Produção aborda ancestralidade e meio ambiente e se torna ferramenta pedagógica para o ENEM

Por Redação 

Campina Grande, PB – 12/10/2026

Em 22 dias de exibição, o documentário “Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe” consolidou sua trajetória nos cinemas e junto ao público escolar. No circuito comercial, segundo dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), até 9 de setembro de 2026, o filme acumulou 5.070 espectadores em 575 sessões, alcançando 49 salas de cinema em 39 complexos exibidores.

Na ação escolar, a iniciativa de democratização do acesso recebeu solicitações de mais de 26 mil professores e estudantes. Desse total, mais de 4 mil pessoas receberam ingressos individuais, enquanto 321 escolas se inscreveram para levar suas turmas às sessões, totalizando 23.747 alunos e educadores contemplados.

Dirigido coletivamente por mulheres indígenas, o filme aborda a cosmologia, a ancestralidade e a defesa do território Munduruku. A produção estreou em 42 salas de cinema na primeira semana de exibição e permaneceu em mais de 30 na segunda. A procura das escolas, porém, superou a capacidade de atendimento durante a programação regular do circuito comercial.

“Documentários ainda têm pouco espaço no circuito comercial. Levar estudantes ao cinema também é uma forma de ocupar essas salas, formar público e mostrar que existe demanda. Esse é o convite do CurtaENEM: vá ao cinema assistir a um documentário, leve sua turma e ajude a ampliar esse espaço. A procura por ‘Mundurukuyü’ mostra que esse público existe”, afirma Vanessa de Araújo Souza, diretora da Curta Distribuidora e do CurtaENEM.

Fonte: Foto Divulgação

Para atender às instituições que não conseguiram participar das sessões comerciais, “Mundurukuyü” foi escolhido para estrear o Cineclube CurtaENEM, cuja programação tinha início previsto para setembro. As escolas já inscritas e ainda não atendidas seriam automaticamente incluídas nessa nova etapa, que prevê exibições nas próprias unidades de ensino e sessões de impacto em centros culturais e espaços parceiros. Novas escolas interessadas também podem se inscrever pelo site do CurtaENEM.

A circulação do filme é acompanhada por uma ação pedagógica do CurtaENEM, que preparou oito planos de aula fundamentados na obra. O material reúne propostas para diferentes áreas do conhecimento e oferece possibilidades de utilização do documentário como repertório sociocultural para o ENEM. Os planos didáticos estão disponíveis gratuitamente na plataforma do projeto e podem ser acessados por professores de todo o Brasil.

Professores que já utilizaram o material destacam o potencial da obra em sala de aula. “Assistimos ao filme e, ao final da sessão, levantei algumas questões para os alunos refletirem, para trabalharmos posteriormente em sala de aula. Gostaria de agradecer pela oportunidade, o filme é lindo”, elogiou a professora Cláudia Lobo (RJ), após a experiência. Ela também comentou: “Muito rico, muitas ideias para trabalhar a partir do filme. Agradeço mais uma vez”.

Sobre a importância da mediação pedagógica, Katia Souza, coordenadora pedagógica do CurtaENEM, reforça: “Assistir a um filme, por si só, não constitui uma experiência pedagógica. É a mediação do professor que pode transformar a experiência estética em experiência de aprendizagem. Uma cena pode provocar uma pergunta, uma narrativa pode confrontar um preconceito e uma imagem pode ampliar o repertório do estudante”.

Os materiais abordam temas como povos originários, território, ancestralidade, memória, diversidade cultural, patrimônio imaterial, meio ambiente e relações étnico-raciais, com base em trechos do documentário e em debates propostos a partir da obra.

“Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe” é dirigido por Aldira Akay Munduruku, Beka Munduruku e Rilcélia Akay Munduruku (com roteiro de Estêvão Ciavatta) integrantes do Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi. O documentário é falado majoritariamente na língua Munduruku, com legendas em português. No filme é retratado a aldeia Sawre Muybu, às margens do rio Tapajós, no Pará, explorando a ancestralidade, a mitologia e a resistência do povo Munduruku.

​Mais do que um sucesso de bilheteria, o filme transformou-se em uma poderosa ferramenta pedagógica. Ao colocar em pauta questões ambientais e sociais urgentes, a obra passou a caminhar lado a lado com estudantes de todo o país na preparação para o ENEM.

​Nas telas dos cinemas, a produção mobilizou milhares de pessoas em dezenas de salas espalhadas pelo Brasil. No entanto, o alcance do projeto ganhou ainda mais força quando ultrapassou o circuito comercial e ocupou o cotidiano das escolas, conectando a sétima arte à sala de aula.

A distribuição é da Curta Distribuidora, e o Cineclube CurtaENEM é uma iniciativa do CurtaEducação.

Assista ao trailer oficial do documentário para conhecer mais sobre a obra: https://youtu.be/zhl-yB2Efg4?is=soII-H98n5H4R23b

O audiovisual tem se consolidado como uma potente ferramenta de retomada narrativa, salvaguarda cultural e resistência política para os povos originários do Brasil. No documentário Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe, as diretoras Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay — integrantes do Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi — assumem o protagonismo da própria história, unindo as tecnologias de registro à oralidade e à cosmologia de seu povo.

