, conclui.
A edição de 2026 do Enem está prevista para os dias 8 e 15 de novembro, segundo o cronograma oficial do Inep.

Como Transformar Questões Sociais em Repertório Real para o Enem 2026
Com a proximidade de mais um ciclo do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a preparação para a prova de redação costuma vir acompanhada de dúvidas, ansiedades e da incansável busca por “temas coringa”. No entanto, alcançar uma nota alta exige ir além da memorização de fórmulas prontas ou da tentativa de adivinhar o tema da vez.
Para entender o que torna um problema social relevante para o exame, como construir um repertório sociocultural legítimo e de que forma estruturar uma argumentação consistente sem recorrer a modelos engessados, conversamos com Cris Oliveira, professora de Redação, Língua Portuguesa e Literatura. Na entrevista a seguir, a especialista compartilha orientações práticas sobre leitura de mundo, análise de eixos temáticos atuais e estratégias eficientes de estudo para o Enem 2026.
Portal Em Pauta: O que faz de um problema social um tema relevante para o Enem?
Cris Oliveira: Um problema social tem potencial para a redação quando envolve uma questão coletiva, ligada aos direitos, à cidadania e à vida em sociedade — ou seja, que esteja sendo vivenciada por todos e permita uma reflexão que vá além de um caso isolado. Também é importante que o tema possa ser discutido de forma ampla, considerando diferentes causas, consequências, grupos afetados e caminhos de enfrentamento.
Para diferenciar um assunto que está apenas em evidência nas redes de uma questão social relevante, o estudante precisa se perguntar: isso afeta a vida de quem e de que maneira? Há causas estruturais? Que direitos estão envolvidos? O problema exige uma resposta coletiva? A repercussão digital, por si só, não transforma um acontecimento em tema de redação, até porque não conversa necessariamente com os eixos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O mais importante é compreender o que o tema revela sobre a sociedade.
Portal Em Pauta: Que debates atuais merecem atenção na preparação para o Enem 2026?
Cris Oliveira: Eu não recomendaria tentar adivinhar o tema. Todos os anos isso é motivo de muita ansiedade e, por vezes, torna-se um obstáculo para a preparação efetiva. É mais produtivo acompanhar debates que atravessam diferentes dimensões da vida brasileira e aprender a analisá-los com profundidade. Alguns eixos que merecem atenção são:
- Meio ambiente e desigualdade climática: eventos extremos, secas, ondas de calor, enchentes, prevenção de desastres e os impactos desiguais sobre as populações mais vulneráveis.
- Tecnologia, inteligência artificial e cidadania: acesso desigual às ferramentas digitais, privacidade, desinformação, vieses, uso de IA na educação e impactos sobre o trabalho. O debate não precisa ser “a favor ou contra” a tecnologia, mas sobre como garantir que seu uso seja responsável e não aprofunde desigualdades.
- Envelhecimento e direitos: cuidado, etarismo, autonomia, participação social e acesso a serviços.
- Saúde mental e juventude: acesso a cuidado, prevenção, acolhimento e fatores sociais que afetam o bem-estar.
- Trabalho, violência e desigualdade: informalidade, precarização, oportunidades para os jovens, violência contra grupos vulneráveis e desigualdades de gênero e raça.
Esses eixos servem para orientar a leitura do mundo, não para prever a prova. Um bom repertório sobre um eixo pode ajudar a pensar vários temas, desde que seja relacionado com precisão ao recorte proposto.
Portal Em Pauta: Como construir um repertório sociocultural diversificado?
Cris Oliveira: Repertório não é uma coleção de citações decoradas, mas um conhecimento que o estudante compreende e consegue mobilizar para explicar ou sustentar uma ideia. Pode vir de livros, filmes, obras de arte, aulas de História e Sociologia, notícias, pesquisas, dados oficiais e experiências observadas na comunidade.
Sugiro que o estudante leia fontes variadas e confiáveis, como IBGE, Fiocruz, Ipea, universidades e órgãos públicos, e registre não apenas um dado ou uma referência, mas também o que aquilo ajuda a explicar. Um número, por exemplo, precisa ser interpretado: qual realidade ele evidencia? Que grupo é mais afetado? Como se conecta à tese?
Também não é necessário citar um filósofo em toda redação. Aliás, a depender de como isso é feito, vira “repertório de bolso” e acaba sendo um tiro no pé. Uma referência simples, bem compreendida e diretamente relacionada ao tema costuma ser mais produtiva do que uma citação sofisticada que não contribui para a argumentação. O estudante precisa se apropriar do repertório e usá-lo para validar o que está defendendo.
Portal Em Pauta: Como analisar um possível tema na prática?
Cris Oliveira: Primeiro, é preciso ler com atenção a frase temática e os textos motivadores, identificando o recorte exato: qual problema está sendo discutido, em que contexto e em relação a quem?
Depois, pode-se organizar a análise em perguntas: quais são as causas? Quais são as consequências? Quem é afetado e de que modo? Que responsabilidades cabem ao poder público, às instituições e à sociedade? Esse exercício ajuda a escolher argumentos que realmente explicam o problema, em vez de apenas mencioná-lo. Se, por exemplo, a tese aponta duas causas, cada parágrafo de desenvolvimento pode aprofundar uma delas, com explicação e repertório pertinente.
A proposta de intervenção, por sua vez, deve responder ao que foi discutido: quem pode agir, o que pode fazer e com qual finalidade. A conclusão não deve trazer uma solução genérica desconectada do texto. É preciso haver coerência entre o que foi anunciado na introdução, desenvolvido nos argumentos e proposto ao final, sempre respeitando os direitos humanos.
Portal Em Pauta: Quais erros evitar e qual estratégia de estudo seguir?
Cris Oliveira: Um erro comum é gastar tempo tentando prever o tema e deixar de treinar a leitura, a argumentação, a escrita e a reescrita. Outro é depender de modelos prontos: eles podem até parecer seguros, mas costumam produzir textos pouco autorais, com repertórios encaixados à força e risco de fugir do recorte solicitado.
A estratégia que recomendo é: mais trabalho, menos adivinhação. Treinar redações completas, ler propostas com atenção, construir planos de texto, receber correções e reescrever. Ao revisar, o estudante pode verificar se respondeu ao tema inteiro, se a tese está clara, se os argumentos foram aprofundados, se o repertório é produtivo e se a intervenção decorre da discussão.
A preparação deve formar um estudante capaz de pensar, não apenas de reproduzir uma fórmula. O tema pode ser inesperado; a capacidade de interpretá-lo, organizar ideias e escrever com clareza é que precisa ser treinada.
Fontes:
- Rádio Itatiaia
- Inep





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