A obra aborda a centralidade das mulheres Munduruku na defesa do território, a relação indissociável entre a vida humana e o meio ambiente perante as ameaças do extrativismo predatório, e o papel transformador do cinema indigena na construção de uma educação antirracista, plural e crítica no ambiente escolar.

Fonte: Vanessa de Araujo Souza e as diretoras do documentário

A seguir, confira na íntegra da entrevista concedida pelas diretoras para o Portal Em Pauta com Fernanda Araújo.

Entrevista — Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi

Entrevistadas: Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay (Diretoras de Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe)

Em Pauta: Como surgiu a ideia de realizar o filme e o que vocês desejam transmitir ao público?

A ideia surgiu da nossa luta pela defesa do território e da vontade de contar as histórias do nosso povo. Em meio a tantas invasões e ameaças, sentimos que era importante mostrar por que defendemos a floresta, os rios e os animais. Para nós, eles não são apenas recursos da natureza. Nossas histórias contam que, no princípio do mundo, os rios, as plantas e os animais foram nossos antepassados. Por isso, quando defendemos a floresta, estamos defendendo nossos parentes.

Esses conhecimentos sempre foram transmitidos pelos nossos mais velhos, através da oralidade. Hoje, usamos também as câmeras para registrar essas histórias e levá-las a outros lugares. Queremos mostrar que nossa cultura está viva, que continuamos falando nossa língua, preservando nossos conhecimentos e lutando para que as próximas gerações também possam viver no nosso território.

Em Pauta: Como a equipe recebeu a repercussão entre estudantes e professores? O que esse interesse revela?

Ficamos muito felizes em saber que tantos estudantes e professores querem conhecer a nossa história. Quando começamos a usar as câmeras, nosso objetivo era levar a voz do nosso povo para fora do território, mostrar nossa realidade e fazer com que mais pessoas conhecessem nossa cultura e nossa luta.

Ver o filme chegar às escolas tem uma importância muito grande, porque as crianças e os jovens podem conhecer os povos indígenas a partir das nossas próprias histórias, contadas por nós. Muitas pessoas ainda sabem pouco sobre como vivemos hoje.

Esperamos que esses estudantes conversem sobre o filme, façam perguntas e entendam que os povos indígenas não pertencem apenas ao passado. Estamos aqui, temos nossos conhecimentos, nossas tecnologias, nossos modos de viver e continuamos defendendo nossos direitos.

Em Pauta: Como a participação feminina influencia a narrativa e amplia a representatividade indígena no audiovisual?

As mulheres Munduruku têm uma participação muito importante na defesa do território, na transmissão dos conhecimentos e na luta do nosso povo. Nós também estamos nessa luta, usando câmeras, celulares e outras tecnologias para registrar o que acontece nas aldeias e mostrar nossa realidade.

Durante muito tempo, outras pessoas vinham ao nosso território para fazer imagens e contar nossas histórias. Hoje, nós mesmas podemos decidir o que queremos mostrar e como queremos contar. Isso é muito importante, porque ninguém conhece nossa vida melhor do que nós.

O cinema é mais uma ferramenta para nossa resistência. Queremos que outras mulheres e jovens indígenas também possam fazer seus filmes, contar suas histórias e mostrar que somos capazes de ocupar esses espaços sem deixar de ser quem somos.

Em Pauta: Que reflexões o documentário busca despertar sobre a relação entre seres humanos e natureza?

Queremos que as pessoas entendam que não existe separação entre nós e a floresta. O rio, as árvores, os peixes e os animais fazem parte da nossa história e da nossa vida. A floresta não é apenas um lugar de onde tiramos nosso alimento. Ela é nossa casa, guarda nossos conhecimentos e também nossos lugares sagrados.

Quando o garimpo invade o território e contamina os rios com mercúrio, não está destruindo apenas a natureza. Está ameaçando nossa saúde, nossa alimentação, nossa cultura e o futuro das nossas crianças.

Esperamos que o filme faça as pessoas pensarem sobre isso. Defender a Amazônia não é somente proteger as árvores. É proteger a vida de todos que fazem parte dela, inclusive os povos que vivem na floresta e cuidam dela há muitas gerações.

Em Pauta: Como o cinema pode combater preconceitos e contribuir para uma educação mais diversa e crítica?

Achamos muito importante que nossas histórias cheguem às escolas. Muitas vezes, os estudantes aprendem sobre os povos indígenas apenas pelos livros, sem conhecer nossa realidade atual, nossa língua, nossa cultura e nossas lutas.

Com o filme, eles podem ouvir nossas vozes, conhecer nossa aldeia e compreender um pouco da maneira como enxergamos o mundo. Também podem perceber que os conhecimentos indígenas têm muito a ensinar, inclusive sobre a relação com a natureza.

É muito bom saber que os professores podem usar o documentário em diferentes matérias e continuar essa conversa dentro da sala de aula. Para nós, o mais importante é que os estudantes conheçam e respeitem os povos indígenas e entendam que continuamos vivos, produzindo conhecimento, fazendo cinema e lutando por nosso futuro.

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